Cruz e cruzes

Eles tomaram a Jesus e ele próprio carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota, onde o crucificaram e com ele outros dois, um de cada lado e Jesus no meio.
Pilatos escreveu também um título e o mandou colocar no alto da cruz; nele estava escrito: JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEUS. (João, IXX, 17-19.)

Cruz! Madeiro infamante, que serviste de instrumento ao suplício do meu Mestre! Símbolo de torturas e desventuras, emblema da malícia humana, invento satânico do ódio e da vingança, primórdio de todos os aparelhos, de todas as máquinas, de todos os utensílios, de todas as grades, de todos os ferros, lança, punhal, cutelo, que massacram corpos e espezinham almas! eu te maldigo; como a luz maldiz as trevas, como a verdade maldiz o erro como o amor maldiz o mal!
És tu, santo dos fariseus e custódia dos ignorantes que até hoje perambulas pelas estradas e pelas ruas, apregoando virtudes mortíferas, afamada pelos parvos e mercadores, depois da cena trágica do Gólgota; e pela magia de mil olhares em ti concentrados, arrastas todos os dias, às trevas do espaço, milhões de espíritos que gritam como um mocho agoureiro das necrópoles e esvoaçam, cegos como vampiros, sem arrimo, sem alimento e sem repouso.
Maldita cruz! As tuas vítimas clamam pela minha voz, e as suas penas serão o juízo, perante as almas da tua condenação!
Cruz maldita do suplício da Palestina, que entravaste dois mil anos de progresso humano! Cruz que te firmaste irredutível ante a mais poderosa Vontade de Deus que se mostrou na Terra! Cruzes pequeninas, que participastes no massacre de ladrões, de adúlteros, de párias, de falsários; cruzes de todos os tamanhos que consumastes as obras dos teus inventores, servindo de patíbulo para os inovadores, os descobridores, os gênios propulsores da evolução mundial; caí, malditas, quebrai os vossos braços, debulhai as vossas células e desaparecei no inferno do nada! Soprai, ventos do Progresso! Livrai do nosso planeta as larvas dessa esfinge que caiu; iluminai, sóis da Espiritualidade, para que, ó disco da morte, se apague das consciências e não mais obsedie as almas com as suas miragens enganosas!
Cruz traiçoeira, mãe de todas as cruzes, que falseaste a Justiça e Misericórdia de Deus, cai, e na tua queda fragorosa esmaga os Herodes, os Caifases, os Anases que cultuam os teus dons, que incensam as tuas virtudes, que endeusam o teu nome, que lutam, que trabalham, que se esforçam para ver-te de pé como atrativo ao seu domínio, como sugestão da tua força; cai, some-te, e arrasta-te para as tuas trevas com teus turiferários; desaparece com o Dragão que estende seus tentáculos pela Terra toda!
Cai, madeiro infamante! Quebra os teus braços; desagrega as tuas moléculas...
A brisa serena da madrugada já se faz sentir, e os arrebóis promissores do sétimo dia despontam belos e esplendorosos nos horizontes do nosso mundo.
A cruz, emblema da morte, vai cair, para dar lugar ao Espírito, personificação da ressurreição...