Corações flagelados II

A decisão inesperada causou intensa comoção ao velho israelita, a cuja sensibilidade aquelas palavras levaram um efeito de morte. Nem saberia definir a angustiosa surpresa. Não confiara na Justiça e não estava à procura de sua ação reparadora? Queria gritar o seu ódio, manifestar suas pungentes desilusões; mas a língua estava como que petrificada na boca retraída e trêmula. Após um minuto de profunda ansiedade, fixou no alto a figura detestada do antigo patrício, que lhe causava, agora, a derradeira ruína, e, envolvendo-o na vibração colérica da alma revoltada e sofredora, encontrou energias para dizer:
— Ó ilustríssimo procurador, onde está a equidade das vossas sentenças?
Venho até aqui implorando a intervenção da Justiça e me retribuís a confiança com mais uma extorsão que me aniquilará a existência? No passado, sofri a desapropriação descabida de todos os meus bens territoriais, conservando com enormes sacrifícios a chácara humilde, onde pretendo esperar a morte!…
Será crível que vós, dono de opulentos latifúndios, não sintais remorso em subtrair ao mísero velho a derradeira côdea de pão?
O orgulhoso romano, sem um gesto que denotasse a mais leve emoção, retrucou secamente:
— Ponha-se na rua; e que ninguém discuta as decisões imperiais!
— Não discutir? – clamou Jochedeb já desvairado.
— Não poderei altear a voz amaldiçoando a memória dos criminosos romanos que me espoliaram? Onde colocareis vossas mãos, envenenadas com o sangue das vítimas e as lágrimas das viúvas e dos órfãos esbulhados, quando soar a hora do julgamento no Tribunal de Deus?
Mas, recordando subitamente o lar povoado pela ternura dos filhos amorosos, modificou a atitude mental, sensibilizado nas fibras recônditas do ser. Prostrando-se, de joelhos, em convulsivo pranto, exclamou comovedoramente:
— Tende piedade de mim, Ilustríssimo! Poupai-me a vivenda modesta, onde, acima de tudo, sou pai. Meus filhos esperam-me com o beijo da sua afeição sincera e desvelada!
E acrescentava afogado em lágrimas:
— Tenho dois filhos que são duas esperanças do coração. Poupai-me, por Deus! Prometo conformar-me com esse pouco, nunca mais reclamarei!
Entretanto, o legado impassível respondeu com frieza, dirigindo-se a um soldado:
— Espártaco, para que esse judeu impertinente se afaste do recinto, com as suas lamentações, dez bastonadas.
O preposto formalizou-se para cumprir imediatamente a ordem, mas o juiz implacável acrescentou:
— Tenha cuidado em não lhe cortar o rosto, para que o sangue não escandalize os transeuntes.
De joelhos, o pobre Jochedeb suportou o castigo e, terminada a prova, levantou-se, cambaleante, alcançando a praça ensolarada, sob as risotas disfarçadas de quantos haviam presenciado o ignóbil espetáculo. Nunca, em sua vida, experimentara tão intenso desespero como naquela hora. Quereria chorar e tinha os olhos frios e secos, lamentar a desdita imensa e os lábios estavam petrificados de revolta e dor. Parecia um sonâmbulo vagando inconsciente entre as viaturas e os transeuntes que se aglomeravam na praça enorme.
Contemplou com extrema e íntima repugnância o templo de Vênus.
Desejava ter voz estentórica e poderosa para humilhar todos os circunstantes com a palavra da condenação.
Observando as cortesãs coroadas que o encontravam, as armaduras dos tribunos romanos e a ociosa atitude dos afortunados que passavam despercebidos do seu martírio, molemente recostados nas liteiras vistosas da época, sentiu-se como que mergulhado num dos pântanos mais odiosos do mundo, entre os pecados que os profetas da sua raça jamais se cansaram de profligar, com todas as veras do coração consagrado ao Todo Poderoso.
Corinto, a seus olhos, era uma nova edição da Babilônia condenada e desprezível.
De súbito, apesar dos tormentos que lhe perturbavam a alma exausta, recordou novamente os filhos queridos, sentindo, por antecipação, a profunda amargura que a notícia da sentença lhes causaria ao espírito sensível e afetuoso. A lembrança da ternura de Jeziel enternecia-lhe o peito galvanizado no sofrimento. Teve a impressão de vê-lo ainda a seus pés, suplicando desistisse de qualquer reclamação e, aos ouvidos, ecoava-lhe agora, com mais intensidade, a exortação dos Escritos: “Filho meu, não rejeites a repreensão do Senhor!”
Mas, ao mesmo tempo, ideias destruidoras invadiam-lhe o cérebro cansado e dolorido. A Lei sagrada estava cheia de símbolos de justiça. E, para ele, impunha-se como dever soberano providenciar a reparação que lhe parecia conveniente. Agora, em desolação suprema, regressava ao lar, despojado de tudo que possuía de mais humilde e mais simples, e já no fim da vida! Como lhe viria o pão de amanhã? Sem elemento s de trabalho e sem teto, via-se constrangido a peregrinar em situação parasitária, ao lado da juventude dos filhos.
Inenarrável martírio moral sufocava-lhe o coração.
Dominado por acerbos pensamentos, aproximou-se do sítio bem-amado, onde edificara o ninho familiar. O sol quente da tarde fazia mais doce a sombra das árvores, de ramarias verdes e abundantes. Jochedeb avançou no terreno, que era propriedade sua, e, angustiado pela perspectiva de abandoná-lo para sempre, deu ensejo a que terríveis tentações lhe desvairassem a mente. As terras de Licínio não se limitavam com a chácara? Afastando-se do caminho que o levava ao ambiente doméstico, penetrou nos matagais próximos e, depois de alguns passos, demorou o olhar na linha de demarcação, entre ele e o seu verdugo. As pastagens do outro lado não pareciam bem cuidadas. A falta de melhor distribuição da água comum, certa secura geral fazia-se sentir asperamente. Apenas algumas árvores, isoladas, amenizavam a paisagem com a sua sombra, refrescando a região abandonada, entre espinheiros e parasitas que sufocavam as ervas úteis.
Obcecado pela ideia de reparação e vingança, o velho israelita deliberou incendiar as pastagens próximas. Não consultaria os filhos, que, possivelmente, dobrariam o seu espírito, inclinados à tolerância e à benignidade. Jochedeb recuou alguns passos e, recorrendo ao material de serviço ali guardado nas proximidades, fez o fogo com que acendeu um feixe de ervas ressequidas. O rastilho comunicou-se, célere, e em rápidos minutos o incêndio das pastagens propagava-se com a velocidade do relâmpago.
Terminada a tarefa, sob a penosa impressão dos ossos doloridos, regressou cambaleante ao lar, onde Abigail o inquiriu, inutilmente, dos motivos de tão profundo abatimento. Jochedeb deitou-se à espera do filho; mas, dentro em pouco, um ruído ensurdecedor ecoava-lhe aos ouvidos. Não longe da chácara, o fogo destruía árvores amigas e frondes robustas, reduzindo pastos verdes a punhados de cinzas. Grande área ardia, irremediavelmente, escutando-se os gritos lamentosos das aves que fugiam espavoridas.
Pequenas benfeitorias do procurador, inclusive algumas termas pitorescas de sua predileção, construídas entre as árvores, ardiam igualmente, convertendo-se em negros escombros. Aqui e acolá, o alarido dos trabalhadores do campo, em espantosa correria por salvar da destruição a residência campestre do poderoso patrício, ou procurando insular a serpente de fogo que lambia a terra em todas as direções, aproximando-se dos pomares vizinhos.
Algumas horas de ansiedade espalharam as mais angustiosas expectativas; mas, ao fim da tarde, o incêndio fora dominado, depois de ingentes esforços.
Debalde o velho judeu enviara mensagens à procura do filho, dentro dos círculos de serviço da sua pequena herdade. Desejava falar a Jeziel das suas necessidades e da situação tormentosa em que se encontravam novamente, ansioso por descansar a mente atormentada nas palavras dulcificantes da sua ternura filial. Entretanto, somente à noite, com as vestes chamuscadas e as mãos ligeiramente feridas, o jovem entrou em casa, deixando entrever no cansaço da fisionomia a laboriosa tarefa a que se impusera. Abigail não se surpreendeu com o seu aspecto, entendendo que o irmão não deixara de auxiliar os companheiros de trabalho da vizinhança, nas ocorrências da tarde, preparando-lhe aos pés cansados e às mãos doloridas o banho de água aromatizada; mas, tão logo o viu e notou as mãos feridas, foi com espanto que Jochedeb exclamou:
— Onde estiveste, filho meu?
Jeziel falou da cooperação espontânea no salvamento da propriedade vizinha e, à medida que relatava os tristes sucessos do dia, o pai deixava trair a própria angústia nas fácies sombrias, em que se estereotipavam os traços rudes da revolta que lhe devorava o coração. Ao cabo de alguns minutos, erguendo a voz desalentada, falou com profunda emoção:
— Meus filhos, custa dizer-lhes, mas fomos espoliados na derradeira migalha que nos resta. Reprovando minha reclamação sincera e justa, o legado de César determinou o sequestro do nosso próprio lar. A iníqua sentença é o passaporte da nossa ruína total. Pelas suas disposições, somos obrigados a abandonar a chácara em três dias!
E, elevando os olhos para o Alto, como a insistir junto à divina misericórdia, exclamava com o olhar embaciado de lágrimas:
— Tudo perdido! Por que fui assim desamparado, meu Deus? Onde a liberdade do vosso povo fiel, se, em toda parte, nos exterminam e perseguem sem piedade?
Grossas lágrimas escorriam-lhe pelas faces, enquanto com a voz trêmula narrava aos filhos os pesados tormentos de que fora vítima. Abigail osculava-lhe as mãos enternecidamente, e Jeziel, sem qualquer alusão à rebeldia paterna, abraçava-o depois da sua dolorosa exposição, consolando-o com amor: Meu pai, por que vos atemorizardes? Deus nunca é avaro de misericórdia.
Os Escritos Sagrados nos ensinam que Ele, antes de tudo, é o Pai desvelado de todos os vencidos da Terra! Essas derrotas chegam e passam. Tendes os meus braços e o cuidado afetuoso de Abigail. Por que lastimar, se amanhã mesmo, com o socorro divino, poderemos sair desta casa, para buscar outra em qualquer parte, a fim de nos consagrarmos ao trabalho honesto? Deus não guiou o nosso povo expulso do lar, através do oceano e do deserto? Por que negaria, então, seu apoio a nós que tanto o amamos neste mundo? Ele é a nossa bússola e a nossa casa.
Os olhos de Jeziel fixavam o velho genitor numa atitude de súplica profundamente cariciosa. Suas palavras revelavam o mais doce enternecimento no coração. Jochedeb não era insensível àquelas formosas manifestações de carinho; mas, ante a revelação de tanta confiança no poder divino, sentia-se envergonhado, depois do ato extremo que praticara.
Descansando na ternura que a presença dos filhos lhe oferecia ao espírito desolado, dava curso às lágrimas dolorosas que lhe fluíam da alma pungida por acerbas desilusões. Entretanto, Jeziel continuava:
— Não choreis meu pai, contai conosco! Amanhã, eu próprio providenciarei a nossa retirada, como se faz preciso.
Foi nesse instante que a voz paternal se ergueu soturna e acentuou:
— Mas não é tudo, meu filho!
E, pausadamente, Jochedeb pintou o quadro de suas angústias reprimidas, da sua cólera justa, que culminara com a decisão de atear fogo à propriedade do verdugo execrando. Os filhos ouviam-no espantados, entremostrando a dor sincera que a conduta paterna lhes causava. Depois de um olhar de infinito amor e funda preocupação, o jovem abraçou-o, murmurando:
— Meu pai, meu pai, por que levantastes o braço vingador? Por que não esperastes a ação da justiça divina?
Embora perturbado pelas afetuosas admoestações, o interpelado esclarecia:
— Está escrito nos mandamentos: “não furtarás”; e, fazendo o que fiz, procurei retificar um desvio da Lei, porquanto fomos espoliados de tudo que constituía o nosso humilde patrimônio.
— Acima de todas as determinações, porém, meu pai, acentuou Jeziel sem irritação, Deus mandou gravar o ensinamento do amor, recomendando que o amássemos sobre todas as coisas, de todo o coração e todo o entendimento.
— Amo o Altíssimo, mas não posso amar o romano cruel, suspirou Jochedeb, amargurado.
— Mas, como revelarmos dedicação ao Todo Poderoso que está nos Céus, continuou o jovem compadecido, destruindo suas obras? No caso do incêndio, não temos só a considerar o nosso testemunho de desconfiança para com a justiça de Deus, mas os campos que nos fornecem agasalho e pão sofreram com a nossa atitude e os dois melhores servos de Licínio Minucio, Caio e Rufílio, foram feridos de morte quando tentavam salvar as termas prediletas do amo, numa luta inútil para livrá-las do fogo que as destruiu; ambos, apesar de escravos, têm sido nossos melhores amigos. As árvores frutíferas e os canteiros de legumes de nossa propriedade devem quase tudo a eles, não só no concernente às sementes vindas de Roma, mas também no esforço e cooperação com o meu trabalho. Não seria justo honrarmos sua amizade, dedicada e diligente, evitando-lhes a punição e os sofrimentos injustos?
Jochedeb pareceu meditar profundamente nas observações filiais, ditas em tom carinhoso. Enquanto Abigail chorava em silêncio, o moço acrescentava:
— Nós que estávamos em paz, nas derrotas do mundo, porque trazíamos a consciência pura, precisamos resolver, agora, em face do que nos advirá em represálias. Quando dava o meu esforço contra o fogo, observei que muitos afeiçoados de Minucio me contemplavam com indisfarçável desconfiança. A esta hora, já ele terá regressado dos serviços da Corte Provincial. Precisamos encomendar-nos ao amor e à complacência de Deus, pois não ignoramos os tormentos reservados pelos romanos a todos os que lhes desrespeitam as determinações.
Penosa nuvem de tristeza mergulhara os três em sombrias preocupações.
No velho observava-se uma ansiedade terrível, que se misturava à dor do remorso pungente e, em ambos os jovens, notava-se, no olhar, inexcedível amargura, angustiosa e intraduzível.
Jeziel tomou de sobre a mesa os velhos pergaminhos sagrados e disse à irmã, com triste acento:
— Abigail, vamos recitar o Salmo que nos foi ensinado pela mamãe para as horas difíceis.
Ambos se ajoelharam e suas vozes comovidas, como a de pássaros torturados, cantavam baixinho uma das formosas orações de David, que haviam aprendido no colo maternal:
O Senhor é o meu Pastor,
Nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
Guia-me mansamente
A águas mui tranquilas,
Refrigera minha alma,
Guia-me nas veredas da justiça
Por amor do seu nome.
Ainda que eu andasse
Pelo vale das sombras da morte,
Não temeria mal algum,
Porque Tu estás comigo…
A Tua vara e o Teu cajado me consolam.
Prepara-me o banquete do amor
Na presença dos meus inimigos,
Unges de perfume a minha cabeça,
O meu cálice transborda de júbilo!…
Certamente,
A bondade e a misericórdia
Seguirão todos os dias de minha vida
E habitarei na Casa do Senhor
Por longos dias…
(Salmo 23, Nota de Emmanuel.)

O velho Jochedeb acompanhava o cântico dolorido, sentindo-se opresso de amargosas emoções. Começava a compreender que todos os sofrimentos enviados por Deus são proveitosos e justos, e que todos os males procurados pelas mãos do homem trazem, invariavelmente, torturas infernais à consciência invigilante O cântico abafado dos filhos enchia-lhe o coração de tristezas pungentes. Lembrava, agora, a companheira querida que Deus havia chamado à vida espiritual. Quantas vezes, acalentava-lhe ela o espírito atormentado com aqueles versos inesquecíveis do profeta? Bastava que sua observação amiga e fiel se fizesse ouvir para que o sentido da obediência e da justiça lhe falasse mais alto ao coração.
Ao ritmo da harmonia cariciosa e triste, que apresentava acento singular na voz dos filhos idolatrados, Jochedeb chorou longamente. Da pequenina janela aberta no aposento humilde, seus olhos buscaram ansiosamente o céu azul, que se enchera de sombras tranquilas. A noite abraçara a Natureza e, muito longe, no alto, começavam a luzir as primeiras estrelas.
Identificando-se com as sugestões grandiosas do firmamento, experimentou intensas comoções na alma ansiosa. Profundo enternecimento fê-lo levantar-se e, sedento de revelar aos filhinhos quanto os amava e quanto deles esperava naquela hora culminante da sua vida, inclinou-se de braços abertos, com significativa expressão de carinho e, quando as últimas notas se desprendiam do cântico dos jovens enlaçados e genuflexos, abraçou-os em pranto, murmurando:
— Meus filhos! Meus queridos filhos!...
Mas, nesse instante abriu-se a porta e um pequenino servidor das vizinhanças anunciou com grande assombro a lhe transparecer nos olhos:
—Senhores, o soldado Zenas e mais alguns companheiros chamam-vos à porta.
O velho colou a destra ao peito opresso, enquanto Jeziel parecia meditar um instante; todavia, revelando a firmeza do seu espírito resoluto, o jovem exclamou:
— Deus nos protegerá.
Daí a instantes, o mensageiro que chefiava a pequena escolta leu o mandado de prisão de toda a família. A ordem era categórica e irrevogável. Os acusados deveriam ser recolhidos imediatamente ao cárcere, a fim de que se lhes esclarecesse a situação no dia seguinte.
Abraçado aos dois filhos, o pobre israelita marchou à frente da escolta, que os observava sem piedade.
Jochedeb contemplou os canteiros de flores e as árvores bem-amadas junto da casinha singela onde tecera todos os sonhos e esperanças da sua vida. Singular emoção dominou-lhe o espírito cansado. Uma torrente de lágrimas fluía-lhe dos olhos e, transpondo a cancela florida, falou em voz alta, olhando o céu claro, agora recamado pelos astros da noite:
— Senhor! compadece-te do nosso amargurado destino!
Jeziel apertou-lhe docemente a mão encarquilhada, como a lhe pedir resignação e calma, e o grupo marchou silenciosamente à luz das estrelas.

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