A primeira Sessão Espírita

Chico Xavier psicografandoDe princípios de 1920 a 1927, Chico não mais conseguiu avistar-se pessoalmente com o Espírito de Dona Maria João de Deus.
Integrado na comunidade católica, obedecia às obrigações que lhe eram indicadas pela Igreja.
Confessava-se, comungava, comparecia pontualmente à missa e acompanhava as procissões.
Terminara o curso primário no Grupo Escolar São José, de Pedro Leopoldo em 1923, levantando-se às seis da manhã para começar às sete as tarefas escolares e entrando para o serviço da fábrica às três da tarde para sair às onze da noite.
O trabalho, porém, era exaustivo e, em 1925 deixou a fábrica, empregando-se na venda do Sr. José Felizardo Sobrinho, aonde o trabalho ia das seis e meia da manhã às oito da noite, com o salário de treze cruzeiros por mês.
Entretanto, continuavam as perturbações noturnas.
Depois de dormir, caía em transes surpreendentes.
Perambulava pela casa, falava em voz alta, dava notícias de pessoas que sofriam no Além, mantinha longas conversações, cujo fio era impenetrável aos familiares aflitos.
Em 1927, porém, eis que a sua irmã Dona Maria da Conceição Xavier, mãe de família, cai doente.
Era um doloroso processo de obsessão.
Tratada carinhosamente pelo confrade Sr. José Hermínio Perácio, que na ocasião residia em Belo Horizonte, a jovem curou-se.
Foi assim que se realizou a primeira sessão espírita no lar da família Xavier, em Pedro Leopoldo.
Perácio, na direção, pronunciava vibrante prece.
Na mesa havia dois livros.
Eram eles o Evangelho Segundo o Espiritismo e o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.
O Espírito de Dona Maria João de Deus comparece e grafa longa mensagem aos filhos presentes, através da médium D. Carmem Pena Perácio, devotada esposa do companheiro a que nos referimos.
Reporta-se a cada filho, de maneira particular.
E, dirigindo-se ao Chico, comove-o, escrevendo:
— Chico, meu filho, eis que nos achamos mais juntos, novamente. Os livros à nossa frente são dois tesouros de luz. Estude-os, cumpra os seus deveres e, em breve, a Bondade Divina nos permitirá mostrar a você os seus novos caminhos.
E assim realmente aconteceu.

Ramiro Gama

Temporária separação

Espírito da Mãe aparece ao ChicoContinuando os desequilíbrios do Chico, em janeiro de 1920, João Cândido Xavier, seu pai, pediu ao padre que fosse mais exigente com a criança, no confessionário.
O sacerdote concordou com a sugestão…
Quando o vigário lhe ouvia as referências sobre as rápidas entrevistas com Dona Maria João de Deus, desencarnada desde 1915, falou-lhe francamente:
— Não, meu filho. Isso não pode ser. Ninguém volta a conversar depois da morte. O demônio procura perturbar-lhe o caminho…
— Mas, padre, foi minha mãe quem veio…
— Foi o demônio.
Severamente repreendido pelo vigário, o menino calou-se, chorando muito.
O Sr. João Cândido, católico, de Santa Luzia do Rio das Velhas, deu razão ao padre.
Aquilo só podia ser o demônio.
Chico refugiou-se no carinho da madrasta, alma compreensiva e boa.
E Dona Cidália lhe disse:
— Você não deve chorar, meu filho. Ninguém pode dizer que você esteja perseguido pelo demônio. Se for realmente sua mãezinha quem veio conversar com você, naturalmente isso acontece porque Deus permite. E Deus estando no assunto ajudará para que isso tudo fique esclarecido.
À noite desse dia, Chico sonhou que reencontrava a progenitora.
Dona Maria abraçou-o e recomendou:
— Repito que você deve obedecer a seu pai e ao vigário. Não brigue por minha causa. Por algum tempo você não mais me verá, contudo, se Jesus permitir, mais tarde estaremos mais juntos.
Não perca a paciência e esperemos o tempo.
Chico acorda em pranto, enxugando os olhos, resignado.
E, por sete anos consecutivos, não mais teve qualquer contacto pessoal com a mãezinha, para somente receber-lhe as mensagens psicografadas em 1927 e revê-la, de novo, pela vidência mais clara e mais segura, em 1931, quando mais familiarizado com o serviço mediúnico, ao qual se entregara de coração.

Ramiro Gama

A lição da obediência

De novo reunido à família, Chico Xavier, fosse por que tivesse retornado à tranquilidade ou por que houvesse ingressado na escola, não mais viu o Espírito da mãezinha desencarnada.
Entretanto, passou a ter sonhos.
À noite, no repouso agitado, levantava-se do leito, conversava com interlocutores invisíveis e, muitas vezes, despertava pela manhã, trazendo notícias de parentes mortos, contando peripécias ou narrando sucesso que ninguém podia compreender.

Padre Sebastião ScarzelliJoão Cândido Xavier, a conselho da segunda esposa, que se interessava maternalmente pela criança, conduziu Chico ao padre Sebastião Scarzelli, antigo vigário da cidade de Matozinhos, nas vizinhanças de Pedro Leopoldo, que depois de ouvir o menino, por algumas vezes, em confissão, aconselhou João Cândido a impedir que o rapazinho lesse jornais, livros ou revistas.
Chico devia estar impressionado com más leituras – dizia o sacerdote – aqueles sonhos não eram outra coisa senão perturbações, porque as almas não voltam do outro mundo…
Intrigado por ver que ninguém dava crédito ao que via e escutava, em sonhos, certa noite, rogou, em lágrimas, alguma explicação da progenitora de quem não se esquecia.
Dona Maria João de Deus apareceu-lhe no sonho, calma e bondosa, e o Chico deu-lhe a conhecer as dificuldades em que vivia.
Ninguém acreditava nele – clamou. Mas o conselho maternal veio logo:
— Você não deve exasperar-se. Sem humildade, é impossível cumprir uma boa tarefa.
Mas, mamãe, ninguém acredita em mim…
— Que tem isso, meu filho?
— Mas eu digo a verdade.
— A verdade é de Deus, e Deus sabe o que faz, – disse a generosa entidade.
Chico, porém, choramingou:
— Não sei se a senhora sabe, papai e o padre estão contra mim… Dizem que estou perturbado…
Dona Maria abraçou-o e disse:
— Modifique seus pensamentos. Você é ainda uma criança e uma criança indisciplinada cresce com a desconfiança e com a antipatia dos outros.
Não falte ao respeito para com seu pai e para com o padre. Eles são mais velhos e nos desejam todo o bem. Aprenda a calar-se. Quando você lembrar alguma lição ou alguma experiência recebidas em sonho, fique em silêncio. Se for permitido por Jesus, então, mais tarde virá o tempo em que você poderá falar. Por enquanto, você precisa aprender a obediência para que Deus, um dia, conceda ao seu caminho a confiança dos outros.
Desde essa noite, Chico calou-se e Dona Maria João de Deus passou algum tempo sem fazer-se visível.

Ramiro Gama

Horta educativa

Horta educativaQuando Dona Cidália reuniu os filhos menores de Dona Maria João de Deus, observou que eles precisavam do grupo escolar.
O Sr. Cândido Xavier, pai da numerosa família, foi consultado.
Entretanto, a situação era difícil.
O ano de 1918, época a que nos referimos, marcara a passagem da gripe espanhola.
Tudo era crise, embaraço.
E o salário, no fim de mês, dava escassamente para o necessário.
Não havia dinheiro para cadernos, lápis e livros.
A madrasta, alma generosa e amiga, chamou o enteado e lembrou:
— Chico, vocês precisam ir à escola. E como não há recurso para isso, vamos plantar uma horta. Adubaremos a terra, plantarei os legumes e você fará a venda na rua... Com o resultado, espero que tudo se arranje.
— A senhora pode contar comigo, – prometeu o menino.
A horta foi plantada.
Em algumas semanas, Chico já podia sair à rua com o cesto de verduras.
— Olhe a couve, a alface! Almeirão e repolho!…
E o povo comprava.
Cada molho de couve ou cada repolho valia um tostão.
Dona Cidália guardava o produto financeiro num cofre.
Quando abriram o cofre, Dona Cidália, feliz falou para o enteado:
— Você está vendo o valor do serviço? Agora vocês já podem frequentar as aulas do grupo.
E foi assim que, em janeiro de 1919, Chico Xavier começou o A, B, C.

A história da chave

Com a saída do chefe da casa e dos filhos mais velhos para o trabalho e com a ausência das crianças na escola, Dona Cidália era obrigada, por vezes, a deixar a casa, a sós, porque devia buscar lenha, à distância.
Aí começou uma dificuldade.
Certa vizinha, vendo a casa fechada, ia ao quintal e colhia as verduras.
A madrasta bondosa preocupou-se.
Sem verduras não haveria dinheiro para o serviço escolar.
Dona Cidália observou... Observou...
E ficou sabendo que lhes subtraía os recursos da horta; entretanto, repugnava-lhe a ideia de ofender uma pessoa amiga por causa de repolhos e alfaces.
Chamou, então, o Chico e lembrou.
— Meu filho, você diz que, às vezes, encontra o Espírito de Dona Maria. Peça-lhe um conselho. Nossa horta está desaparecendo e, sem ela, como sustentar o serviço da escola?
Chico procurou o quintal à tardinha e rezou e, como das outras vezes, a mãezinha apareceu.
O menino contou-lhe o que se passava e pediu-lhe socorro.
D. Maria então lhe disse:
— Você diga à Cidália que realmente não devemos brigar com os vizinhos que são sempre pessoas de quem necessitamos. Será então aconselhável que ela dê a chave da casa à amiga que vem talando a horta, sempre que precise ausentar-se, porque, desse modo a vizinha, em vez de prejudicar os legumes, nos ajudará a tomar conta deles.
Dona Cidália achou o conselho excelente e cumpriu a determinação.
Foi assim que a vizinha não mais tocou nas hortaliças, porque passou a responsabilizar-se pela casa inteira.

Ramiro Gama

O valor da oração

Foto:CHICO E SUA MÃE

Chico e sua mãeA madrinha do Chico, por vezes, passava tempos entregue a obsessão.
Assim é que, nessas fases, a exasperação dela era mais forte.
Em algumas ocasiões, por isso, condenava o menino a vários dias de fome.
Certa feita, já fazia três dias que a criança permanecia em completo jejum.
À tarde, na hora da prece, encontrou a mãezinha desencarnada que lhe perguntou o motivo da tristeza com a qual se apresentava.
— Então, a senhora não sabe – explicou o Chico – tenho passado muita fome.
— Ora, você está reclamando muito, meu filho! – disse Dona Maria João de Deus – menino guloso tem sempre indigestão.
— Mas hoje bem que eu queria comer alguma coisa…
A mãezinha abraçou-o e recomendou:
— Continue na oração e espere um pouco.
O menino ficou repetindo as palavras do Pai Nosso e daí a instantes um grande cão da rua penetrou o quintal.
Aproximou-se dele e deixou cair da bocarra um objeto escuro.
Era um jatobá saboroso...
Chico recolheu alegre, o pesado fruto, ao mesmo tempo em que reviu a mãezinha ao seu lado, acrescentando.
— Misture o jatobá com água e você terá um bom alimento.
E, despedindo-se da criança, acentuou:
— Como você observa meu filho, quando oramos com fé viva até um cão pode nos ajudar, em nome de Jesus.

A Verdadeira propriedade

O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza durante sua permanência na terra; mas, desde que é forçado a deixá-los, é claro que só tem o usufruto, e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste. Dele depende estar mais rico ao partir do que ao chegar neste mundo, porque a sua posição futura depende do que ele houver adquirido no bem.
Quando um homem parte para um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos de uso nesse país, e não se carrega de coisas que lhe seriam inúteis. Fazei, pois, o mesmo, em relação à vida futura, aprovisionando-vos de tudo o que nela vos poderá servir.
Ao viajante que chega a uma estalagem, se ele pode pagar, é dado um bom alojamento; ao que pode menos, é dado um pior; e o que nada tem, é deixado ao relento. Assim acontece com o homem, quando chega ao mundo dos Espíritos: sua posição depende de suas posses, com a diferença de que não pode pagar em ouro. Não se lhe perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: O que trazes? Não será computado o valor dos seus bens, nem dos seus títulos, mas serão contadas as suas virtudes, e nesse cálculo o operário talvez seja considerado mais rico do que o príncipe. Em vão alegará o homem que, antes de partir, pagou em ouro a sua entrada no céu, pois terá como resposta: as posições daqui não são compradas, mas ganhas pela prática do bem; com o dinheiro podes comprar terras, casas, palácios; mas aqui só valem as qualidades do coração. És rico dessas qualidades? Então, sejas bem-vindo, e teu é o primeiro lugar, onde todas as venturas te esperam. És pobre? Vai para o último, onde serás tratado na razão de teus posses.

Pascal - Genebra, 1860
O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI

Uma conversão

Revista Espírita, janeiro de 1858

Embora sob um outro ponto de vista, não será menor o interesse oferecido pela evocação seguinte.
Um senhor, que designaremos pelo nome de Georges, farmacêutico numa cidade do Sul, há muito havia perdido o pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O velho Georges aliava a uma instrução muito vasta todas as qualidades que marcam o homem de bem, posto professasse ideias materialistas. A este respeito o filho partilhava das mesmas ideias, se não ultrapassava as do pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O espiritismo não se adaptava a tais pensamentos. A leitura do Livro dos Espíritos, entretanto, provocou-lhe uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Dizia: “Se meu pai pudesse me responder, eu não duvidaria mais”. Foi, então, que se fez a evocação seguinte, na qual encontramos diversos ensinamentos:

1. Em nome de Deus, Todo Poderoso, Espírito de meu pai, eu lhe peço que se manifeste. O senhor está junto de mim?
—Sim.
2. Porque o senhor não se manifesta diretamente a mim, quando tanto nos amamos?
—Mais tarde.
2. Poderemos nos encontrar um dia?
—Sim, breve.
3. Amar-nos-emos com nesta vida?
—Mais.
4. Em que meio o senhor se acha?
—Sou feliz.
5. O senhor reencarnou ou está errante?
—Errante por pouco tempo.
6. Que sensação experimentou ao deixar o envoltório corporal?
—De perturbação.
7. Quanto tempo durou a perturbação?
—Pouco para mim, muito para você.
8. Pode avaliar a sua duração, de acordo com o nosso modo de contar?
—Dez anos para você, dez minutos para mim.
9. Mas eu não o perdi há tanto tempo. Não há somente quatro meses?
—Se você, como vivo, estivesse em meu lugar, teria sentido aquele tempo.
10. Crê, agora, em um Deus justo e bom?
—Sim.
11. Quando vivo na Terra também acreditava?
—Eu tinha a presciência mas não acreditava.
12. Deus é Todo Poderoso?
—Não subi até Ele, para avaliar o seu poder: só Ele conhece os limites de seu poder, porque só Ele é seu igual.
13. Ele se ocupa com os homens?
—Sim.
14. Seremos punidos ou recompensados conforme nossos atos?
—Se você fizer o mal, sofrerá.
15. Serei recompensado se fizer o bem?
—Avançará em seu caminho.
16. Estou no bom caminho?
—Faça o bem e verá.
17. Creio ser bom; mas seria melhor se um dia o pudesse encontrar, como recompensa.
—Que este pensamento o sustente e o encoraje.
18. Meu filho será como seu avô?
—Desenvolva suas virtudes e extirpe seus vícios.
19. Isto é tão maravilhoso que chego a não crer que nos comunicamos neste momento.
—De onde lhe vem a dúvida?
20. É que, partilhando de suas opiniões filosóficas, fui levado a atribuir tudo à matéria.
—Você vê de noite aquilo que vê de dia?
21. Meu pai, então eu me acho na noite?
—Sim.
22.Que é que o senhor vê de mais maravilhoso?
—Explique-se melhor.
23. Encontrou minha mãe, minha irmã e Ana, a boa Ana?
—Eu as revi.
24. O senhor volta a vê-las quando quiser?
—Sim.
25. É penoso ou agradável que me comunique com o senhor?
—É uma felicidade para mim, se eu lhe puder fazer o bem.
26. Voltando para casa, que poderia fazer para me comunicar com o senhor, já que lhe dá prazer? Serviria para que me conduzisse melhor e me ajudaria a educar os meus filhos?
—Cada vez que um movimento o levar ao bem eu ali estarei; inspirá-lo-ei.
27. Calo-me com receio de o importunar.
—Fale ainda, se quiser.
28. Já que o permite, farei mais algumas perguntas. De que afecção o senhor morreu?
—Minha prova havia chegado a termo.
29. O senhor contraiu o abscesso pulmonar que se manifestou?
—Pouco importa; o corpo nada é; o Espírito é tudo.
30. Qual a natureza da doença que me desperta, tão frequentemente, durante a noite?
—Sabê-lo-á mais tarde.
31. Considero minha afecção grave e queria ainda viver para os meus filhos.
—Ela não o é. O coração do homem é uma máquina de vida; deixe a Natureza agir.
32. Sob que forma o senhor aqui se acha?
—Sob a aparência de minha forma corpórea.
33. Encontra-se num determinado lugar?
—Sim; por detrás de Ermance (a médium).
34. Poderia tornar-se visível?
—Não vale a pena. Vocês teriam medo.
35. O senhor nos vê a todos aqui presentes?
—Sim.
36. Quer dizer alguma coisa a cada um de nós?
—Em que sentido me faz esta pergunta?
37. Do ponto de vista moral.
—De outra vez; por hoje basta.


Atualmente o sr. Georges não só deixou de ser materialista, mas é um dos adeptos mais fervorosos e mais dedicados do Espiritismo, o que faz duplamente feliz, pela confiança que agora tem no futuro e pelo prazer que experimenta em praticar o bem.
Esta evocação, inicialmente muito simples, não é menos notável em muitos aspectos. O caráter do velho Georges reflete-se nas respostas breves e sentenciosas, que estavam em seus hábitos: falava pouco, jamais dizia uma palavra inútil; mas já não é o céptico que fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, e retrata a unidade e o poder de Deus por estas palavras admiráveis:
“Só Ele é seu igual”.
Ele, que em vida tudo atribuía à matéria,, diz agora: “O corpo nada é; o Espírito é tudo”; e esta outra frase sublime: “Você vê de noite aquilo que vê de dia”? Para o observador atento, tudo tem um alcance; e é assim que, a cada passo, encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.

Allan Kardec

Provas Terrestres dos Homens em Missão

Cura de ArsJoão Maria Batista Vianney foi um sacerdote francês, canonizado pela Igreja Católica. É considerado o padroeiro dos sacerdotes. Também é conhecido como Santo Cura de Ars. (Wikipédia)
Nascimento: 8 de maio de 1786, Dardilly, França
Falecimento: 4 de agosto de 1859, Ars-sur-Formans, França
Filiação: Matthieu Vianney e Marie Beluze

Douay, 8 de março de 1867 – Médium: Sra. M…
É preciso, meus filhos, que o sangue depure a Terra; terrível luta ainda mais horrível pelo esplendor da civilização em cujo meio ela rebenta. Que, Senhor! Quando tudo se prepara para apertar os laços dos povos de um extremo a outro do mundo! Quando na aurora da fraternidade material se veem as linhas de demarcação de raças, costumes e linguagem tenderem para a unidade, chega a guerra com seu cortejo de ruínas, de incêndios, de profundas divisões, de ódios religiosos. Sim, tudo isto porque nada em nosso progresso foi segundo o Espírito de Deus; porque vossos laços não foram apertados nem pela bondade, nem pela lealdade, mas apenas pelo interesse; porque não é a verdadeira caridade que impõe silêncio aos ódios religiosos, mas a indiferença; porque as barreiras não foram diminuídas em vossas fronteiras pelo amor de todos, mas pelos cálculos mercantis; enfim, porque as vistas são humanas e instintivas, e não espirituais e caridosas; porque os governantes só buscam os seus proveitos, e cada um, entre os povos, faz outro tanto.
Sublime desinteresse de Jesus e de seus apóstolos, onde estás? - Ficais tristes, meus filhos, quando algumas vezes pensais na rude missão desses Espíritos sublimes, que vêm levantar a coragem da Humanidade e morrer na tarefa, depois de ter esvaziado o cálice amargo das ingratidões humanas. Gemeis por ver que o Senhor, que os enviou, parece abandoná-los no momento em que sua proteção parece mais necessária. Não vos falaram das provas que sofrem os Espíritos elevados no momento de transpor um degrau mais alto na iniciativa espiritual? Não vos disseram que cada grau da hierarquia celeste se compra pelo mérito, pelo devotamento, como entre vós, no exército, pelo sangue derramado e pelos serviços prestados? Pois bem! é o caso em que se encontram os Messias nesta terra de dores; são sustentados enquanto dura sua obra humanitária, enquanto trabalham pelo homem e para Deus, mas, quando só eles estão em jogo, quando sua prova se torna individual, o socorro visível se afasta, a luta se mostra áspera e rude quando o homem deve sofrê-la.
Eis a explicação desse aparente abandono, que vos aflige na vida dos missionários de todos os graus de vossa Humanidade. Não penseis que Deus abandone jamais a sua criatura por capricho ou impotência; não, mas no interesse de seu adiantamento ele a deixa às suas próprias forças, ao completo emprego de seu livre-arbítrio.

Cura d’Ars

A Poltrona dos Antepassados

Mesa e cadeiras antigasFoi-nos dito que, na casa de um escritor e poeta de grande renome, existe um uso que parecerá estranho a quem não seja Espírita. Na mesa da família há sempre uma poltrona vazia; essa cadeira é fechada por um cadeado, e nela ninguém se senta: é o lugar dos antepassados, dos avós e dos amigos que deixaram este mundo; está aí como um respeitoso testemunho de afeto, uma piedosa lembrança, um chamado à sua presença, e para dizer que vivem sempre no espírito dos sobreviventes.
A pessoa que nos citou este fato, como o tendo de boa fonte, acrescenta:
“Os Espíritas repelem com razão as coisas de pura forma; mas se há uma que possam adotar sem derrogar seus princípios, sem contradita, é esta.”
Seguramente, está aí um pensamento que jamais nascerá no cérebro de um materialista; ele não só atesta a ideia espiritualista, mas é eminentemente Espírita, e não nos surpreende de nenhum modo da parte de um homem que, sem arvorar abertamente a bandeira do Espiritismo, muitas vezes afirmou a sua crença nas verdades fundamentais que dele decorrem.
Há, nesse uso, alguma coisa de tocante, de patriarcal, e que impõe o respeito.
Quem, com efeito, ousaria pô-la em ridículo? Esta não é uma dessas fórmulas estéreis que nada dizem à alma: é a expressão de um sentimento que parte do coração, o sinal sensível do laço que une os presentes aos ausentes. Nessa cadeira, vazia em aparência, mas que o pensamento ocupa, está toda uma profissão de fé, e além disto, todo um ensinamento para os grandes, tanto quanto para os pequenos. Para as crianças, é uma eloquente lição, embora muda; e que não falta de deixar salutares impressões. Aqueles que forem educados nessas ideias jamais serão incrédulos, porque, mais tarde, a razão virá confirmar as crenças nas quais terão sido embalados.
A ideia da presença, ao seu redor, de seus avós ou de pessoas veneradas, será para eles um freio mais poderoso do que o medo do diabo.

Revista Espírita, setembro de 1868

Oração do Natal

Maria Santíssima e JesusRei Divino, na palha singela, porque te fizeste criança diante dos homens, quando podias ofuscá-los com a grandeza do teu Reino?
Soberano da Eternidade, por que estendeste braços pequerruchos e tenros aos pastores humildes, mendigando-lhes proteção, quando o próprio firmamento te saudava com uma estrela sublime, emoldurada de melodias celestes?
Certamente, vinhas ao encontro de nosso coração para libertá-lo. Procuravas o asilo de nossa alma para convertê-la em harpa nas tuas mãos.
Preferias esmolar segurança e carinho para que, em te amando, de algum modo, na manjedoura esquecida, aprendêssemos a amar-nos uns aos outros.
Tornava-lhes pequenino para que a sombra do orgulho se desfizesse em torno de nossos passos e pedias compaixão, porque não nos buscava por adornos do teu carro de triunfo como vassalos de tua glória, mas, sim, por amigos espontâneos de tua causa e por tutelados de tua benção.
E modificaste assim o destino das nações. Colocaste o trabalho digno onde a escravidão gerava a miséria; acendeste a claridade do perdão onde a noite do ódio assegurava o império do crime e ensinaste-nos a servir e a morrer para que a vida se tornasse mais bela... É por isso que, ajoelhados em espírito, recordo-te o berço pobre, ofertamos-te o coração.
Arranca-o Senhor, da grade do nosso peito enferrujado de egoísmo e faze-o chorar de alegria no deslumbramento de tua luz! Conduze-nos ainda aos tesouros da humildade, para que o poder sem amor não nos enlouqueça a inteligência e deixa-nos entoar o cântico dos pastores quando repetiam, em pranto jubiloso, a mensagem dos anjos:
-Glória a Deus nas alturas, paz na terra e boa vontade para com os homens!

-Chico Xavier/Meimei

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