Pôr termo nas provas

27. Deve-se pôr termo às provas do próximo quando se pode, ou devemos, por respeito aos desígnios de Deus, deixá-las seguir o seu curso?

BERNARDIN, Espírito protetor, Bordeaux 1963

– Já vos dissemos e repetimos, muitas vezes, que estais na Terra de expiação para completar as vossas provas e que tudo o que vos acontece é consequência de vossas existências anteriores, as parcelas da dívida que tendes a pagar. Mas este pensamento provoca em certas pessoas reflexões que devem ser afastadas, porque podem ter funestas consequências.
Pensam alguns que, se estamos na Terra para expiar é necessário que as provas sigam o seu curso. Outros chegam a pensar que não só devemos evitar diminui-Ias como devemos ainda contribuir para torná-las mais proveitosas, agravando-as. É um grande erro. Sim, vossas provas devem seguir o curso que Deus lhes traçou, mas acaso conheceis esse curso? Sabeis até que ponto elas devem ir e se vosso Pai Misericordioso não disse ao sofrimento deste ou daquele vosso irmão: "Não irás além disto"? Sabeis se a Providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para agravar o sofrimento do culpado, mas como bálsamo consolador que deve cicatrizar as chagas abertas pela sua justiça?
Não digais, portanto, ao verdes um irmão ferido: "É a justiça de Deus e é necessário que siga o seu curso", mas dizei, ao contrário: "Vejamos que meios nosso Pai Misericordioso me concedeu para aliviar o sofrimento de meu irmão.
Vejamos se o meu, conforto moral, meu amparo material, meus conselhos poderão ajudá-lo a transpor esta prova com mais força, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus me pôs nas mãos os meios de fazer cessar este sofrimento; se me deu, como prova também, ou talvez como expiação, o poder de cortar o mal e substituí-lo pela bênção da paz.
Auxiliai-vos sempre em vossas provas mútuas e jamais vos encareis como instrumentos de tortura. Esse pensamento deve revoltar todo homem de bom coração, sobretudo os espíritas. Porque o espírita, mais que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. O espírita há pensar que sua vida inteira deve ser um ato de amor e de abnegação, e que por mais que faça para contrariar as decisões do Senhor, sua justiça seguirá o seu curso. Ele pode, pois, sem medo, fazer todos os esforços para aliviar o amargor da expiação, porque somente Deus pode cortá-la ou prolongá-la, segundo o que julgar a respeito.
Não seria excessivo orgulho da parte do homem julgar-se com o direito de revolver, por assim dizer, a arma na ferida?
De aumentar a dose de veneno para aquele que sofre, sob o pretexto de que essa é a sua expiação? Oh! Considerai-vos sempre como o instrumento escolhido para fazê-la cessar.
Resumamos assim: estais todos na Terra para expiar; mas todos, sem exceção, deveis fazer todos os esforços para aliviar a expiação de vossos irmãos, segundo a lei de amor e caridade.