Em Jerusalém I

Depois de contemplar angustiadamente o cadáver paterno, o jovem hebreu acompanhou a irmã, de olhar ansioso, até a porta de acesso a um dos vastos corredores da prisão. Jamais experimentara tão profunda emoção. Ao cérebro atormentado acudiam-lhe os conselhos maternos, quando asseverava que a criatura, acima de tudo, devia amar a Deus. Jamais conhecera lágrimas tão amargas como aquelas que lhe fluíam em torrente, do coração dilacerado.
Como reaver a coragem e reorganizar o caminho? Desejou, num relance, romper as algemas, aproximar-se do pai inanimado, afagar-lhe os cabelos brancos e, simultaneamente, abrir todas as portas, correr no encalço de Abigail, tomá-la nos braços para nunca mais se apartarem nas estradas da vida. Debalde se estorceu no tronco do martírio, porque, em retribuição aos esforços, somente o sangue manava mais copioso das feridas abertas.
Soluços dolorosos abalavam-lhe o peito, a cuja altura a túnica se fizera em rubros frangalhos. Abismado em si mesmo, finalmente foi recolhido a um a cela úmida, onde, por trinta dias, mergulhou o pensamento em profundas cogitações.
Ao fim de um mês, as feridas estavam cicatrizadas e um dos prepostos de Licínio julgou chegado o momento de encaminhá-lo a uma das galeras do tráfego comercial, onde se encontrava o procurador, interessado em assuntos lucrativos.
O moço hebreu perdera o viço róseo das faces e o tom ingênuo da fisionomia carinhosa e alegre. A rude experiência dera-lhe uma expressão dolorosa e sombria. Vagava-lhe no semblante indefinível tristeza e na fronte apontavam rugas precoces, nunciativas de velhice prematura; nos olhos, porém, a mesma serenidade doce, oriunda da íntima confiança em Deus.
Como outros descendentes da sua raça, sofrera o sacrifício pungente; todavia, guardara a fé, como a auréola divina dos que sabem verdadeiramente agir e esperar. O autor dos Provérbios recomendara, como imprescindível, a serenidade da alma em todas as flutuações da vida humana, porque dela procedem as fontes mais puras da existência e Jeziel guardara o coração. Órfão de pai e mãe, cativo de verdugos cruéis, saberia conservar o tesouro da esperança e procuraria a irmã, até aos confins do mundo, se um dia conseguisse, de novo, o beijo da liberdade na fronte escravizada.
Seguido de perto por sentinelas impiedosas, qual se fora um vagabundo vulgar, cruzou as ruas de Corinto até o porto, onde o internaram no porão infecto de uma galera adornada com o símbolo das águias dominadoras.
Reduzido à mísera condição de condenado a trabalhos perpétuos, enfrentou a nova situação cheio de confiança e humildade. Foi com admiração que o feitor Lisipo anotou-lhe a boa conduta e o esforço nobre e generoso.
Habituado a lidar com malfeitores e criaturas sem escrúpulos, que, não raro, requeriam a disciplina do chicote, surpreendeu-se ao reconhecer no moço hebreu a disposição sincera de quem se entregava ao sacrifício, sem rebeldias e sem baixeza.
Manejando os remos pesados com absoluta serenidade, como quem se dava a uma tarefa habitual, sentia o suor abundante inundar-lhe a face juvenil, relembrando, comovido, os dias laboriosos da sua charrua amiga. Em breve, o feitor reconhecia nele um servo digno de estima e consideração, que soubera impor-se aos próprios companheiros com o prestígio da natural bondade que lhe transbordava da alma.
— Ai de nós! – exclamou um colega desalentado.
— São raros os que resistem a estes remos malditos, por mais de quatro meses!...
— Mas todo o serviço é de Deus, amigo – respondeu Jeziel altamente inspirado, – e desde que aqui nos encontramos em atividade honesta e de consciência tranquila, devemos guardar a convicção de servos do Criador, trabalhando em suas obras.
Para todas as complicações da nova modalidade de sua existência, tinha uma fórmula conciliatória, harmonizando os ânimos mais exaltados. O feitor surpreendia-se com a delicadeza do seu trato e capacidade de trabalho, que se aliavam aos mais altos valores da educação religiosa recebida no lar.
No bojo escuro da embarcação, sua firmeza de fé não se modificara. Dividia o tempo entre os labores rudes e as sagradas meditações. A todos os pensamentos, sobrelevava a saudade do ninho familiar, com a esperança de rever a irmã algum dia, por mais que se lhe dilatasse o cativeiro.
De Corinto, a grande embarcação aproara em Cefalônia e Nicópolis, de onde deveria regressar aos portos da linha de Chipre, depois de ligeira passagem pela costa da Palestina, consoante o itinerário organizado para aproveitar o tempo seco e tendo em vista que o inverno paralisava toda a navegação.
Afeito ao trabalho, não lhe foi difícil adaptar-se à pesada faina de carga e descarga do material transportado, à manobra dos remos implacáveis e à assistência aos poucos passageiros, sempre que lhe requisitavam préstimos, sob o olhar vigilante de Lisipo.
Voltando de Cefalônia, a galera recebeu um passageiro ilustre. Era o jovem romano Sérgio Paulo, que se dirigia para a cidade de Citium, em comissão de natureza política. Com destino ao porto de Nea-Pafos, onde alguns amigos o esperavam, o moço patrício se constituiu, desde logo, entre todos, alvo de grandes atenções. Dada a importância do seu nome e o caráter oficial da missão a ele cometida, o comandante Sérvio Carbo lhe reservou as melhores acomodações.
Sérgio Paulo, entretanto, muito antes de aportarem novamente em Corinto, onde a embarcação deveria permanecer alguns dias, em prosseguimento da rota prefixada, adoeceu com febre alta, abrindo-se-lhe o corpo em chagas purulentas. Comentava-se, à sorrelfa, que nas cercanias de Cefalônia grassava uma peste desconhecida. O médico de bordo não conseguiu explicar a enfermidade e os amigos do enfermo começaram a retrair-se com indisfarçável escrúpulo. Ao fim de três dias, o jovem romano achava-se quase abandonado, O comandante, preocupado, por sua vez, com a própria situação e receoso por si mesmo, chamou Lisipo, pedindo-lhe que indicasse um escravo, dos mais educados e maneirosos, capaz de incumbir-se de toda a assistência ao passageiro ilustre, O feitor designou Jeziel, incontinenti, e, na mesma tarde, o moço hebreu penetrou no camarote do enfermo, com o mesmo espírito de serenidade que costumava testemunhar nas situações mais díspares e arriscadas.
Sérgio Paulo tinha o leito em desalinho. Não raro, levantava-se de súbito, no auge da febre que o fazia delirar, pronunciando palavras desconexas e agravando, com o movimento dos braços, as chagas que sangravam em todo o corpo.
— Quem és tu? — perguntou o doente em delírio, logo que enxergou a figura silenciosa e humilde do jovem de Corinto.
— Chamo-me Jeziel, o escravo que vos vem servir. E a partir daquele momento, consagrou-se ao enfermo com todas as reservas da sua afetividade.
Com a permissão dos amigos de Sérgio, utilizou todos os recursos de que podia dispor a bordo, imitando a medicação aprendida no lar. Dias seguidos e longas noites, velou à cabeceira do ilustre romano, com devotamento e boa vontade. Banhos, essências e pomadas eram manipulados e aplicados com extrema dedicação, como se estivesse a tratar um parente íntimo e muito caro.
Nas horas mais críticas da enfermidade dolorosa, falava-lhe de Deus, recitava trechos antigos dos profetas, que trazia de cor, cumulando-o de consolações e carinho fraternal.
Sérgio Paulo compreendeu a gravidade do mal que afastara os amigos mais caros e, no convívio daqueles dias, afeiçoou-se ao enfermeiro humilde e bom. Depois de alguns dias em que Jeziel conquistara plenamente a sua admiração e o seu reconhecimento, pelos atos de inexcedível bondade, o doente entrou em rápida convalescença, com manifestações de geral alegria.
E, contudo, na véspera de regressar ao porão abafado, o jovem cativo apresentou os primeiros sintomas da moléstia desconhecida que grassava em Cefalônia.
Após entender-se com alguns subordinados de categoria, o comandante chamou a atenção do patrício, já quase restabelecido, e lhe pediu aprovação para o projeto de lançar o jovem ao mar.
— Será preferível envenenar os peixes, antes que afrontar o perigo do contágio e arriscar tantas vidas preciosas – esclarecia Sérvio Carbo com malicioso sorriso.
O patrício refletiu um instante e reclamou a presença de Lisipo, entrando os três a tratar do assunto.
— Qual a situação do rapaz? — perguntou o romano com interesse.
O feitor passou a esclarecer que o jovem hebreu lhe viera com outros homens capturados por Licínio Minucio, por ocasião dos últimos distúrbios da Acaia. Lisipo, que simpatizava extremamente com o moço de Corinto, procurou pintar com fidelidade a correção da sua conduta, suas maneiras distintas, a benéfica influência moral que ele exercia sobre os companheiros muitas vezes desesperados e insubmissos.
Depois de longas considerações, Sérgio ponderou com profunda nobreza:
— Não posso admitir que Jeziel seja atirado ao mar com a minha aquiescência. Devo a esse escravo uma dedicação que equivale à minha própria vida. Conheço Licínio e, se necessário, poderei esclarecê-lo mais tarde sobre esta minha atitude. Não duvido que a peste de Cefalônia esteja trabalhando o seu organismo e, por isso mesmo, é que lhes peço a cooperação necessária, a fim de que esse jovem fique liberto para sempre.
— Mas isso é impossível... – exclamou Sérvio reticenciosamente.
— Por que não? – revidou o romano. – Em que dia atingiremos o porto de Jope (Jafa)?
— Amanhã, à noitinha.
— Pois bem; espero que vocês não se oponham aos meus planos, e tão logo alcancemos o porto, levarei Jeziel num bote até as margens, pretextando o ensejo de exercício muscular, que preciso recomeçar. Aí, então, lhe daremos liberdade. É um feito que se me impõe, em obediência aos meus princípios.
— Mas, senhor... — obtemperou o comandante indeciso.
— Não aceito quaisquer restrições, mesmo porque Licínio Minucio é um velho camarada de meu pai.
E continuou, depois de refletir um momento:
— Não ias atirar o rapaz ao fundo do mar?
— Sim.
— Pois fase constar nos teus apontamentos que o escravo Jeziel, atacado de mal desconhecido, contraído em Cefalônia, foi sepultado no mar, antes que a peste contagiasse os tripulantes e passageiros. Para que o rapaz não se comprometa, instruí-lo-ei a respeito, dando-lhe umas tantas ordens terminantes. Além disso, noto-o bastante enfraquecido para resistir com êxito às crises culminantes da moléstia ainda em começo. Quem poderá garantir que ele resistirá? Quem sabe morrerá ao abandono, no segundo minuto de liberdade? O comandante e o feitor trocaram um olhar inteligente, de implícito acordo mútuo.
Depois de longa pausa, Sérvio concordou, dando-se por vencido: – Está bem, seja.
O moço patrício estendeu a mão aos dois e murmurou:
— Por este obséquio ao meu dever de consciência, poderão sempre dispor em mim de um amigo.
Daí a instantes, Sérgio acercou-se do jovem, semiadormecido junto do seu camarote e já tomado da febre em começo de explosão, dirigindo-lhe a palavra com delicadeza e bondade:
— Jeziel, desejarias voltar à liberdade?
— Oh! senhor, exclamou o jovem reanimando o organismo com um raio de esperança.
— Quero compensar a dedicação que me dispensaste nos longos dias da minha enfermidade.
— Sou vosso escravo, senhor. Nada me deveis.
Ambos falavam o grego e, refletindo subitamente na situação de futuro, o patrício interrogou:
— Sabes o idioma comum da Palestina?
— Sou filho de israelitas, que me ensinaram a língua materna nos mais verdes anos.
— Então, não te será difícil recomeçar a vida nessa província.
E medindo as palavras, como se temesse alguma surpresa contrária aos seus projetos, acentuou:
— Jeziel, não ignoras que te encontras enfermo, talvez tão gravemente quanto eu, há alguns dias. O comandante, atento à possibilidade de um contágio geral, dada a presença de numerosos homens a bordo, pretendia lançar-te ao mar; contudo, amanhã de tarde chegaremos a Jope e hei de valer-me dessa circunstância para devolver-te à vida livre. Não desconheces, todavia, que, assim procedendo, estou a infringir certas determinações importantes que regem os interesses de meus compatriotas, e é justo pedir-te sigilo do meu feito.
— Sim, senhor — respondeu o rapaz extremamente abatido, tentando com dificuldade coordenar as ideias.
— Sei que dentro em pouco a enfermidade assumirá graves proporções, prosseguiu o benfeitor. Dar-te-ei a liberdade, mas só o teu Deus poderá conceder-te a vida. Entretanto, caso te restabeleças, deverás ser um novo homem, com um nome diferente. Não desejo ser inculpado de traidor dos meus próprios amigos e devo contar com a tua cooperação.
— Obedecer-vos-ei em tudo, senhor.
Sérgio lançou-lhe um olhar generoso e terminou:
— Tomarei todas as providências. Dar-te-ei algum dinheiro para atenderes as primeiras necessidades e vestirás uma de minhas velhas túnicas; mas, tão logo seja possível, vai-te de Jope para o interior da província. O porto está sempre cheio de marinheiros romanos, curiosos e maledicentes.
O enfermo fez um gesto de agradecimento, enquanto Sérgio se retirava para atender ao chamado de alguns amigos.
No dia imediato, à hora esperada, o casario palestinense estava à vista. E quando luziam os primeiros astros da noite, pequeno batel aproximava-se de local silencioso das margens, tripulado por dois homens cujos vultos se perdiam na sombra. Derradeiras palavras de bom conselho e despedida, e o moço hebreu osculou, comovidamente, a destra do benfeitor, que voltou à galera apressado, de consciência tranquila.
Mal não dera os primeiros passos, Jeziel sentou-se premido pelas dores gerais que lhe tomavam todo o corpo e pelo abatimento natural, consequente à febre que o consumia. Ideias confusas dançavam-lhe no cérebro. Queria pensar na ventura da libertação; desejava fixar a imagem da irmã, que haveria de procurar no primeiro ensejo; mas estranho torpor infirmava-lhe as faculdades, acarretando-lhe sonolência invencível. Olhou, indiferente, as estrelas que povoavam a noite refrescada pelas brisas marinhas. Reparou que havia movimento nas casas próximas, mas deixou-se, ficar inerte no matagal a que se recolhera, junto da praia. Pesadelos estranhos dominaram-lhe o repouso físico, enquanto o vento lhe acariciava a fronte febril.
De madrugada, acordou ao contacto de mãos desconhecidas, que lhe revistavam atrevidamente os bolsos da túnica.
Abrindo os olhos, estremunhado, notou que os primeiros clarões da alvorada listravam os horizontes. Um homem de fisionomia sagaz inclinava-se para ele, procurando alguma coisa, com ansiedade que o moço hebreu adivinhou de pronto, convencido de haver topado um desses malfeitores comuns, ávidos da bolsa alheia. Estremeceu e fez um movimento involuntário, observando que o assaltante inesperado alçara a mão direita, empunhando um instrumento, na iminência de exterminar-lhe a vida.
— Não me mates, amigo — balbuciou com voz trêmula.
A essas palavras, ditas comovedoramente, o meliante susteve o golpe homicida.
— Dar-vos-ei todo o dinheiro que possuo — rematou o rapaz com tristeza.
E, vasculhando a algibeira em que guardara o escasso dinheiro que lhe dera o patrício, tudo entregou ao desconhecido, cujos olhos fulguraram de cobiça e prazer. Num relance, aquela fisionomia contrafeita transformava-se no semblante risonho de quem deseja aliviar e socorrer.
— Oh! sois excessivamente generoso! — murmurara, apossando-se da bolsa recheada.
— O dinheiro é sempre bom — disse Jeziel — quando com ele podemos adquirir a simpatia ou a misericórdia dos homens.
O interlocutor fingiu não perceber o alcance filosófico daquelas palavras e asseverou:
- Vossa bondade, entretanto, dispensa o concurso de quaisquer elementos estranhos para a conquista de bons amigos. Eu, por exemplo, dirigia-me agora para o meu trabalho no porto, mas experimentei tanta simpatia pela vossa situação que aqui estou para quanto vos preste.
— Vosso nome?
— Irineu de Crotona, para vos servir — respondeu o interpelado, visivelmente satisfeito com o dinheiro que lhe enchia o bolso.
— Meu amigo — exclamou o rapaz extremamente enfraquecido —, estou enfermo e não conheço esta cidade, de modo a tomar qualquer resolução.
Podeis indicar-me algum albergue ou alguém que me possa prestar a caridade de um asilo?
Irineu esboçou uma fácies de fingida piedade e respondeu:
— Pesa-me nada ter para colocar à disposição de vossas necessidades; e também não sei onde possa existir um abrigo adequado para receber-vos, como se faz preciso. A verdade é que, para a prática do mal, todos estão prontos, mas para fazer o bem...
Depois, concentrando-se por momentos, acrescentou:
— Ah! Agora me lembro!... Conheço umas pessoas que vos podem auxiliar.
São os homens do “Caminho”. (Primitiva designação do Cristianismo. - Nota de Emmanuel.)
Mais algumas palavras e Irineu prontificou-se a conduzi-lo ao conhecido mais próximo, amparando-lhe o corpo enfermo e vacilante... Continua
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