Sonetos de Antero de Quental

Antero de Quental
A CARNE E O HOMEM
Clamou a Carne ao Homem: – Foge à lida!
Embriaga-te e sonha! Tudo é nada…
A Terra é a nossa vinha iluminada
E eu sou a tua noiva apetecida…

E o pobre cavaleiro, em desabrida,
Sobre o corcel da mente incontentada,
Gozou, riu-se e fugiu à luz da estrada,
Procurando o prazer, de alma insofrida.

Mas veio um dia o Tempo e disse: – Pára!
E alterando-lhe a face nobre e rara,
Deu-lhe a velhice, amargurosa e dura.

E, ofegando na Carne, quase morta,
O Homem triste caiu vencido, à porta
Do jazigo abismal da sepultura.

Antero de Quental
FRÁGIL REI
Disse a Vaidade ao Homem: - Não te dobres!
Reges a Terra e a vastidão divina…
E o Orgulho ajuntou: - Vence e domina,
Humilhando os mais fracos e mais pobres.

Disse o Egoísmo: - A paz em te encobres
Provém da bolsa que não desatina.
Cerra teu cofre e esquece a vã doutrina
Que elege os bons e os tolos por mais nobres.

O Homem riu-se e reinou… Mas, veio um dia
Em que a dor invisível, muda e fria,
Mirou-lhe as torres do castelo forte…

E o frágil rei, fugindo ao falso gozo,
Desceu triste, cansado e desditoso
Para o vale de lágrimas da Morte...