Preâmbulo

A luta entre o espírito e a matéria, parece vir de tempos imemoriais.
Basta passar um relance de vistas na História para que nos convençamos das transformações sucessivas por que vem passando o nosso mundo, acionado sempre pelas Potestades Superiores, às quais está afeta a direção do nosso planeta.
E é justamente quando o jugo se torna mais pesado, quando o caráter se deprime, quando a materialidade invade e domina a família e a sociedade, que os seres invisíveis acentuam a sua ação, para ganharmos, na senda do progresso, o tempo perdido em vãos holocaustos, que só serviram para assinalar nosso atraso espiritual!
Foi numa época semelhante à nossa, em que a Humanidade havia descambado para o terreno acidentado do fanatismo, da superstição e do materialismo, que o Céu se fez ouvir pelo seu maior Expoente, pelo seu mais lídimo Representante.
Foi nessa época que se encarnou entre nós o grande Espírito que conhecemos por Jesus Cristo.
Enviado com determinada missão, Divino Messias, desde o seu nascimento, manifestou poderes superiores, que o exaltaram, – nos momentos de dúvidas e vacilações quanto à sua real grandeza, – aos olhos dos que o cercavam.
Todos esses fatos, tidos como miraculosos pela ignorância popular e pelo autoritarismo clerical, não eram mais do que provas objetivas dos atributos do Espírito, magnificamente sintetizadas no Filho do Homem.
As vozes dos augúrios, os cânticos, as revelações, as manifestações em sonhos, as materializações, as maravilhas diversas, os fatos de ordem psíquica e extrassensorial narrados nos Evangelhos, constituem o caráter positivo da Religião de Jesus Cristo.
A Palavra do Cristo, em todos os seus princípios e sancionada pelo Espírito, afirma a Vida além-túmulo, a sobrevivência do Homem após a transição que chamamos morte.
É por este distintivo que ela se tornou querida e respeitada até mesmo dos negadores mais renitentes.
Não é o timbre moral da Doutrina que faz os adversários curvarem a cerviz ante a Palavra de Jesus, mas, sim os fenômenos de ordem física e intelectual que reluzem nas páginas dos Evangelhos, fatos que, digamos de passagem, com maior ou menor intensidade, nunca deixaram de se produzir, desde tempos imemoriais até a época em que nos achamos.
Na verdade, que seria o Cristianismo sem as curas, sem as manifestações diversas, sem as aspirações? Não passaria de uma religião como as demais, cultuais, dogmáticas, especulativas. Que seria o Cristianismo sem o cântico dos Espíritos, anunciando aos pastores das cercanias de Belém, o nascimento do Menino Jesus; sem os sonhos proféticos de José; sem a transmutação da água em vinho nas bodas de Caná; sem a multiplicação dos pães e dos peixes; sem a dominação dos elementos no Mar da Galileia; sem as aparições de Moisés e Elias no Tabor? Que seria do Cristianismo sem as manifestações físicas e consecutivas de Jesus por quarenta dias após a sua morte, sem a explosão do Pentecostes e as portentosas manifestações que se deram por intermédio dos Apóstolos, segundo narram os Atos, desde a primeira à última página? Que seria do Cristianismo sem o resplendor do Caminho de Damasco?
A Religião não pode ser manifestação platônica a serviço dos cultos ou dos dogmas de qualquer igreja, o monopólio de determinado povo ou raça; é um apelo à razão e ao sentimento, e conduz o Espírito a destinos ignotos, mas imortais.
A Religião não se limita a um só mundo, a um só planeta; tem caráter universal, é muito mais do que os sacerdotes proclamam, muito mais do que as Igrejas concebem! Está fora do tempo e do espaço, sem deixar, contudo, de abranger os mundos e sóis que se equilibram no éter. Para que tenha caráter eterno, precisa conter o Infinito, sem a dependência da vontade humana e sem estar circunscrita a uma família, a um povo, a uma nação, a um mundo.
Uma religião que circunscreve a existência das almas a um mundo como o nosso, criadas ao nascer dos corpos e com o seu futuro fixado entre as alternativas de um Inferno perpétuo, e de um estado paradisíaco num Céu abstrato, não pode orientar aqueles que sentem o coração palpitar para a Imortalidade, não pode ser verdadeira!
A Verdadeira Religião desperta altas aspirações e torna-se um liame entre as almas e Deus; por isso não pode deixar de ter caráter permanente, no tempo e fora do tempo, no espaço e fora do espaço!
Como explicar a permanência da Religião nos Reinos de Plutão, onde as almas, dissuadidas de toda a misericórdia, sem mais esperança de salvação, permanecem no sofrimento mais atroz, em meio a dores e lamentações, choros e gemidos?!
A Religião, cuja insígnia é o Amor, demonstra atributos divinos de bondade, de misericórdia, de sabedoria; portanto, não pode sancionar as concepções absurdas e ilusórias com que pretendem apresentá-la aqueles que se adstringem aos dogmas de concílios, às resoluções de uma maioria ocasional, cujos artigos de fé constituem a antítese da Revelação do Sinai, da Revelação Messiânica e a da Revelação Espírita, exemplificando os ascendentes da Verdade, livre de todas as obliterações humanas.
De fato, se nos dermos ao trabalho de recorrer à história religiosa dos povos em sua feição primitiva, quer se tratem dos povos do Oriente ou do Ocidente, nos convenceremos de que toda essa gente, que com o seu trabalho e sacrifício preparou o nosso mundo, para que nele se estabelecessem grandes empresas e nobres cometimentos, vivia na Religião Natural, Religião, aliás, revelada em sua forma progressiva, como acontece nos demais ramos do saber humano, Religião baseada na imortalidade, revestida de substanciosos fenômenos demonstrativos da sobrevivência, – num mundo além do nosso, – daqueles que aqui viveram e que pelo seu trabalho e sentimentos afetivos constituíram famílias, ou, ao menos, se acharam entrelaçados entre si por vínculos de amizade.
E é esse fato que se vem produzindo permanentemente, de geração em geração, e tem servido para alimentar nos corações, a fé no futuro, a confiança em nossos destinos promissores; é esse fato que abre clareiras à nossa esperança e impulsiona, embora lentamente, o princípio de fraternidade, que nos faz voltar às vistas para o Incomensurável, para Deus!
Excluamos da História todos esses fenômenos supranormais e psíquicos, essas aparições e vozes, esses augúrios, essas manifestações variadas, e a Religião desaparecerá, por que toda essa fenomenologia, estando dentro da Natureza e revelando-se sob o domínio da Lei Natural, é que dá o caráter divino à Religião, sob cujos influxos se produzem os fatos – letras vivas, cartas escritas pelo dedo de Deus como todas as outras manifestações da criação, para que nos instruamos e nos engrandeçamos com as suas lições. Por isso disse sabiamente o filósofo; “A religião não se baseia unicamente na teoria, mas, sim, na história, na Filosofia, nos fatos.”
Os fatos são o “tudo” da Religião, como também da Ciência e da Filosofia. Que é a Ciência sem fatos? Como conceber a Química sem a reação probante dos seus princípios? a Física sem fenômenos de equilíbrio, atração, etc.? a Botânica sem as plantas? a Zoologia sem os animais? a Fisiologia sem o corpo humano? a Astronomia sem as estrelas, os planetas, os asteroides, os cometas?!
Assim também, como conceber a Religião sem os fatos que lhe servem de arrimo, e que vêm demonstrar a existência e sobrevivência da alma, o seu progresso, a sua evolução contínua, os seus grandiosos surtos para a Sabedoria e o Amor?
Encarando, sob todos os aspectos, os fatos chamados supranormais – metafísicos e metapsíquicos – todos eles são outras tantas pedras fundamentais que sustentam o grande edifício a que chamamos Religião.
Sejam quais forem os nomes com que os fatos se apresentem, em suas múltiplas modalidades, não deixam de ser fenômenos, efeitos cuja causa não pode ser outra senão a alma, princípio inteligente que (está fartamente provado) atua independentemente do corpo carnal.
E aí estão os estudos do magnetismo, do hipnotismo, do sonambulismo lúcido – provocados ou espontâneos – que falam bem alto, confirmando o que apenas era um vislumbre à nossa inteligência acanhada.
Cientificamente falando, não há um só fato de caráter inteligente que seja alheio ao domínio do Espírito, ou, em outros termos, que não possa ser explicado pelo Animismo ou pelo Espiritismo.
Mas não são só estes fatos positivos que vêm em apoio da nossa tese. Também as manifestações inteligentes, de qualquer natureza, ainda as que se apresentam como fenômenos mínimos, por exemplo, a sabedoria precoce das chamadas crianças prodígio, denunciando a preexistência do espírito, dão muito que pensar àqueles que já cogitam do motivo real das coisas e se esforçam por sondar os enigmas da Psique.
Se penetrarmos, então, nesse labirinto das manifestações espíritas – aparições dos mortos, comunicações dos espíritos – como resolver esses eternos problemas, esses enigmas, sem a Religião da Imortalidade, essa Mensageira que nos vem guiar para vermos tudo como em verdade devemos ver, que nos esclarece com todas as suas vozes?
Repetimos o conceito do filósofo: “Hipóteses nom fingo” – não formulamos hipóteses, pois não se deve fazê-lo em matéria de Religião.
Respingando nesta seara, sem dúvida a mais profícua de todas as que foram legadas à Humanidade, é de nosso dever aproveitar toda a substância que a mesma contém, para, com ela, saciar a fome de saber que devora os espíritos, concorrendo para o cumprimento dos seus mais altos deveres.
Parece-nos que foi este o escopo de Jesus, o expoente máximo da Verdade. Em todos os seus trabalhos, durante toda a sua vida, sem descanso, o seu Ideal foi demonstrar a existência do Espírito e sua sobrevivência à desagregação corpórea. Não será o Sermão do Monte uma consequência da Vida do Além? Se a concepção da moral mais pura que os homens receberam nessa magistral peça oratória estivesse circunscrita ao espaço que vai do berço ao túmulo, ou se se restringisse às alternativas de: Mundo, Purgatório, Inferno, Paraíso, sua Palavra seria vã, passaria como a flor da erva, como o vento que ruge e cessa!
Os gonzos das portas da morte não se podem abrir para a eterna condenação, mas, sim, para um incessante progresso e para uma visão mais clara do Infinito!
E estas perspectivas se revelam através da Transfiguração no Tabor, das Aparições de Moisés e Elias, das Parábolas do Filho Pródigo, da Ovelha Perdida, da Dracma Perdida, enfim, do conjunto harmonioso dos seus Ensinos admiráveis, que giram sobre o eixo inquebrantável deste ditame exarado no Evangelho de João (XII, 50): “E sei que o mandamento de Deus é Vida Eterna.”
Vida Eterna, unindo pais e filhos, parente a parente, amigo a amigo e facultando-nos os meios de aperfeiçoamento para a felicidade! Vida Eterna desdobrando, às nossas vistas, os panoramas dos mundos terrestres e siderais, que teremos de percorrer para bem estudarmos os enigmas do Universo!
Vida Eterna, como fator de felicidade sempre crescente, interminável!
E para demonstrar a ação permanente, o efeito ininterrupto que a sua Doutrina teria de produzir nas almas, Jesus não limitou a sua tarefa, como sói acontecer a todos os missionários; a sua ação tornou-se ainda mais preponderante após a sua passagem para o Mundo dos Espíritos, após essa mudança que chamamos morte.
Cada Evangelista dedica um capítulo do seu livro às aparições e conversações de Jesus depois da morte, sendo que o Evangelista João prende nossa atenção com dois longos capítulos sobre esse fato.
Paulo, um dos maiores gênios que a História menciona, em suas Epístolas insiste tenazmente sobre as aparições de Jesus, fato que, como ele próprio afirma, o converteu ao Cristianismo.
Nos Atos dos Apóstolos – o historiador Lucas, que também era médico, refere todas as manifestações do Divino Mestre, a começar da Ascensão até as suas mais familiares aparições àqueles que o secundaram em sua missão de redimir a Humanidade, pela crença na Vida vindoura, na existência da Eternidade Espiritual.
João Evangelista escreveu o seu Apocalipse sob a inspiração de Jesus, que lhe apareceu em sua forma gloriosa, para selar com fatos que os ultramontanos chamam sobrenaturais e os saduceus de todos os tempos negam sistematicamente, a Puríssima Doutrina que Ele fundou.
A intenção predominante de Jesus, não cansemos de repeti-lo, foi libertar os homens do jugo do dogma e excluir dos corações o espírito da dúvida que obseda os relutantes, os indecisos e os que não sabem donde vieram, quem são e para onde vão.
Inúmeras são as passagens em que Jesus exorta seus ouvintes a seguirem-no para viverem eternamente, porque Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos!
Os fatos produzidos por Jesus Ressuscitado é que dão valor à sua Doutrina, combatida impiedosamente pela classe sacerdotal e os grandes da sua época.
A Doutrina de Jesus, oferecida a fanáticos e negadores, não lhes conseguiu curvar a cerviz nem abrandar o coração. Uns diziam que ele tinha o demônio; outros, que havia enlouquecido! Escarneciam-no, injuriavam-no, e, por fim, conseguiram assassiná-lo barbaramente, como quem exclui da sociedade um grande celerado.
Os instigadores do crime, coligados ao governo daquele tempo, chegaram a ponto de colocarem guardas no sepulcro para que, diziam eles, “Os discípulos não roubassem o corpo de Jesus e dissessem depois que ele ressuscitara”!
Essas almas pequeninas, essas almas de barro, fizeram o possível para anular a ideia da Imortalidade, que é a base da Doutrina do Cristo, e, dando-lhe a morte, julgaram ter conseguido seus intentos, no pressuposto de que a Palavra do Mestre, sem ação permanente, não poderia subsistir. Mas a morte foi vencida, e não teve outro resultado senão demonstrar a Vida! Havia mistér da negação, da mentira, da descrença, do erro, para que a Verdade se firmasse!
A Ressurreição de Jesus é, por isso, o fato mais extraordinário da História. Sem ela, os discípulos, já dispersados não se teriam juntado novamente para levar às nações, aos povos, à sociedade e à família, as novas vivificadoras da Imortalidade, a certeza da Vida Eterna demonstrada por seu Mestre Redivivo.
O sacrifício e a morte de Jesus eram a véspera do triunfo, da vitória do seu Ideal, da sua Religião.
Submetendo-se a todas as torturas, à sanha tigrina de seus terríveis inimigos, Jesus quis provar cabalmente, categoricamente, que não há potestades nem elementos capazes de destruir a Vida, e que essa Vida, que se manifesta temporariamente na Terra, tem prosseguimento além do túmulo; que a morte não é o fim do homem; que a inteligência, a vontade, a razão são invulneráveis à espada, ao veneno e ao canhão; que o sentimento e a vida individual não dependem das células orgânicas, pois estas não são mais que instrumentos de ação exterior!
Muitos missionários vieram a Terra, mas um só se conta que aliou a Palavra aos fatos, os fenômenos consequentes e subsequentes da Vida Eterna aos princípios da moral mais pura, mais tocante, mais elevada, e, ao mesmo tempo, mais simples que se pode conceber.
A Doutrina de Jesus, por isso mesmo, é a sanção do amor em sua mais ampla expressão; do progresso moral e espiritual; da imortalidade da alma; da Vida Eterna que Ele não se cansava de anunciar, quer antes, quer depois de seus mais encarniçados inimigos lhe terem dado a morte acintosa na cruz.
Publicando este livro, cujos ensinos provêm das nossas relações com os Espíritos que dirigem o Movimento Espírita, que se opera no mundo todo, temos por escopo esclarecer os homens de boa vontade, indicando-lhes a senda do Cristianismo, até agora conspurcado e vilipendiado por aqueles que se constituíram seus emissários e únicos representantes na Terra.
Oxalá que os espíritos ávidos de luz e de verdade possam encontrar nestas páginas a Esperança que consola, a Caridade que ampara e a Fé que salva.

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