No caminho de Damasco I

Durante três dias, Saulo deixou-se ficar em companhia dos amigos generosos, recordando a noiva inesquecível. Profundamente abatido, procurava remédio para as mágoas íntimas, na contemplação da paisagem que Abigail tanto amara. Como triste consolo ao coração desesperado, buscava inteirar-se das preocupações da morta nos últimos tempos e, de olhos úmidos, ouvia as referências carinhosas de Ruth a tudo que se relacionava com a morta querida. Acusava a si próprio de não haver chegado mais cedo para arrebatá-la à enfermidade dolorosa.
Pensamentos amargos o atormentavam, tomado de angustioso arrependimento.
Afinal, com a rigidez das suas paixões, aniquilara todas as possibilidades de ventura. Com o rigorismo da sua perseguição implacável, Estevão encontrara o suplício terrível; com o orgulho inflexível do coração, atirara a noiva ao antro indevassável do túmulo.
Entretanto, não podia esquecer que devia todas as coincidências penosas àquele Cristo crucificado, que não pudera compreender. Por que topava, em tudo, traços do carpinteiro humilde de Nazaré, que seu espírito voluntarioso detestava? Desde a primeira controvérsia na igreja do “Caminho”, nunca mais conseguira passar um dia sem encontrá-lo na fisionomia de algum transeunte, na admoestação dos amigos, na documentação oficial das suas diligências punitivas, na boca dos míseros prisioneiros. Estevão expirara falando nele com amor e júbilo; Abigail nos últimos instantes consolava-se em recordá-lo e o exortava a segui-lo. Por todo esse acervo de considerações que se lhe represavam na mente exausta, Saulo de Tarso galvanizara o ódio pessoal ao Messias escarnecido. Agora que se encontrava só, inteiramente liberto de preocupações particulares, de natureza afetiva, buscaria concentrar esforços na punição e corretivo de quantos encontrasse transviados da Lei. Julgando-se prejudicado pela difusão do Evangelho, renovaria os processos da perseguição infamante. Sem outras esperanças, sem novos ideais, já que lhe faltavam os fundamentos para constituir um lar, entregar-se-ia de corpo e alma à defesa da Lei de Moisés, preservando a fé e a tranquilidade dos compatrícios.
Na véspera do seu regresso a Jerusalém, vamos encontrar o jovem doutor em conversa particular com Zacarias, que procurava ouvi-lo atentamente.
— Afinal de contas – exclamava Saulo sombriamente preocupado, – quem será esse velho que conseguiu fascinar Abigail, a ponto de ela abraçar as doutrinas estranhas do Nazareno?
— Ora – replicava o outro sem maior interesse, – é um desses miseráveis eremitas que se entregam comumente a longas meditações no deserto.
Zelando o patrimônio espiritual da pupila que Deus me confiou, indaguei da sua origem e das atividades de sua vida, chegando a saber que se trata de um homem honesto, apesar de extremamente pobre.
— Seja como for – objetava o rapaz com austeridade, – ainda não pude compreender os motivos da tua tolerância. Como não te insurgiste contra o inovador? Tenho a impressão de que as ideias tristes e absurdas dos adeptos do “Caminho” contribuíram, de modo decisivo, para a moléstia que vitimou a nossa pobre Abigail.
— Ponderei tudo isso, mas a atitude mental da querida morta revestiu-se de imensa consolação, depois do contacto com esse anacoreta honesto e humilde. Ananias tratou-a sempre com profundo respeito, atendeu-a sempre alegre, não exigiu qualquer recompensa, e assim procedeu com os próprios empregados, revelando uma bondade sem limites. Seria, então, lícito impugnar, desprezar benefícios? É verdade que, na esfera de minha compreensão, não poderei aceitar outras ideias além das que nos foram ensinadas por nossos avós, respeitáveis e generosos; mas não me julguei com o direito de subtrair aos outros o objeto de suas consolações mais preciosas.
Tua ausência, ao demais, colocou-me em situação difícil. Abigail fizera da tua pessoa o centro de todos os seus interesses afetivos. Sem compreender as razões que te levaram a desaparecer de nossa casa, compadeci-me da sua amargura íntima, a traduzir-se em tristeza inalterável. A pobrezinha não conseguia ocultar suas mágoas aos nossos olhos amorosos. O encontro de um remédio era providencial. Desde a intervenção de Ananias, Abigail transformou-se, parecia converter toda a angústia em esperanças de uma vida melhor. Embora doente, recebia os mendigos que lhe vinham falar desse Jesus que eu também não consigo compreender. Eram amigos da vizinhança, gente simples, com quem ela parecia alegrar-se. Observando o mal irremediável que a consumia, eu e Ruth acompanhávamos tudo isso enternecidamente. Como não proceder assim, se estava em jogo a paz espiritual de uma filha dileta, nos derradeiros dias da sua vida? É possível que ainda não consigas entender o sentido da minha conduta, neste particular, mas em sã consciência estou justificado, porquanto sei que cumpri meu dever, não lhe embargando os recursos que julgou necessários à sua consolação.
Saulo ouvia-o admirado. A serenidade e a ponderação de Zacarias infirmavam-lhe os estos mais fortes de reprimenda e severidade. As acusações veladas ao seu afastamento da noiva, sem motivo justificado, penetravam-lhe o coração com pruridos de remorso pungente.
— Sim – revidou menos áspero, – reconsidero melhor as razões que te induziram a suportar tudo isso, mas, não quero, não posso e não devo exonerar-me do compromisso que assumi em desafronta da Lei.
— Mas, a que compromisso te referes? – interrogou Zacarias surpreendido.
— Quero dizer que preciso encontrar Ananias, a fim de castigá-lo devidamente.
— Que é isso, Saulo? — objetou Zacarias penosamente impressionado.
— Abigail acaba de baixar ao sepulcro; seu espírito, de compleição sensibilíssima e afetuosa, sofreu profundamente por motivos que ignoramos e que talvez conheças; o conforto único que ela encontrou foi, justamente, a amizade paternal desse velhinho bom e honesto; e queres puni-lo pelo bem que nos fez e à criatura inesquecível?
— Mas é a defesa da Lei de Moisés que está em jogo – respondeu o moço tarsense com firmeza.
— Entretanto – advertiu sensatamente Zacarias, – revistando os textos sagrados, não encontrei nenhum dispositivo que autorize a castigar os benfeitores.
O doutor da Lei esboçou um gesto de contrariedade em face da observação justa, mas, valendo-se da sua hermenêutica, considerou com sagacidade:
— Mas uma coisa é estudar a Lei e outra é defender a Lei. Na tarefa superior em que me encontro, sou obrigado a examinar se o bem não oculta o mal que condenamos. Aí reside a nossa divergência. Tenho de punir os transviados, como necessitas podar as árvores da tua chácara.
Fez-se prolongado silêncio. Absortos em profunda meditação, separados mental e intimamente, foi Saulo quem retomou a palavra perguntando:
— Desde quando Ananias se ausentou destas paragens?
— Há mais de dois meses.
— E chegaste a conhecer o rumo que tomou?
—Abigail disse-me que ele fora chamado a Jerusalém, a fim de confortar os doentes dos bairros pobres, dada a situação difícil que por lá se criara com a perseguição.
— Pois a sua nefasta influência será igualmente jugulada pelas forças da nossa vigilância.
Regressando à cidade, amanhã , como pretendo, procurarei localizar-lhe o paradeiro.
Ananias não dementará outras cabeças! Jamais chegou a pensar na reação que provocou em minh'alma, embora não nos conheçamos pessoalmente.
Zacarias não conseguiu dissimular o seu desgosto e sentenciou:
— Na simplicidade da minha vida rural não posso atinar com a razão das lutas religiosas de Jerusalém; mas, enfim, trata-se de problemas inerentes aos teus misteres profissionais e não devo intrometer-me nas providências que mais convenham.
Saulo deixou-se ficar longo tempo pensativo, para, em seguida, imprimir novos rumos à conversação.
No dia seguinte, muito consternado, regressou à cidade, ansioso por encher o vácuo do coração, perdido no labirinto das horas vagas. A ninguém revelou a grande amargura que lhe ia na alma. Fechando-se em mutismo absoluto, retomou as funções religiosas, de semblante carregado.
Ao sol claro da manhã alta, vamos encontrá-lo no Sinédrio, interrogando um auxiliar de serviço, com vivacidade:
— Isaac, cumpriste minhas ordens para os informes desejados?
— Sim, senhor, encontrei entre os prisioneiros um rapaz que conhece o velho Ananias.
— Muito bem – disse o doutor de Tarso evidente mente satisfeito, – e onde mora o tal Ananias?
— Ah! lá isso ele não quis dizer, apesar do muito que insisti. Alegou que não sabia.
— Entretanto, é possível que esteja mentindo –ajuntou Saulo com rancor.
— Esses homens são capazes de tudo. Providência já para que ele aqui compareça quanto antes. Saberei como arrancar-lhe a verdade.
Como quem já lhe conhecia as decisões irrevogáveis. Isaac obedeceu com humildade. Daí a uma hora mais ou menos, dois soldados penetravam no gabinete, acompanhando um rapaz de fisionomia miserável. Sem trair qualquer comoção, Saulo de Tarso mandou que se recolhessem à sala de punições, onde iria ter com o prisioneiro dentro de alguns minutos.
Terminada a escrituração de alguns papiros, dirigiu-se, resoluto, ao salão dos castigos. Alinhavam-se, ali, todos os instrumentos odiosos e execráveis das perseguições político-religiosas, que envenenavam Jerusalém nos embates da época.
Depois de sentar-se enfaticamente, o moço de Tarso inquiriu o mísero encarcerado com aspereza:
— Teu nome?
— Matatias Johanan.
— Conheces o velho Ananias, pregador ambulante da igreja do “Caminho”?
— Sim, senhor.
— Desde quando?
— Conheci-o nas vésperas de minha prisão, que se verificou há um mês.
— E onde reside esse adepto do carpinteiro?
— Isso não sei – exclamou o interpelado em voz tímida. – Quando o conheci, morava num bairro pobre de Jerusalém, onde ensinava o Evangelho.
Mas Ananias não tinha pouso certo. Veio de Jope, estacionando em diversas aldeias, onde pregava as verdades de Jesus Cristo. Aqui, vivia de bairro em bairro, no seu piedoso mister.
O moço tarsense não prestou atenção naquela atitude de profunda humildade, e, franzindo o sobrolho, acrescentou ameaçadoramente:
— Achas que podes mentir a um doutor da Lei?
— Senhor, eu juro… – dizia o jovem ansiosamente.
Saulo não se dignou fixar-lhe o gesto suplicante. Dirigindo-se a um dos guardas, exclamou impassível:
— Júlio, não temos tempo a perder. Necessito da informação necessária.
Aplica-lhe o tormento das unhas. Acredito que, por esse processo, não se animará a prosseguir na dissimulação da verdade.
A ordem foi logo cumprida. Aguçadas pontas de ferro foram tiradas de um grande armário cheio de pó. Em poucos instantes, Júlio e o companheiro, depois de amarrarem o pobre rapaz num tronco rústico, aplicavam-lhe os instrumentos pontiagudos na ponta dos dedos, provocando-lhe gritos lancinantes. O jovem prisioneiro clamava, em vão, suas dores atrozes. Os verdugos ouviam-no com indiferença. Quando o sangue começou a gotejar da unha arrancada violentamente, a vítima bradou em altas vozes:
— Por piedade!... Confessarei tudo, direi onde ele está!... Tende compaixão de mim!...
Saulo ordenou sustassem a punição por momentos, a fim de ouvir as novas declarações.
— Senhor! – acrescentou o infeliz entre lágrimas Ananias não se encontra mais em Jerusalém. Em nossa última reunião, três dias antes de cairmos no cárcere, o velho discípulo do Evangelho se despediu, afirmando que ia fixar-se em Damasco.
Aquela voz lamentosa era um eco de profundas amarguras a se represarem num coração moço, mas repleto de penosas desilusões da vida.
Saulo, entretanto, parecia não ter olhos de ver sofrimentos tão comove dores.
— É tudo quanto sabes? – perguntou secamente.
— Juro-o – tornou o rapaz humildemente.
Diante daquela afirmação categórica, transparente no olhar sincero e na inflexão da voz comovente e triste, o doutor da Lei deu-se por satisfeito, mandando recolher o prisioneiro ao calabouço.
Daí a dois dias, o moço tarsense convocava uma reunião no Sinédrio, à qual atribuía singular importância. Os colegas acorreram ao chamado, sem exceção. Abertos os trabalhos, o doutor de Tarso esclareceu o motivo da convocação.
— Amigos – declarou ciosamente, – há tempos nos reunimos para examinar o caráter da luta religiosa que se criara em Jerusalém com as atividades dos asseclas do carpinteiro de Nazaré. Felizmente, nossa intervenção chegou a tempo de evitar grandes males, dada a argúcia dos falsos taumaturgos exportados da Galileia. Á custa de grandes esforços, a atmosfera desanuviou-se. É verdade que os cárceres da cidade transbordam, mas a medida se justifica, porquanto é indispensável reprimir o instinto revolucionário das massas ignorantes.
A chamada igreja do “Caminho” restringiu suas atividades à assistência aos enfermos desamparados. Nossos bairros mais humildes estão em paz. Voltou a serenidade aos nossos afazeres no Templo. Entretanto, não se pode afirmar o mesmo quanto às cidades vizinhas.
Minhas consultas às autoridades religiosas de Jope e Cesareia dão a conhecer os distúrbios que os adeptos do Cristo vêm provocando, acintosamente, com prejuízo sério para a ordem pública. Não somente nesses núcleos precisamos desenvolver a obra saneadora, mas, ainda agora, chegam-me notícias alarmantes de Damasco, a requererem providências imediatas.
Localizam-se ali perigosos elementos. Um velho, chamado Ananias, lá está perturbando a vida de quantos necessitam de paz nas sinagogas. Não é justo que o mais alto tribunal da raça se desinteresse das coletividades israelitas noutros setores. Proponho, então, estendermos o benefício dessa campanha a outras cidades. Para esse fim, ofereço todos os meus préstimos pessoais, sem ônus para a casa a que servimos. Bastar-me-á, tão só, o necessário documento de habilitação, a fim de acionar todos os recursos que me pareçam acertados, inclusive o da própria pena de morte, quando a julgue necessária e oportuna.
A proposta de Saulo foi recebida com demonstrações de simpatia. Houve mesmo quem chegasse a propor um voto especial de louvor ao seu zelo vigilante, com aplausos unânimes da reduzida assembleia. Faltava ao cenáculo a ponderação de um Gamaliel, e o sumo sacerdote, compelido pela aprovação geral, não hesitou em conceder as cartas indispensáveis, com ampla autorização para agir discricionariamente. Os presentes abraçaram o jovem rabino com muitos encômios ao seu espírito arguto e enérgico. Francamente, aquela mentalidade moça e vigorosa constituía auspicioso penhor de um futuro maior, com a emancipação política de Israel. Alvo das referências lisonjeiras e estimuladoras dos amigos, Saulo de Tarso aguçava o orgulho de sua raça, esperançoso nos dias do porvir. Verdade é que sofria amargamente com a derrocada dos sonhos da juventude, mas empregaria a soledade da existência nas lutas que reputava sagradas, ao serviço de Deus.
De posse das cartas de habilitação para agir convenientemente, em cooperação com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de três varões respeitáveis, que se ofereceram a acompanhá-lo na qualidade de servidores muito amigos.
Ao fim de três dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusalém para a extensa planície da Síria.
Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem-se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças secretas impunham-lhe profundas interrogações. Passava em revista os primeiros sonhos da juventude. Sua alma desdobrava-se em perguntas atrozes. Desde a adolescência que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira. Onde encontrar aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto das suas cogitações mai s íntimas? Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios. Desde os impulsos iniciais da juventude, abominava o pecado. Consagrara-se ao ideal de servir a Deus com todas as suas forças. Não hesitara na execução de tudo que considerava dever, ante as ações mais violentas e rudes. Se era incontestável que tinha inúmeros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos adversários, graças ao seu caráter inflexível no cumprimento das obrigações que considerava sagradas. Onde, então, a paz espiritual que tanto almejava nos esforços comuns? Por mais energias que despendesse, via-se como um laboratório de inquietações dolorosas e profundas. Sua vida assinalava-se por ideias poderosas, mas, no seu íntimo, lutava com antagonismos irreconciliáveis. As noções da Lei de Moisés pareciam não lhe bastar à sede devoradora. Os enigmas do destino empolgavam-lhe a mente. O mistério da dor e dos destinos diferenciais crivava-o de enigmas insolúveis e sombrias interrogações. Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado ostentavam uma serenidade desconhecida! A alegação de ignorância dos problemas mais graves da vida não prevalecia no caso, pois Estevão era uma inteligência poderosa e mostrara, ao morrer, uma paz impressionante, acompanhada de valores espirituais que infundiam assombro.
Por mais que os companheiros lhe chamassem a atenção para os primeiros quadros de Damasco, que se desenhavam ao longe, Saulo não conseguia forrar-se ao solilóquio sombrio.
Parecia não ver os camelos resignados, que se arrastavam pesadamente sob o sol de brasas, a pino, do meio-dia. Embalde foi convidado à refeição... Continua

Voltar ao topo