Ressurreição e reencarnação

Continuação

9. O Espírito assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai, no ensinamento de Jesus, permite-nos entender tratar-se do Espírito de Deus, que dá vida a quem quer ou, então, poderemos interpretá-lo como se referindo à alma do homem.
Neste último sentido, a afirmação “não sabes de onde vem, nem para onde vai”, significará que ninguém tem conhecimento de sua origem e nem o que será o Espírito.
Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, você saberia de onde ele veio, uma vez que estaria informado de seu começo.
De qualquer forma, porém, esta passagem evangélica é uma consequência do princípio da preexistência da alma e, consequentemente, do princípio da pluralidade das existências.
10. E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o mesmo Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. (Jesus em Mateus, capítulo 11, versículos 12 a 15.)
11. Se o princípio da reencarnação, expresso através da narrativa extraída do Evangelho de João, pudesse, a rigor, ser interpretado num sentido puramente místico, o mesmo não se poderá dizer da passagem transcrita do Evangelho de Mateus, que não admite nenhum equívoco, por Jesus dizer expressamente: “É este o mesmo Elias que havia de vir”.
Essa é uma afirmação positiva, sem alegoria.
Examine-se, ainda, a afirmação: “E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”. Que significam estas palavras de Jesus, se João Batista ainda vivia no momento em que foram ditas? Jesus mesmo as explica, dizendo: “Se quereis dar crédito, é este o mesmo Elias que havia de vir”.
Sendo João Batista não um outro espírito, mas o próprio Elias, Jesus faz uma referência ao tempo em que João Batista vivia com o nome de Elias.
“Faz-se a violência ao reino dos céus e pela força se apoderam dele”, é uma outra alusão feita por Jesus à violência da lei mosaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os fiéis ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, enquanto que, segundo a nova lei, ganha-se o céu pela caridade e pela brandura.
E ajuntou: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Estas palavras, tantas vezes repetidas por Jesus, dizem claramente que nem todos estão em grau evolutivo para compreender certas verdades.
12. Aqueles de vosso povo que morreram, viverão de novo; aqueles que estavam em meio aos mortos, ressuscitarão. Despertai de vosso sono e erguei louvores a Deus, vós que habitais dentro do pó, porque o orvalho que se derrama sobre vós é um orvalho de luz e vós arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (Isaías, capítulo 26, versículo 19.)
13. Esta passagem de Isaías é inteiramente clara: “Aqueles de vosso povo que morreram, viverão de novo”. Se o profeta tivesse querido falar da vida espiritual, se fosse de sua vontade dizer que os que foram executados não estavam mortos em espírito, por certo que diria: ainda vivem, contrariamente ao dizer: viverão de novo.
“Viverão de novo”, se tomado em seu sentido espiritual, seria um contrassenso, uma vez que implicaria uma interrupção da vida da alma. No sentido de regeneração moral, seria a negação das penas eternas, porque estabeleceria, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.
14. Mas, quando o homem está morto de vez e seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? – Tendo o homem morrido de vez, poderia reviver de novo? Nesta guerra, em que me acho em todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação. (Jó, capítulo 14, versículo 10, tradução de Sacy.)
Quando o homem morre, perde toda a sua força, expira.
Onde estará ele depois? – Se o homem morre, reviverá de novo?
Esperarei todos os dias de meu combate, até que me venha alguma mutação? (Idem, tradução protestante de Osterwald.)
Quando o homem está morto, ele vive sempre. Quando findarem os dias de minha existência terrestre, esperarei, já que a ela voltarei de novo. (Idem, versão da Igreja grega.)
15. O princípio da pluralidade das existências está claramente expresso nas três versões acima. Ninguém poderá supor que Jó tenha querido falar de regeneração pela água do batismo, que ele certamente nem sequer conhecia.
“Tendo o homem morrido de vez, poderia reviver de novo?”
Essa ideia de morrer e reviver traz em si a ideia de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega é ainda mais explícita nessa ideia, se tal transparência maior fosse possível: “Quando findarem os dias de minha existência terrestre, esperarei, já que a ela voltarei de novo, ou, voltarei a uma nova existência terrestre”
Isso é tão claro, como dizer: “Sairei de minha casa, mas a ela retornarei”.
Nesta guerra, em que me acho em todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação”. Jó, evidentemente aqui fala das lutas que sustentava contra os sofrimentos da vida. Sente-se, porém, resignado, dizendo esperar a sua mutação. Na versão grega o esperarei, parece aplicar-se a uma nova existência: “Quando findarem os dias de minha existência física, esperarei, já que a ela voltarei de novo”. Jó parece colocar-se, após a sua morte, no espaço que separa uma existência da outra, e diz que espera voltar de novo à existência física.
16. Não paira nenhuma dúvida de que, com o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação era uma das crenças fundamentais dos judeus. A reencarnação, por outro lado, está confirmada por Jesus e pelos profetas de um modo formal.
Quem, pois, negar a reencarnação, negará as palavras do Cristo. Quando, porém, as suas palavras forem meditadas, sem ideias preconcebidas, será aceita a sua autoridade sobre esse princípio, assim como também sobre os outros.
17. Sobre essa autoridade, fundada sob o ponto de vista religioso, vem reunir-se, sob o ponto de vista filosófico, a das provas resultantes de observações dos fatos. Quando dos efeitos deveremos remontar às causas, a reencarnação comparece como uma necessidade absoluta. É uma condição inerente à humanidade, ou seja, a reencarnação é uma lei da Natureza.
A reencarnação revela-se pelos seus resultados, da mesma maneira, por assim dizer material, que um motor se evidencia pelo movimento.
Somente a reencarnação pode dizer ao homem de onde ele vem, para onde vai por que está na Terra. Justificam-se, com esse conhecimento, todas as anomalias e todas aparentes injustiças que a vida apresenta. (1. Veja, para ter mais informações sobre o princípio da reencarnação: O Livro dos Espíritos, cap. 4 e 5; O que é o Espiritismo, cap. 2, ambos de Allan Kardec.)
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, grande parte das máximas do Evangelho são incompreensíveis.
Pela ausência do conhecimento desses princípios é que lhe são dadas interpretações contraditórias. Adicionem-se esses princípios e serão recuperados seus verdadeiros sentidos.

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