As primeiras perseguições II

Foi pela manhã de um dia muito claro, que o futuro rabino, cercado de alguns companheiros e soldados, bateu à porta da casa humilde, fazendo grande alarde dos fins de sua visita insidiosa. Simão Pedro em pessoa foi atendê-lo com grande serenidade nos olhos.
Indisfarçável pavor estabeleceu-se entre os mais tímidos, porquanto, dois jovens que acompanhavam o Apóstolo se incumbiram de correr ao interior e espalhar a notícia.
— És tu Simão Pedro, antigo pescador de Cafarnaum? Perguntou Saulo com certa insolência.
— Eu mesmo — respondeu com firmeza.
—Estás preso! — disse o chefe da expedição num gesto de triunfo. E mandando que dois dos companheiros se adiantassem, ordenou fosse o Apóstolo algemado incontinenti. Pedro não opôs a mínima resistência.
Impressionado com o temperamento pacífico que os continuadores do Nazareno testemunhavam sempre, Saulo objetou com escárnio:
— O Mestre do “Caminho” deve ter sido um alto modelo de inércia e covardia. Ainda não encontrei qual quer indício de dignidade nos seus discípulos, cujas faculdades de reação parecem mortas.
Recebendo em cheio tão acerba injúria, o ex-pescador respondeu serenamente:
— Enganei-vos quando assim julgais. O discípulo do Evangelho é apenas inimigo do mal e, na sua tarefa coloca o amor acima de todos os princípios.
Além do mais, nós consideramos que todo jugo, com Jesus, é suave.
O jovem tarsense, detentor de tão alto poderio, não dissimulou o mal-estar que a resposta lhe causava e, apontando o continuador de Jesus, disse a um dos homens da escolta:
—Jonas, toma conta dele.
E, acentuando ironicamente as palavras, dirigiu-se aos demais com um gesto de desprezo para o Apóstolo algemado, que o contemplava sereno, embora surpreendido:
Não discutamos com este homem. Esta gente do “Caminho” está sempre cheia de raciocínios absurdos. É preciso não perder tempo com a cegueira da ignorância. Vamos até lá dentro, prendamos os chefes. Os sequazes do carpinteiro hão de ser perseguidos até ao fim.
Resoluto, tomou a dianteira, penetrando ousadamente em busca dos apartamentos mais íntimos. De porta a porta, encontrava mendigos que o fitavam tomados de espanto e amargura. O quadro vivo de tanta miséria abrigada enchia-o de admiração; mas, esforçava-se por não perder a enfibratura implacável, de maneira a executar seus projetos nos menores detalhes. Ao lado da enfermaria de mais vastas proporções, encontrou o filho de Zebedeu, que lhe ouviu a voz de prisão sem alterar a serenidade fisionômica.
Sentindo as mãos grosseiras do soldado que lhe aplicava as algemas, João ergueu os olhos ao Alto e murmurou simplesmente:
— Encomendo-me ao Cristo.
O chefe da caravana olhou-o com profundo desprezo e exclamou altivamente para os companheiros:
— Faltam dois dos mais suspeitos. Procuremo-los Referia-se a Filipe e Tiago, na qualidade de discípulos diretos do Messias Nazareno.
Mais alguns passos e o primeiro foi encontrado facilmente. Filipe deixou-se algemar sem um protesto. Suas filhas o rodearam aflitas e chorosas.
— Coragem, filhas — disse ele sem temor —, acaso seríamos superiores a Jesus, que foi perseguido e crucificado pelos homens?
— Ouves, Clemente? — perguntou Saulo, irritado, a um dos amigos mais cotados. — Não se percebe outra coisa a não ser referências ao estranho Nazareno! O primeiro falou em jugo do Cristo, o segundo encomendou-se ao Cristo, este alude à superioridade do Cristo… Aonde iremos?
Após desabafar a cólera, em termos ásperos, rematava com o estribilho constante:
— Havemos de ir até ao fim.
Seguros os três prisioneiros, faltava o filho de Alfeu. Alguém se lembrou de procurá-lo no tosco biombo que ocupava. Com efeito, lá o acharam ajoelhado, tendo diante dos olhos um rolo de pergaminhos em que se encontrava a Lei de Moisés. Via-se-lhe a palidez marmórea do rosto, quando Saulo se aproximou ríspido:
— Que é isso? Há aqui alguém que cuide da Lei?
O irmão de Levi levantou os olhos transbordantes de sincero receio e explicou humilde:
— Senhor, jamais esqueci a Lei de nossos pais. Meus avós ensinaram-me a receber de joelhos as luzes do profeta santo.
A atitude de Tiago não traduzia fingimento. Consagrando o máximo respeito ao libertador de Israel, sempre ouvira dizer que seus livros sagrados estavam tocados de virtude santa. Na expectativa do cárcere, atemorizara-se com o perigo iminente. Não pudera compreender, maiormente, como outros companheiros, o sentido divino e oculto das lições do Evangelho. O sacrifício inspirava-lhe indisfarçáveis temores. Afinal, pensava ele na compreensão parcial do Cristo: — quem ficaria para superintender as obras começadas? O Mestre expirara na cruz e, naquele instante, os Apóstolos de Jerusalém estavam presos.
Precisava defender-se com os meios possíveis, ao seu alcance. Imaginou recorrer às virtudes sobrenaturais da Lei de Moisés, de acordo com as velhas crenças. Genuflexo, esperara os verdugos que se aproximavam.
Em face da atitude imprevista de Tiago, Saulo de Tarso estava atônito. Só os espíritos profundamente aferrados ao judaísmo liam, de joelhos, os ensinamentos de Moisés. Em sã consciência, não poderia ordenar a prisão daquele homem, O argumento que justificava sua tarefa, perante as autoridades políticas e religiosas de Jerusalém, era o combate aos inimigos das tradições.
— Mas não sois amigo do carpinteiro?
Com invejável presença de espírito o interpelado respondeu:
— Não me consta que a Lei nos impeça de ter amigos.
Saulo perturbou-se, mas prosseguiu:
— Mas, que escolheis? A Lei ou o Evangelho? Qual dos dois aceitais em primeiro lugar?
— A Lei é a primeira revelação divina — disse Tiago com inteligência.
Ante a resposta que o desconcertava, de alguma sorte, o moço de Tarso refletiu um momento e acrescentou, dirigindo-se, aos circunstantes:
— Está bem. Este homem fica em paz.
O filho de Alfeu, intimamente satisfeito com o resultado de sua iniciativa, acreditava agora que a Lei de Moisés estava tocada de graças vivas e permanentes. A seu ver, fora o código do judaísmo o talismã que o conservara em liberdade. Desde esse dia, o irmão de Levi ia consolidar, para sempre, suas tendências supersticiosas. O fanatismo que os historiadores do Cristianismo encontraram na sua personalidade enigmática teve aí sua origem.
Afastando-se do aposento de Tiago, Saulo preparava-se para sair, quando, de regresso à portaria para ordenar a partida dos prisioneiros, esbarrou com a cena que mais o haveria de impressionar.
Todos os doentes que se podiam arrastar, todos os abrigados capazes de se moverem, cercavam a pessoa de Pedro, chorando comovidamente.
Algumas crianças lhe chamavam “pai”; anciães trêmulos osculavam-lhe as mãos...
— Quem se compadecerá de nós, agora? — perguntava uma velhinha debulhada em pranto.
— Meu “pai”, aonde vão levar-vos? — dizia um órfão afetuoso, abraçando-se ao prisioneiro.
— Vou ao monte, filho — respondia o Apóstolo.
— E se vos matarem? — tornava o pequenino com uma grande interrogação nos olhos azuis.
— Encontrar-me-ei com o Mestre e voltarei com ele — esclarecia Pedro bondosamente.
Nesse instante, surgiu a figura de Saulo, que regressava. Contemplando a multidão de aleijados, cegos, leprosos e crianças que entupiam a sala, exclamou irritado:
— Afastem-se, abram caminho!
Alguns recuaram, espavoridos, vendo os soldados que se aproximavam, enquanto que os mais resolutos não arredavam passo. Um leproso, que mal se punha em pé, adiantou-se. O velho Samônio, recordando-se do tempo em que podia mandar e ser obedecido, aproximou-se de Saulo com desassombro.
— Nós precisamos saber para onde vão estes prisioneiros disse com gravidade.
— Para trás! — exclamou o moço tarsense, esboçando um gesto de repugnância.
Será possível que um homem da Lei tenha de dar satisfações a um velho imundo?
Os guardas armados tentaram adiantar-se, para castigar o atrevido; no entanto, a lepra defendia Samônio dos seus ataques.
Prevalecendo-se da situação, o antigo proprietário de Cesareia revidou com firmeza:
— O homem da Lei não precisa prestar contas senão a Deus, quando no exato cumprimento dos seus deveres; mas, nesta casa, falam os códigos de humanidade. Para vós eu sou imundo, mas para Simão Pedro sou um ir mão.
Prendeis os bons e libertais os maus!
Onde a vossa justiça? Credes somente no Deus dos exércitos? É indispensável saberdes que se o Eterno é o fator supremo da ordem, o Evangelho nos ensina a buscar em sua providência o carinho de um Pai.
Em ouvindo aquela voz digna, que fluía da miséria e do sofrimento como um apelo de desesperação, Saulo quedara-se admirado. O mendigo, entretanto, depois de longa pausa, prosseguia resoluto:
— Onde estão vossas casas de arrimo aos oprimidos da sorte? Quando vos lembrastes de um asilo para os mais infelizes? Enganai-vos se supondes inércia em nossa atitude. Os fariseus levaram Jesus ao Calvário da crucificação, privando os necessitados de sua presença inefável. Por haver praticado o bem, Estevão foi metido no cárcere. Agora, o Sinédrio requisita os Apóstolos do “Caminho”, retribuindo-lhes a bondade com a escuridão do calabouço. Mas estais equivocados. Nós, os miseráveis de Jerusalém, haveremos de lutar convosco. De Simão Pedro nós disputaremos a própria sombra. Se vos negardes a atender nossas súplicas, importa lembrardes que somos leprosos. Envenenaremos vossos poços. Pagareis a perversidade com a saúde e com a vida.
Nesse ínterim, não pôde continuar.
Ante a expectação angustiosa de todos, Saulo de Tarso sentenciou ríspido:
— Cala-te miserável! Onde estou que te pude ouvir até agora? Nem mais uma palavra.
E designando-o a um dos soldados, murmurou com desprezo:
— Sinésio, dá-lhe dez bastonadas. É indispensável castigar-lhe a língua insolente e viperina.
Ali mesmo, à vista de todos os companheiros que se retraíam amedrontados, Samônio recebeu o castigo sem balbuciar uma queixa. Pedro e João tinham os olhos úmidos. Os demais doentes encolhiam-se estarrecidos.
Terminada a tarefa, um grande silêncio dominava os corações ansiosos e doloridos. O doutor de Tarso rompeu a expectativa com a ordem de partida, a caminho do cárcere.
Duas crianças pálidas acercaram-se, então, do ex-pescador de Cafarnaum e perguntaram chorosas:
— “Pai”, com quem ficaremos nós?
Pedro voltou-se, acabrunhado, e respondeu com ternura:
— As filhas de Filipe ficarão convosco... Se Jesus permitir, meus filhos, não me demorarei.
O próprio Saulo, intimamente, estava comovido; entretanto, não desejava trair-se a si mesmo, deixando-se vencer pela emoção que o quadro lhe provocava.
Pedro compreendeu que as lágrimas silenciosas de todos os tutelados humildes do “Caminho” traduziam desvelado amor, naquele momento de angustiantes despedidas.
Em seguida a esse feito, o jovem tarsense desdobrou as energias na primeira perseguição experimentada pelas expressões individuais e coletivas do Cristianismo nascente. Mais do que se poderia supor, Jerusalém regurgitava de criaturas que se interessavam pelas ideias do Messias Nazareno. Saulo prevaleceu-se dessa circunstância para fazer sentir, mais uma vez, o perigo ideológico que o Evangelho representava. Numerosas prisões foram efetuadas.
Na cidade, iniciara-se um êxodo de grandes proporções. Os amigos do “Caminho”, com possibilidades financeiras, preferiam encetar vida nova na Idumeia ou na Arábia, na Cilícia ou na Síria. Os que podiam escapavam ao rigor dos inquéritos violentos, iniciados com retumbâncias de escândalo público. As personalidades mais eminentes eram metidas na prisão, incomunicáveis, mas os anônimos e humildes, os da plebe, sofriam grandes vexames nas dependências do tribunal onde se faziam os interrogatórios. Os guardas assalariados por Saulo, para a execução do nefando trabalho, excediam-se nos abusos.
— És do “Caminho” de Cristo Jesus? — perguntava um deles a uma desventurada mulher, com risinhos de ironia.
— Eu... eu... — gaguejava a infeliz, compreendendo a delicadeza da situação.
— Depressa, dize depressa! — tornava o beleguim desrespeitoso.
A mísera criatura empalidecia a tremer, refletindo nos pesados castigos que lhe seriam impostos e retrucava com profundo temor:
— Eu... não...
— E que foste fazer nas suas assembleias sediciosas?
— Fui buscar remédio para um filhinho doente.
Em face da negativa, o preposto do Sinédrio parecia acalmar-se, mas logo exclamava para um dos auxiliares:
— Muito bem! A interrogada pode ir em paz; antes, porém, de retirar-se, manda o regulamento se lhe aplique alguns golpes de chanfalho.
E era inútil resistir. Naquele tribunal singular, por longos dias seguidos, verificaram-se punições de toda espécie. Das respostas do querelado dependiam o encarceramento, os açoites, o chanfalho, as bastonadas, as macerações e os apupos.
Saulo tornara-se a mola central do movimento terrível e execrado por todos os simpatizantes do “Caminho”. Multiplicando energias, visitava diariamente os núcleos do serviço a que costumava chamar “expurgo de Jerusalém”, desenvolvendo atividade pasmosa, dentro da qual mantinha a vigilância constante das autoridades administrativas, encorajava os auxiliares e prepostos, instigava outros perseguidores dos princípios de Jesus, sem deixar arrefecer-se o zelo religioso do Sinédrio.
Dentro de uma semana, após as prisões efetuadas na igreja modesta, realizava-se a memorável sessão em que Pedro, João e Filipe deveriam ser julgados. A assembleia excepcional despertara a maior curiosidade. Lá se congregavam todas as personalidades eminentes do farisaísmo dominante.
Gamaliel compareceu, dando mostras de profundo abatimento.
De modo geral, comentava-se a atitude dos mendigos que, não obtendo permissão de ingresso, aglomeravam-se em longas filas na grande praça e protestavam em atroante vozerio.
Debalde aplicavam-lhes bastonadas a torto e a direito, porque a turba de miseráveis assumira proporções nunca vistas, O quadro era curioso e alarmante. Tomar providências para correr com a massa, parecia tarefa impossível, Os peregrinos e os doentes contavam-se por centenas numerosas.
Era inútil reprimir nos pontos isolados, o que somente vinha agravar a revolta e desesperação de muitos. Em altos brados reclamavam a liberdade de Simão Pedro.
Exigiam em tumulto a sua libertação, como se exigissem um legado de seu legítimo direito.
No salão nobre, não só os assistentes comentavam o fato, mas, também os juízes não dissimulavam profunda impressão. O próprio Anás contava o assédio de que vinha sendo objeto, por parte dos favorecidos de Jerusalém.
Alexandre alegava que à sua residência afluíram centenas de aflitos a solicitar-lhe os bons ofícios a favor dos prisioneiros. Saulo, de vez em quando, respondia a um que outro, com rápidos monossílabos. Sua fisionomia carregada traduzia propósitos inferiores relativamente ao destino dos Apóstolos da Boa Nova, que lá estavam à sua frente, no fundo da sala, humildes, serenos, no banco dos criminosos comuns.
Viu-se, então, que Gamaliel se detinha com o sumo sacerdote em conversação íntima, que durou alguns minutos e despertava grande curiosidade entre os colegas. Em seguida, o venerando doutor da Lei chamou o ex-discípulo para um entendimento particular, antes de iniciarem os trabalhos. Os colegas perceberam que o rabino tolerante e generoso ia advogar a causa dos continuadores do Nazareno.
— Qual a sentença a ser proposta para os prisioneiros? — interrogou o velhinho com bondoso interesse, logo que se viram distanciados dos grupos rumorosos.
— Sendo eles Galileus — disse Saulo enfático da sua autoridade —, não lhes será conferido o direito da palavra no recinto; de maneira que já deliberei a punição que lhes cabe.
Vou propor a morte dos três, com a de Estevão, pelo apedrejamento.
— Que dizes? — exclamou Gamaliel, surpreso.
— Não vejo outro recurso — disse o moço tarsense —, precisamos extirpar pela raiz os males que começam. Acredito que, se encararmos o movimento com tolerância, teremos o prestígio do judaísmo abalado por nossas próprias mãos.
— Entretanto, Saulo — replicou o velho mestre com profunda bondade —, devo invocar o ascendente que tenho em tua formação espiritual, para defender estes homens da pena de morte.
O moço caprichoso fez-se lívido. Não se habituara a transigir nos seus conceitos e decisões. Sua vontade era sempre tirânica e inflexível. Mas Gamaliel fora de todos os tempos o seu melhor amigo. Aquelas mãos rugosas lhe haviam ministrado os exemplos mais santos.
Delas recebera vasto potencial de socorro em todos os dias da vida.
Compreendeu que defrontava um obstáculo poderoso na consecução integral de seus desejos. O venerando rabino percebeu a perplexidade e logo insistiu:
— Ninguém mais do que eu conhece a generosidade do teu coração e sou o primeiro a reconhecer que tuas resoluções obedecem ao zelo inexcedível na defesa de nossos princípios milenários; mas o “Caminho”, Saulo, parece ter uma grande finalidade na renovação dos nossos valores humanos e religiosos.
Quem, entre nós, se havia lembrado de amparar os infortunados com o provimento de um lar afetuoso e fraterno? Antes da tua diligência corretiva, visitei essa instituição singela e pude confortar-me na observação do seu excelente programa.
O jovem doutor estava pálido, ouvindo tais conceitos, que, a seu ver, eram positivo sinal de fraqueza.
Mas será possível — disse admirado — que também vós tenhais lido o Evangelho dos Galileus?
— Estou a lê-lo — confirmou Gamaliel sem titubear — e pretendo meditar mais demoradamente os fenômenos que ocorrem em nosso tempo. Pressinto grandes transformações em toda parte. Tenciono retirar-me da vida pública em breves dias, a fim de tomar o caminho do deserto. É claro, porém, que estas minhas palavras devem ser guardadas por ti, em penhor de mútua confiança.
Sumamente impressionado, o moço de Tarso não sabia o que responder.
Presumia o mestre respeitável mentalmente prejudicado por excesso de lucubrações. O mestre, porém, como se lhe adivinhasse o pensamento, acrescentou:
— Não me suponhas mentalmente debilitado. A velhice no corpo não me apagou a capacidade de pensar e discernir por mim mesmo. Compreendo o escândalo que se levantaria em Jerusalém se um rabino do Sinédrio modificasse publicamente as convicções mais íntimas. Mas é preciso convir que estou falando a um filho espiritual. E expondo, sinceramente, o meu ponto de vista, faço-o tão só para defender homens generosos e justos de uma sentença iníqua e indevida.
— Vossa revelação — exclamou Saulo de roldão — decepciona-me profundamente!
— Conheces-me de menino e sabes que o homem sincero não se poderá preocupar com os que o elogiem ou o lamentem no cumprimento de um sagrado dever.
E, imprimindo carinhoso acento à voz, acentuava solícito:
— Não me faças ir contigo, nesta assembleia, aos debates públicos escandalosos e atentatórios da feição amorosa que toda verdade deve trazer consigo. Libertarás estes homens em atenção ao nosso passado de mútuo entendimento. É só o que te peço. Deixa-os em paz, por amor aos nossos laços afetivos. Daqui a alguns dias não precisarás conceder mais coisa alguma ao velho mestre. Serás meu substituto neste cenáculo, porquanto tenciono abandonar a cidade em breves dias.
E como Saulo hesitasse, continuou:
— Não precisarás refletir muito tempo. O sumo sacerdote está ciente de que eu pediria tua demência para os prisioneiros.
— Mas... e a minha autoridade? — interrogou o rapaz com orgulho. — Como conciliar a indulgência com a necessidade de reprimir o mal?
— Toda a autoridade é de Deus. Nós somos simples instrumentos, meu filho. Ninguém se diminuirá por ser bom e tolerante. Quanto à providência mais digna, cabível no caso, é conceder liberdade a todos eles.
— Todos? — perguntou Saulo num gesto de grande admiração.
— Como não? — confirmou o venerável doutor da Lei. — Pedro é um homem generoso, Filipe é um pai de família extremamente dedicado ao cumprimento de seus deveres, João é um moço simples, Estevão se consagrou aos pobres.
— Sim, sim — interrompeu o moço tarsense. —Concordo com a libertação dos três primeiros, com uma condição. Por serem casados, Pedro e Filipe poderão continuar em Jerusalém, restringindo suas atividades ao socorro dos doentes e necessitados; João será banido; mas Estevão deverá sofrer a sentença decisiva. Já propus, publicamente, a lapidação, e não vejo motivos para transigir, mesmo porque, para escarmento, pelo menos um dos discípulos do carpinteiro deve morrer.
Gamaliel compreendeu a força daquela resolução pela veemência das palavras que a traduziam. Saulo deixara bem claro que não transigiria, quanto ao taumaturgo. O velho rabino não insistiu. Para evitar um escândalo, entendeu que Estêvão pagaria com o sacrifício. Aliás, considerando o temperamento voluntarioso do ex-discípulo, a quem a cidade havia conferido atribuições tão vastas, já não era pouco obter demência para os três homens justos, consagrados ao bem comum.
Compreendendo a situação, acentuou o respeitável rabino.
— Pois bem, seja assim!
E, com um sorriso de bondade, deixou o moço algo preocupado e perplexo.
Daí a instantes, com surpresa geral da assembleia, Saulo de Tarso, da tribuna, propunha a libertação de Pedro e Filipe, o banimento de João, e reiterava o pedido de apedrejamento para Estevão, por considerá-lo o mais perigoso dos elementos do “Caminho”. As autoridades do Sinédrio apreciando os alvitres, com satisfação, por saberem que a medida agradaria à turba numerosa, afirmaram seu unânime consentimento e a morte de Estevão foi aprazada para uma semana depois, convidando Saulo os amigos para a triste cerimônia pública a que ele próprio haveria de presidir.

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