Abigail cristã II

— Ai de mim! – exclamou Saulo cortando-lhe a palavra – em toda parte, topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo! Não repitas semelhante coisa. Deus não seria justo se te sequestrasse ao meu afeto. – Quem poderia, então, como esse Cristo, interpor-se aos nossos votos?
Mas Abigail fixou-o com um gesto súplice e falou:
— Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor inclinarmo-nos com paciência aos sagrados desígnios? Não alimentemos dúvidas prejudiciais. Este leito é de meditação e de morte, O sangue, várias vezes, já me golfou prenunciando o fim. Mas nós cremos em Deus e sabemos que esse fim é apenas corporal. Nossa alma não morrerá, amar-nos-emos eternamente...
— Não concordo – respondia ele extremamente aflito, – essas presunções são fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fanático nazareno que morreu na cruz, entre a humilhação e a covardia. Nunca assim foste, melancólica e desalentada; somente os sortilégios Galileus podiam convencer-te de tais absurdos funestos. Mas, procura raciocinar por ti mesma! Que te deu o crucificado senão tristeza e desolação?
— Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convicta da impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um mestre vulgar de sortilégios, foi o Messias dispensador de consolação e vida. Sua influência renovou-me as forças, saturou-me de bom ânimo e verdadeira compreensão dos desígnios supremos. Seu Evangelho de perdão e amor é o tesouro divino dos sofredores e deserdados do mundo.
O jovem não conseguia dissimular a irritação que lhe vagava na alma.
— Sempre o mesmo refrão – disse confuso – invariavelmente a afirmativa de ter vindo para os infelizes, para os doentes e infortunados. Mas, as tribos de Israel não se compõem apenas de criaturas dessa espécie. E os homens valorosos do povo escolhido? E as famílias de tradições respeitáveis?
Estariam fora da influência do Salvador?
— Tenho lido os ensinamentos de Jesus – respondeu a moça com firmeza – e suponho compreender as tuas objeções. O Cristo, cumprindo a sagrada palavra dos profetas, revela-nos que a vida é um conjunto de nobres preocupações da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos caminhos retos. Não podemos conceber o Criador como juiz ocioso e isolado, senão como Pai desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valorosos a que te referes, os forros de enfermidades e sofrimentos, na posse das bênçãos reais de Deus, deviam ser filhos laboriosos, preocupados com o rendimento da tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da felicidade de seus irmãos. Mas, no mundo, temos contra nossas tendências superiores o inimigo que se instala em nosso próprio coração. O egoísmo ataca a saúde, o ciúme prejudica o mandato divino, como a ferrugem e a traça que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando nos descuidamos. São poucos os que se recordam da proteção divina, nos dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham à revelia do aguilhão. Isso demonstra que o Cristo é um roteiro para todos, constituindo-se em consolo para os que choram e orientação para as almas criteriosas, chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupações do bem.
Saulo estava impressionado com aquela clareza de raciocínio. Mas a conversação exigira da enferma maior esforço e consequente fadiga. A respiração tornara-se difícil, e não tardou que o sangue lhe borbotasse do peito em prolongada hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e humildade, comovia e exasperava profundamente o noivo. Compreendeu que seria impiedoso atacar perante a noiva aquele Jesus que lhe cumpria perseguir até ao fim. Não queria crer que a sua Abigail estivesse nas vésperas da morte.
Preferia encarar o futuro com otimismo. Restabelecida, fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não toleraria a intromissão do Cristo no santuário doméstico. No esforço introspectivo, entretanto, concluiu que precisava dar uma trégua aos seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos problemas essenciais da sua própria tranquilidade. A jovem enferma, após a crise que durara minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e lúcidos.
Contemplando-a naquela doce atitude de suprema resignação, Saulo de Tarso experimentou enternecedoras comoções íntimas. Seu temperamento arrebatado entregava-se facilmente às impressões extremadas.
Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos úmidos. Desejou acariciá-la como se o fizesse a uma criança.
— Abigail – murmurou ternamente, – não falemos mais de ideias religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esqueçamos tudo para consolidar as melhores esperanças.
E as palavras lhe borbulhavam ardentes de emoção. O carinho que evidenciavam era sintoma do arrependimento e das aspirações nobres e sinceras que lhe trabalhavam, agora, no espírito angustiado. Entretanto, como se fora presa de singular abatimento depois do esforço despendido, a jovem de Corinto estava lânguida, receando prosseguir no colóquio, em virtude dos acessos de tosse que a ameaçavam frequentemente. O noivo, preocupado, compreendeu a situação e, apertando-lhe as mãos transparentes, beijou-as enternecido.
— Precisas repousar – disse com inflexão carinhosa, – não te preocupes por minha causa. Dar-te-ei de minhas próprias forças. Breve estarás restabelecida.
E, depois de envolvê-la num olhar cheio de gratidão e infinita ternura, rematava:
— Voltarei a ver-te todas as noites que possa afastar-me de Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no jardim, para que a Natureza abençoe os nossos sonhos, sob as vistas de Deus.
— Sim, Saulo – disse pausadamente, – Jesus nos concederá o melhor.
De qualquer modo, no entanto, estarás no meu coração, sempre, sempre...
O doutor da Lei ia despedir-se, mas refletiu que a noiva nada lhe dissera com referência ao irmão. A generosidade daquele silêncio impressionava-o.
Preferia ser acusado, discutir o feito com as suas penosas circunstâncias, para que também se justificasse. Mas, em vez de reprimendas, encontrava carícias, em vez de exprobrações, uma tranquilidade generosa, com que a meiga jovem sabia ocultar as profundas feridas que lhe iam n'alma.
— Abigail – exclamou algo hesitante, – antes de partir, quisera saber francamente se me desculpaste pela morte de Estevão. Nunca mais pude falar-te das contingências que me levaram a tão triste desfecho; no entanto, estou convicto de que tua bondade olvidou minha falta.
— Por que te recordas disso? – respondeu-lhe esforçando-se por manter a voz firme e clara. – Minh'alma está agora tranquila. Jeziel está com o Cristo e morreu legando-te um pensamento amistoso. Que poderia eu reclamar de minha parte, se Deus tem sido tão misericordioso para comigo? Ainda agora, estou agradecendo ao Pai justo, de todo o coração, a dádiva da tua presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não me deixasse morrer sem te rever e ouvir...
Saulo calculou a extensão daquela generosidade espontânea e teve os olhos úmidos. Despediu-se. A noite fresca estava repleta de sugestões para o seu espírito. Nunca meditara nos insondáveis desígnios do Eterno, como naquele momento em que recebera tão profundas lições de humildade e amor, da mulher amada. Experimentava na alma opressa o embate de duas forças antagônicas, que lutavam entre si para a posse do seu coração generoso e impulsivo.
Não compreendia Deus senão como um senhor poderoso e inflexível. À sua vontade soberana, dobrar-se-iam todas as preocupações humanas. Mas começava a perquirir o motivo de suas dolorosas inquietudes. Por que não encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela gente miserável do “Caminho” entregava-se às algemas do cárcere, sorridente e tranquila. Homens enfermos e valetudinários, isentos de qualquer esperança do mundo, suportavam-lhe as perseguições com louvores no coração. O próprio Estevão, cuja morte lhe servira de exemplo inesquecível, abençoara-o pelos sofrimentos recebidos por amor ao carpinteiro de Nazaré. Aquelas criaturas desamparadas gozavam de uma tranquilidade que ele desconhecia,
O quadro da noiva doente não lhe saía dos olhos. Abigail era sensível e afetuosa, mas lembrava sua ansiedade feminina, a intensidade de suas preocupações de mulher, quando, eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no adorável recanto da estrada de Jope. Aquele Jesus desconhecido proporcionara-lhe forças ao coração. Se era inconteste que a enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente era o rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva falara-lhe como que tocada de novas inspirações; aqueles olhos pareciam contemplar interiormente a paisagem de outros mundos.
Essas reflexões não lhe deram ensejo à admiração da Natureza.
Reentrando em Jerusalém, guardou a impressão de que despertava de um sonho. À sua frente desenhavam-se as linhas majestosas do grande santuário.
O orgulho de raça falava-lhe mais forte ao espírito.
Era impossível conferir superioridade aos homens do “Caminho”. Bastou a visão do Templo para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que desejava. A seu ver, a serenidade dos discípulos do Cristo provinha, naturalmente, da ignorância que lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam aos Galileus eram, apenas, criaturas que o mundo desclassificara pela decadência física, pela educação falha, pelo supremo abandono. O homem de responsabilidade, por certo, não poderia encontrar a paz a preço tão vil. Figurara-se-lhe haver resolvido o problema. Continuaria a luta. Contava com o breve restabelecimento da noiva; logo que possível desposaria Abigail e, com facilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos quão perigosos engôdos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito do seu lar, feliz, prosseguiria na perseguição de quantos esquecessem a Lei, trocando-a por outros princípios.
Esses raciocínios lhe acalmaram, de certo modo, as inquietações.
Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias golpeava-lhe a alma com uma notícia grave:
Abigail piorara, estava agonizante!
Incontinenti, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a bem-amada ao perigo iminente.
Ruth e o marido estavam desolados. Desde a madrugada, a enferma caíra em penosa prostração. Os vômitos de sangue sucediam-se ininterruptos. Dir-se-ia que só esperava a visita do noivo para morrer. Saulo escutou-os, lívido como cera. Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava embalsamado, trazendo a mensagem das flores do pomar e do jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e carinhosas que lhes haviam dado a vida.
Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos translúcidos. O tom de marfim do semblante abatido acentuara-se rapidamente. O peito arfava-lhe precípite, o coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a derradeira agonia. Saulo aproximou-se angustiado. Pela primeira vez na vida, sentia-se trêmulo diante do irremediável. Aquele olhar, aquela palidez de mármore, aquela aflição tocada de angústia. anunciavam-lhe o desenlace.
Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento inesperado, tomou-lhe as mãos flácidas, banhadas do suor frio dos moribundos.
— Como foi isso, Abigail? – dizia perturbado – ainda ontem, deixei-te tão esperançado… Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!…
Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram-se.
Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as últimas ideias, Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as mãos de beijos ardentes. A agonia dolorosa parecia-lhe o sofrimento injustificável, que o céu houvera enviado a um anjo. Ele, que trazia o espírito ressecado pela hermenêutica das leis humanas, sentiu que chorava intensamente pela primeira vez. Lendo-lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho com dificuldade infinita. Conhecia Saulo e comprovara-lhe a rigidez do caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo do bem-amado, mas demonstrava, igualmente, o alvorecer de uma vida nova para o seu espírito.
— Não chores Saulo, murmurou dificilmente, a morte não é o fim de tudo…
— Quero-te comigo em toda a vida – replicou o rapaz desfeito em lágrimas.
— E, contudo, é preciso morrer para vivermos verdadeiramente acrescentava a agonizante, cortando as palavras com a respiração opressa. – Jesus nos ensinou que a semente caindo na terra fica só, mas se morrer dá muitos frutos!… Não te rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu convívio material! Se nos uníssemos pelo matrimônio, talvez tivéssemos muitas alegrias; teríamos um lar com os nossos filhos; mas destruindo nossas esperanças de uma felicidade passageira na Terra, Deus nos multiplica os sonhos generosos… Enquanto esperarmos a união indissolúvel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrarás ao Eterno, em esforços sublimes e redentores…
Via-se que a agonizante movimentava recursos supremos para pronunciar as derradeiras palavras.
— Quem te deu semelhantes ideias? – perguntou o jovem ralado de angústia.
—Esta noite, depois que partiste, senti que alguém se aproximava enchendo o quarto de luz… Era Jeziel que vinha ver-me… Ao avistá-lo, lembrei-me de Jesus no inefável mistério da sua ressurreição. Anunciou-me que Deus santificava os nossos propósitos de ventura, mas que eu seria levada ainda hoje à vida espiritual. Ensinou-me a quebrar o egoísmo de minh'alma, encheu-me de bom ânimo e trouxe-me a grata nova de que Jesus ama-te muito, tem esperanças em ti!… Refleti, então, que seria útil entregar-me jubilosa às mãos da morte, pois, quem sabe, se ficasse no mundo não perturbaria a missão que o Salvador te destinou… Jeziel afirmou que nós te ajudaremos de um plano mais alto! Por que, então, deixarei de ser tua companheira?… Seguirei teus passos no caminho, levar-te-ei onde se encontrem nossos irmãos do mundo, em abandono, auxiliarei teus raciocínios a descobrir sempre a verdade!… Ainda não aceitaste o Evangelho, mas Jesus é bom e terá algum meio de nos unir os pensamentos na verdadeira compreensão!…
O esforço da moribunda havia sido imenso. A voz extinguira-se-lhe na garganta. De seus olhos, profundamente lúcidos, as lágrimas corriam abundantes.
— Abigail! Abigail! – gritava Saulo desesperado.
Mas, após longos minutos de angustiosa ansiedade, ela dizia num arranco supremo:
— Jeziel já veio… buscar-me…
Instintivamente, Saulo compreendeu que era chegado o momento fatal. Em vão chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam; debalde lhe beijou as mãos geladas, agora cobertas de um palor de neve translúcida. Como louco, gritou por Zacarias e Ruth. Esta, soluçante, desfeita em pranto, abraçou-se a Abigail que, desde a morte do filho, resumia todo o seu tesouro maternal.
A agonizante fixou o olhar, respectivamente, em cada um, como a evidenciar amoroso agradecimento. Depois… uma só lágrima silenciosa foi o seu último adeus.
Do jardim próximo chegavam perfumes brandos; o céu crepuscular tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os pássaros em recolhida cruzavam os ares alegremente…
Pesada amargura abatera-se sobre a mansão da estrada de Jope. Alara-se ao céu a filha dileta, a noiva amada, a amiga carinhosa das flores e dos passarinhos.
Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido enquanto Ruth, lavada em lágrimas, cobria de rosas a morta adorada, que parecia dormir.

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