A morte de Estevão II

Viram, então, que duas mulheres jovens aproximavam-se do perseguidor com gestos íntimos. Dalila entregou Abigail ao irmão, despedindo-se logo para atender ao chamado de outra amiga. A noiva terna cingia uma túnica à moda grega, que mais lhe realçava o formoso rosto. Fosse pela dolorosa cena em curso, ou pela presença da mulher amada, percebia-se que Saulo estava um tanto perplexo e sensibilizado. Dir-se-ia que a coragem indomável de Estevão o levara a considerar a tranquilidade desconhecida que deveria reinar no espírito do mártir.
Em face da gritaria que a rodeava e notando a miserável situação da vítima, a jovem mal pôde conter um grito de espanto. Que homem era aquele, atado ao tronco do suplício? Aquele peito arfante, empastado de sangue, aqueles cabelos, aquele rosto pálido que a barba crescida desfigurava, não seriam de seu irmão? Ah! como falar das ansiedades imensas na surpresa imprevista de um minuto? Abigail tremia. Seus olhos aflitos acompanhavam os menores movimentos do herói, que parecia indiferente, no êxtase que o absorvia. Embalde Saulo chamava-lhe a atenção, discretamente, de modo a poupá-la de penosas impressões. A moça parecia nada ver além do sentenciado a esvair-se no sangue do martírio. Lembrava-se agora…
Em se afastando do calabouço, depois da morte do pai, foi assim mesmo que deixara Jeziel na posição do suplício. O tronco execrável, as algemas impiedosas e o pobrezinho de joelhos! Tinha ímpetos de atirar se à frente dos algozes, esclarecer a situação, saber a identidade daquele homem.
Nesse instante, ignorando-se alvo de tão singular atenção, o pregador do “Caminho” saiu de sua impressionante imobilidade. Vendo que Jesus contemplava, melancolicamente, a figura do doutor de Tarso, como a lamentar seus condenáveis desvios, o discípulo de Simão experimentou pelo verdugo sincera amizade no coração. Ele conhecia o Cristo e Saulo não.
Assomado de fraternidade real e querendo defender o perseguidor, exclamou de modo impressionante:
— Senhor, não lhe imputes este pecado!...
Isso dito, voltou os olhos para fixá-los no verdugo, amorosamente. Eis, porém, que divisou junto dele a figura da irmã, trajada como nos dias de júbilo, na casa paterna. Era ela, a irmãzinha amada, por cujo afeto tantas vezes lhe palpitara o coração, de saudade e de esperança. Como explicar sua presença?
Quem sabe havia sido também levada ao reino do Mestre e regressava com ele, em espírito, para trazer-lhe as boas-vindas, de um mundo melhor? Quis bradar sua alegria infinita, atrai-la, ouvir-lhe a voz nos cânticos de David, morrer embalado pelo seu carinho; mas a garganta já não timbrava. A emoção dominara-o na hora extrema. Sentiu que o Mestre de Nazaré acariciava-lhe a fronte, onde a última pedrada abrira uma flor de sangue. Ouvia, muito longe, vozes argentinas que cantavam hinos de amor sobre os gloriosos motivos do Sermão da Montanha. Incapaz de resistir por mais tempo ao suplício, o discípulo do Evangelho sentia-se desfalecer.
Escutando as expressões do condenado e recebendo-lhe o olhar fulgurante e límpido, Abigail não pôde dissimular a angustiosa surpresa.
— Saulo! Saulo!... É meu irmão – exclamou aterradamente.
— Que dizes? — gaguejou baixinho o doutor de Tarso arregalando os olhos. – Não pode ser! Enlouqueceste?
— Não, não, é ele; é ele! — repetia tomada de extrema palidez.
— É Jeziel – insistia Abigail assombrada, – querido; concede-me um minuto, deixa-me falar ao moribundo apenas um minuto.
— Impossível! – replicou o moço, contrafeito.
— Saulo, pela Lei de Moisés, pelo amor de nossos pais, atende – exclamava torcendo as mãos.
O ex-discípulo de Gamaliel não acreditava na possibilidade de semelhante coincidência.
Além do mais, havia a diferença do nome. Convinha esclarecer esse ponto, antes de tudo.
Certo, a falsa impressão de Abigail se desfaria ao primeiro contacto direto com o agonizante. Sua índole, sensível e afetuosa, justificava o que a seu ver era um absurdo.
Conjugando essas reflexões de um segundo, falou à noiva, com austeridade:
— Irei contigo identificar o moribundo, mas, até que o possamos fazer, cala as tuas impressões. Nem uma palavra, ouviste? É necessário não esquecer a respeitabilidade do local em que te encontras!
Logo após, chamava um funcionário de alta categoria, secamente:
— Manda levar o cadáver para o gabinete dos sacerdotes.
— Senhor – respondeu o outro respeitoso, – o condenado ainda não está morto.
— Não importa, vai assim mesmo, pois lhe arrancarei a confissão do arrependimento na hora extrema.
A determinação foi cumprida sem mais demora, enquanto Saulo mandava servir, de modo geral, aos amigos e admiradores, várias ânforas de vinho delicioso, por comemorarem o seu primeiro triunfo. Depois, cenho carregado, apreensivo, esgueirou-se quase sorrateiramente até a sala reservada aos sacerdotes de Jerusalém, em companhia da noiva.
Atravessando os grupos que o saudavam com frenéticas aclamações, o moço tarsense parecia alheado de si mesmo. Conduzia Abigail pelo braço, delicadamente, mas não lhe dirigia palavra. A surpresa emudecera-o. E se Estevão fosse, de fato, aquele Jeziel que aguardavam com tamanha ansiedade? Absorvidos em angustiosas reflexões, penetraram na câmara solitária. O jovem doutor ordenou a retirada dos auxiliares, fechou cuidadosamente a porta.
Abigail aproximou-se do irmão ensanguentado, com infinita ternura. E, como se sentisse chamado à vida por uma força poderosa e invencível, ambos notaram que a vítima movia a cabeça sangrenta. Evidenciando o penoso esforço da derradeira agonia, Estevão murmurou:
— Abigail!…
Aquela voz era quase um sopro, mas o olhar estava calmo, límpido.
Ouvindo-lhe a expressão vacilante e arrastada, o jovem tarsense recuou tomado de espanto. Que significava tudo aquilo? Não poderia duvidar. A vítima de sua perseguição implacável era o irmão bem-amado da mulher escolhida.
Que mecanismo do destino engendrara semelhante situação, que lhe havia de amargurar toda a vida? Onde estava Deus, que não o inspirara no dédalo de circunstâncias que o levaram até aquele irremediável, cruel desfecho? Sentiu-se possuído de um pesar sem limites. Ele, que elegera Abigail o anjo tutelar da existência, seria obrigado a renunciar a esse amor para sempre. O orgulho de homem não lhe permitiria desposar a irmã do suposto inimigo, confessado e julgado reles criminoso. Aturdido, deixou-se ali ficar, como se força incoercível o chumbasse ao solo, transformando-o em objeto de insuportáveis ironias.
— Jeziel! – exclamou Abigail osculando e regando de lágrimas a fronte do moribundo – como te vejo eu!… Parece que o suplício te durou desde o dia em que nos separamos!… E soluçava…
— Estou bem… – disse o discípulo de Jesus, fazendo o possível por mover a destra quebrada e deixando perceber o desejo de acariciar-lhe os cabelos, como nos dias da meninice e da primeira juventude. – Não chores!… Eu estou com o Cristo!…
— Quem é o Cristo? – murmurou a jovem – Por que te chamam Estevão?
Como te modificaram assim?
— Jesus… é o nosso Salvador… – explicava o agonizante, no propósito de não perder os minutos que se escoavam céleres. – E, agora, chamam-me Estevão… porque um romano generoso me libertou… mas pediu… absoluto segredo. Perdoa-me… Foi por gratidão que obedeci ao conselho. Ninguém será reconhecido a Deus se não mostrar agradecimento aos homens…
Vendo que a irmã prosseguia em soluços, continuou:
— Sei que vou morrer… mas a alma é imortal... Sinto deixar-te… quando mal torno a ver-te, mas hei de ajudar-te do lugar em que estiver.
— Ouve, Jeziel – exclamou a irmã num desabafo, – que te ensinou esse Jesus para te levar a um fim tão doloroso? Quem assim abandona um servo leal, não será antes um senhor cruel?
O moribundo pareceu admoestá-la com o olhar.
— Não penses dessa maneira – prosseguiu com dificuldade. – Jesus é justo e misericordioso… prometeu estar conosco até a consumação dos séculos… mais tarde compreenderás; a mim, ensinou-me amar os próprios verdugos…
Ela abraçava-o, carinhosa, desfeita em lágrimas abundantes. Depois de uma pausa em que a vítima se revelava nos derradeiros instantes da vida material, viu-se que Estevão se agitava em esforços supremos.
— Com quem te deixarei?
— Este é meu noivo – esclareceu a jovem apontando o moço de Tarso, que parecia petrificado.
O moribundo contemplou-o sem ódio e acentuou:
— Cristo os abençoe… Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão… Saulo deve ser bom e generoso; defendeu Moisés até ao fim… Quando conhecer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor… Sê para ele a companheira amorosa e fiel…
Mas a voz do pregador do “Caminho” estava agora rouca e quase imperceptível. Nas vascas da morte, contemplava Abigail fraternalmente enternecido.
Ouvindo-lhe as últimas frases, o doutor de Tarso fizera-se lívido. Queria ser odiado, maldito. A compaixão de Estevão, fruto de uma paz que ele, Saulo, jamais conhecera no fastígio das posições mundanas, impressionava-o fundamente. Entretanto, sem saber por quê, a resignação e a doçura do agonizante assaltavam-lhe o coração enrijecido. Trabalhava, porém, intimamente, para não se comover com a cena dolorosa. Não se dobraria por uma questão de sentimentalismo. Abominaria aquele Cristo, que parecia requisitá-lo em toda parte, a ponto de colocar-se entre ele e a mulher adorada.
O cérebro atormentado do futuro rabino suportava a pressão de mil fogos.
Desprezara o orgulho de família e elegera Abigail para companheira de lutas, embora lhe não conhecesse os ascendentes familiares. Amava-a pelos laços da alma, descobrira no seu delicado coração feminino tudo quanto havia sonhado nas cogitações de ordem temporal. Ela sintetizava as suas esperanças de moço; era o penhor do seu destino, representava a resposta de Deus aos apelos da sua juventude idealista. Agora, abrira-se entre ambos um abismo. Irmã de Estevão! Ninguém ousara afrontar-lhe a autoridade na vida, a não ser aquele ardoroso pregador do “Caminho”, cujas ideias jamais se poderiam casar com as suas. Detestava aquele rapaz apaixonado pelo ideal exótico de um carpinteiro, e tinha culminado nos propósitos de vingança. Se desposasse Abigail, jamais seriam felizes. Ele seria o verdugo, ela a vítima.
Além disso, sua família, aferrada ao rigorismo das velhas tradições, não poderia tolerar a união, depois de conhecidas as circunstâncias.
Levou as mãos ao peito, dominado por angustioso desalento.
Em pranto, Abigail acompanhava a agonia dolorosa do irmão, cujos derradeiros minutos se escoavam lentamente. Penosa emoção apossara-se de todas as suas energias. Na dor que a dilacerava nas fibras mais sensíveis, parecia não ver o noivo que lhe seguia os menores movimentos, entre surpreso e estarrecido. Com muito cuidado, a jovem sustinha a fronte do moribundo, depois de haver sentado para conchegá-lo carinhosamente.
Observando que o irmão lhe lançava o último olhar, exclamou angustiada:
— Jeziel, não te vás… Fica conosco! Nunca mais nos separaremos!…
Ele, quase a expirar, ciciava:
— A morte não separa… os que se amam…
E, como se houvera lembrado algo de muito grato ao coração, arregalou os olhos desmesuradamente, numa expressão de imenso júbilo:
— Como no Salmo… de David… – dizia arrastadamente – podemos… dizer… que o amor… e a misericórdia… seguiram… todos os dias… de nossa vida… ((Salmo 23, de David.)
A jovem escutava-lhe as derradeiras palavras, comovidíssima. Enxugava-lhe o suor sanguinolento do rosto, que se iluminava de uma serenidade superior.
— Abigail… – murmurava ainda como num sopro, – vou-me em paz…
Quisera ouvir-te na prece… dos aflitos e agonizantes…
Ela recordou os últimos momentos do suplício do genitor, no dia inesquecível da separação nos calabouços de Corinto. De relance, compreendeu que, ali, outras forças se encontravam em jogo. Não mais Licínio Minucio e os sequazes cruéis, mas o próprio noivo transformado em verdugo, por um terrível engano. Afagou com mais carinho a cabeça sangrenta.
Conchegou o moribundo ao coração como se fosse uma adorável criança.
Então, embora rígido e inquebrantável na aparência, Saulo de Tarso observou, mais nitidamente, o quadro que nunca mais lhe sairia da imaginação.
Guardando o moribundo no regaço fraterno, a jovem elevou o olhar para o alto, mostrando as lágrimas que lhe caíam pungentes. Não cantava, mas a oração lhe saía dos lábios como a súplica natural do seu espírito a um pai amoroso que estivesse invisível:
Senhor Deus, pai dos que chora,
Dos tristes, dos oprimidos,
Fortaleza dos vencidos,
Consolo de toda a dor,
Embora a miséria amarga
Dos prantos de nosso erro,
Deste mundo de desterro,
Clamamos por vosso amor!
Nas aflições do caminho,
Na noite mais tormentosa,
Vossa fonte generosa
É o bem que não secará…
Sois, em tudo, a luz eterna
Da alegria e da bonança
Nossa porta de esperança
Que nunca se fechará.
Quando tudo nos despreza
No mundo da iniquidade
Quando vem a tempestade
Sobre as flores da ilusão!
Ó Pai, sois a luz divina,
O cântico da certeza,
Vencendo toda aspereza,
Vencendo toda aflição.
No dia da nossa morte,
No abandono ou no tormento,
Trazei-nos o esquecimento
Da sombra, da dor, do mal…
Que nos últimos instantes,
Sintamos a luz da vida
Renovada e redimida
Na paz ditosa e imortal.
Terminada a prece, Abigail tinha o rosto orvalhado de pranto. Sob a carícia suave de suas mãos, Jeziel aquietara-se. Palidez de neve caracterizava-lhe a face cadavérica, aliada à profunda serenidade fisionômica. Saulo compreendeu que ele estava morto. E enquanto a jovem de Corinto se levantava, cuidadosamente, como se o cadáver do irmão requisitasse toda a ternura do seu espírito bondoso, o moço tarsense aproximou-se de cenho carregado e falou com austeridade:
— Abigail, tudo está consumado e tudo terminou, também, entre nós.
A pobre criatura voltou-se com assombro. Então não lhe bastavam os golpes recebidos? Seria possível que o noivo amado não tivesse uma palavra de conciliação generosa naquela hora difícil da sua vida? Receberia a humilhação mais fria com a morte de Jeziel e ainda por cima o abandono?
Consternada por tudo que viera encontrar em Jerusalém, entendeu que precisava utilizar todas as energias, para não cair nas provas ríspidas que lhe haviam sido reservadas. E viu logo que, no orgulho de Saulo, não encontraria consolação. Num momento, chegou às mais latas conclusões, quanto ao papel que lhe competia em tão embaraçosas conjunturas. Sem recorrer à sensibilidade feminina, cobrou ânimo e falou com dignidade e nobreza:
— Tudo terminado entre nós, por quê? O sofrimento não deveria escorraçar o amor sincero.
— Não me compreendes? – replicou o orgulhoso rapaz… – Nossa união tornou-se inexequível. Não poderei desposar a irmã de um inimigo de maldita memória, para mim. Fui infeliz escolhendo esta ocasião para tua visita a Jerusalém. Sinto-me envergonhado não só diante da mulher com quem nunca mais poderei unir-me pelo matrimônio, como perante os parentes e amigos, pela situação amarga que as circunstâncias interpuseram no meu caminho…
Abigail estava pálida e penosamente surpreendida.
— Saulo… Saulo… não te envergonhes perante meu coração. Jeziel morreu estimando-te.
Seu cadáver escuta-nos – acentuava com doloroso acento. – Não posso obrigar-te a desposar-me, mas não transformes nossa afeição em ódio surdo…
Sê meu amigo!… Ser-te-ei eternamente grata pelos meses de ventura que me deste. Voltarei amanhã para casa de Ruth… Não te envergonharás de mim! A ninguém direi que Jeziel era meu irmão, nem mesmo a Zacarias! Não quero que algum amigo nosso te considere um carrasco.
Observando-a naquela generosidade humilde, o moço de Tarso teve ímpetos de estreitá-la ao coração, como se o fizera a uma criança. Quis avançar, apertá-la contra o peito, cobrir-lhe de beijos a fronte bondosa e inocente.
Súbito, porém, vieram-lhe à mente os seus títulos e atribuições; via Jerusalém revoltada, tisnando-lhe a reputação de amargas ironias. O futuro rabino não poderia ser vencido; o doutor da Lei rígida, e implacável, devia sufocar o homem para sempre.
Mostrando-se impassível, replicou em tom áspero:
— Aceito o teu silêncio em torno das lamentáveis ocorrências deste dia; voltarás amanhã para casa de Ruth, mas não deves esperar a continuação das minhas visitas, nem mesmo por cortesia injustificável, porque, na sinceridade dos de nossa raça, os que não são amigos são inimigos.
A irmã de Jeziel recebia aquelas explicações com espanto profundo.
— Então, abandonas-me inteiramente, assim? – perguntou entre lágrimas.
— Não estás desamparada – murmurou inflexivelmente, – tens os teus amigos da estrada de Jope.
— Mas, afinal, por que odiaste tanto a meu irmão? Ele foi sempre bondoso. Em Corinto nunca ofendeu a ninguém.
Era pregador do malfadado carpinteiro de Nazaré – esclareceu, contrafeito e ríspido, – além disso, humilhou-se diante da cidade inteira.
Abigail, compelida pela severidade das respostas, calou-se inteiramente.
Que poder teria o Nazareno para atrair tantas dedicações e provocar tantos ódios? Até ali, não se interessara pela figura do famoso carpinteiro, que morrera na cruz, como malfeitor; mas o irmão lhe dissera ter encontrado nele o Messias. Para seduzir um caráter cristalino, como Jeziel, o Cristo não poderia ser um homem vulgar. Lembrava o passado do irmão para considerar que, no caso da rebeldia paterna, conseguira manter-se acima dos próprios laços do sangue para admoestar o genitor, amorosamente. Se tivera forças para analisar os atos paternos com o preciso discernimento, era preciso que aquele Jesus fosse muito grande, para que a ele se consagrasse, oferecendo-lhe a própria vida ao recobrar a liberdade. Jeziel, a seu ver, não se enganaria.
Conhecendo-lhe a índole, do berço, não era possível que se deixasse iludir em suas convicções religiosas. Sentia-se, agora, atraída para aquele Jesus desconhecido e odiado injustamente. Ele ensinara o irmão a bem-querer os próprios verdugos. Que lhe não reservaria, pois, ao seu coração sedento de carinho e de paz? As últimas palavras de Jeziel exerciam sobre ela uma influência profunda.
Abismada em profundas cogitações, notou que Saulo abrira a porta, chamando alguns auxiliares, que se precipitaram por cumprir-lhe as ordens.
Em poucos minutos os despojos de Estevão eram removidos, enquanto amigos numerosos cercavam o jovem par, expansivamente loquazes e satisfeitos.
— Que é isto – perguntou um deles a Abigail, – ao notar-lhe a túnica manchada de sangue.
— O sentenciado era israelita – atalhou o moço tarsense, desejoso de antecipar explicações – e, como tal, amparamo-lo na hora extrema.
Um olhar mais severo deu a entender à jovem quanto devia conter as emoções próprias, longe e acima das ocorrências verídicas.
Daí a minutos, o velho Gamaliel chegava e solicitava ao ex-discípulo alguns momentos de atenção, em particular.
—Saulo disse bondoso, – espero partir na semana próxima para além de Damasco. Vou descansar junto de meu irmão e aproveitar a noite da velhice para meditar e repousar o espírito. Já fiz a necessária notificação no Sinédrio e no Templo, e acredito que, dentro de poucos dias, serás efetivamente provido no meu cargo.
O interpelado fez um ligeiro gesto de agradecimento, cuja frieza mal disfarçava o abatimento que lhe ia na alma.
— Entretanto – prosseguia o generoso rabino, solicitamente tenho um último pedido a fazer-te: É que tenho Simão Pedro em conta de um amigo.
Esta confissão poderá escandalizar-te mas, sinto-me bem ao fazê-la. Acabo de receber sua visita, pedindo a minha interferência para que o cadáver da vítima de hoje seja entregue à igreja do “Caminho”, onde será sepultado com muito amor. Sou o intermediário do pedido e espero não me recuses o obséquio.
— Dizeis “vítima”? – perguntou Saulo admirado.
— A existência de uma vítima pressupõe um algoz e réu; eu não sou verdugo de ninguém. Defendi a Lei até ao fim.
Gamaliel compreendeu a objeção e replicou:
— Não vejas laivo de recriminação nas minhas palavras. Nem a hora, nem o local, tampouco, se prestam a discussões. Mas, para não faltar à sinceridade que em mim sempre conheceste, devo dizer-te, rapidamente, que venho chegando a profundas conclusões a respeito do chamado carpinteiro de Nazaré. Tenho refletido maduramente na sua obra entre nós; todavia, estou velho e alquebrado para iniciar qualquer movimento renovador no seio do judaísmo. Em nossa existência chega uma fase em que não nos é lícito intervir nos problemas coletivos; mas, em qualquer idade, podemos e devemos operar a iluminação ou o aprimoramento de nós mesmos. É o que vou fazer. O deserto, na majestade silenciosa do insulamento, constituiu sempre a sedução dos nossos antepassados. Sairei de Jerusalém, fugirei do escândalo que as minhas novas ideias e atitudes certo provocariam; buscarei a solidão para encontrar a verdade.
Saulo de Tarso estava estupefato. Também Gamaliel parecia sofrer a influenciação de estranhos sortilégios! Sem dúvida, os homens do “Caminho” o enfeitiçaram, desbaratando-lhe as últimas energias… o velho mestre acabara capitulando, numa atitude de consequências imprevisíveis! Ia impugnar, discutir, chamá-lo à realidade, quando o venerando mentor da mocidade farisaica, deixando entrever que percebia as vibrações antagônicas do seu espírito ardoroso, sentenciou:
— Já sei o teor da tua resposta íntima. Julga-me fraco, vencido, e cada qual analisa como pode; mas não me leves ao enfaro das controvérsias. Aqui estou somente para solicitar-te um favor e espero não mo negues. Poderei providenciar para remover os despojos de Estevão imediatamente?
Via-se que o moço de Tarso hesitava, premido por singulares pensamentos.
— Concede, Saulo!… É o último obséquio ao velho amigo!…
— Concedo – disse afinal.
Gamaliel despediu-se com um gesto de sincero reconhecimento.
Novamente rodeado de muitos amigos, que procuravam alegrá-lo, o jovem doutor da Lei revelava-se muito alheio de si mesmo. Debalde erguia a taça das saudações. O olhar vago, cismativo, demonstrava o profundo aleamento em que se engolfara. Os inesperados acontecimentos acarretaram-lhe à mente um turbilhão de pensamentos angustiados. Queria pensar, desejava recolher-se em si mesmo para o exame necessário das novas perspectivas do seu destino, mas, até ao pôr do sol, foi obrigado a manter-se no quadro das convenções sociais, atendendo aos amigos até ao fim.
Alegando necessidade de trocar as vestes ensanguentadas, Abigail retirara-se logo após a entrevista de Gamaliel.
Na casa de Dalila, entretanto, a pobrezinha foi acometida de febre alta, penalizando e alarmando a todos os que lá se encontravam.
Ao cair da noite, Saulo regressava ao lar da irmã, onde lhe comunicaram o estado da enferma.
Resolvido a imprimir novos rumos à sua vida, procurou sufocar a própria emoção para encarar os fatos com a naturalidade possível.
Em lágrimas, a jovem de Corinto pediu que a reconduzissem à casa de Zacarias, receando a marcha da enfermidade. Em vão, Dalila e os parentes procuraram intervir com recursos afetuosos. A súplica de Abigail ao espírito enérgico de Saulo foi exposta comovedoramente e, dentro da severidade que lhe caracterizava as atitudes, o ex-discípulo de Gamaliel tomou todas as providências para satisfazê-la.
E à noitinha, com muito cuidado, modesta carreta saía de Jerusalém pela estrada de Jope.
Ruth recebeu a jovem nos braços, emocionada e aflita. Ela e o marido recordaram, então, que, somente com a morte do pai, Abigail tivera febre tão alta, acompanhada de abatimento tão profundo. De cenho carregado, Saulo os ouvia, esforçando-se por dissimular a emoção. E enquanto os amigos da jovem procuravam assisti-la, carinhosamente, o futuro rabino, sucumbido num bulcão de ideias antagônicas, dirigia-se para Jerusalém, com intenção de não mais voltar a Jope.

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