O Tesouro da Fraternidade

Chico e EmmanuelNa noite do Ano Bom de 1950, vários irmãos de Belo Horizonte, reunidos em Pedro Leopoldo, em companhia do Chico, comentavam a importância das riquezas para a extensão do bem:
Aqui, desejava-se o salário farto…
Acolá, falava-se em dinheiro da loteria…
Chegada a hora da prece, Emmanuel, pelo lápis do Médium, endereça aos presentes a seguinte:

Mensagem

Não desprezes as pequeninas parcelas de carinho para que atinjas o tesouro da fraternidade.
Uma palavra confortadora.
O gesto de compreensão e ternura.
A frase de incentivo.
O presente de um livro.
A lembrança de uma flor.
Cinco minutos da palestra edificante.
O sorriso do estímulo.
A gota de remédio.
A informação prestada alegremente.
O pão repartido.
A visita espontânea.
Uma carta de entendimento e amizade.
O abraço de irmão.
O singelo serviço em viagem.
Um ligeiro sinal de cooperação.
Não é com o ouro fácil que descobrirás os mananciais ignorados e profundos da alma.
Não é com a autoridade do mundo que conquistarás a renovação real de um amigo.
Não é com a inteligência poderosa que colherás as flores ocultas da confiança.
Mas sempre que o teu coração se inclinar para um mendigo ou para um príncipe, envolvido na luz sublime da boa vontade, ajudando e servindo em nome do Bem, olvidando a ti mesmo para que outros se elevem e se rejubilem, guarda a certeza de que tocaste o coração do próximo com as santas irradiações das tuas pérolas de bondade, e caminharás no mundo, sob a invencível couraça da simpatia, para encontrar o divino tesouro da fraternidade em plenos céus.

Emmanuel

Quem puder ajuntar esse tesouro, decerto comprará com facilidade um passaporte para o Céu.

Ramiro Gama

Uma visita de Luiz Guimarães


Cartão fraternoGrande número de irmãos se reunia na residência do nosso confrade Luiz Mescolin, na cidade de Juiz de Fora, em Minas, na noite de 12 de junho de 1949, palestrando sobre Espiritismo e Poesia, quando alguém lembrou a suavidade das produções de Luiz Guimarães. E se o Poeta viesse escrever algo? Depois de alguns momentos, congregaram-se os circunstantes num círculo de oração e o Poeta lembrado apareceu, escrevendo pelo Chico o seguinte soneto:

Cartão Fraterno

Abre teu coração à luz divina
Para que a luz do amor em ti desponte.
E subirás, cantando, o excelso monte
Que de bênçãos celestes se ilumina.

Honra a luta na terra que te inclina
À sublime largueza de horizonte.
A nossa dor é a nossa própria fonte
De profunda verdade cristalina.

Quebra a escura cadeia que te isola!
Faze de teu caminho a grande escola
De renascente amor, puro e fecundo!

Deixa que o Cristo te penetre a vida
E que sejas do Mestre a chama erguida
À luminosa redenção do mundo.

Luiz Guimarães

Esta produção mediúnica foi publicada na Revista Espírita “O Médium”, da referida cidade, em seu número de junho de 1949.

Ramiro Gama

O Hino do Repouso

Novo amanhecerNa noite de 10 de março de 1949, Dona Maria Pena Xavier, uma das cunhadas do Chico, entrou em longa e comovedora agonia, depois de persistente enfermidade.
O Médium, acompanhado de vários familiares, entra em oração. E o Chico vê o quarto humilde povoar-se de numerosas crianças desencarnadas.
E elas cantam delicado hino, como que embalando a enferma a desencarnar.
O Médium roga a um dos Espíritos Amigos presentes que lhe dê, por generosidade, a letra do hino e o Amigo dita, verso a verso.
Em breves momentos, a composição, abaixo transcrita, está perfeita no papel em que o Médium está escrevendo o que ouve:

Rasgaram-se os véus da noite…
Novo dia resplandece.
Viajor, descansa em prece
Ao lado da própria cruz.
No firmamento dourado
Rebrilha a aurora divina,
Porque a morte descortina
Vida nova com Jesus.

Repete, agora, conosco:
“Bendita a dor santa e pura
Que me deu tanta amargura
E tanta consolação”.
E orando, em paz, no repouso,
De alma robusta e contente,
Agradece alegremente
A própria libertação.

Esquece a aflição do mundo!
No seio da crença olvida
Todas as sombras da vida,
Todo sonho enganador.
Sob a bênção da alegria,
És a andorinha celeste
Na esperança que te veste,
Voltando ao ninho de amor.

Descansa! Que além da sombra,
Outra alvorada te espera!
Abençoa a nova esfera
A que o Senhor nos conduz.
Dilatarás, muito em breve,
Todo o júbilo que vazas,
Desdobrando as próprias asas
No Reino da eterna Luz!

Decorridos instantes, Dona Maria desencarnou e até hoje não se sabe a autoria do belo hino cantado pelos Espíritos Amigos junto à humilde viúva, em seu leito de morte.
Esta linda página consta do livro Cartas do Coração, publicado em benefício das obras do Centro Espírita Aliança do Divino Pastor, sediado no Leblon, no Rio.

Ramiro Gama

O Culto Doméstico do Evangelho

Casimiro CunhaCasimiro Cunha
Nascimento: 13.04.1880
Falecimento: 1914

Explicando-se com singeleza e segurança, pelo lápis do Chico, na noite de 16 de dezembro de 1948, assim se expressou Casimiro Cunha sobre o culto doméstico do Evangelho:

Quando o culto do Evangelho
Brilha no centro do Lar,
A luta de cada dia
Começa a santificar.

A mente dos aprendizes,
Bebe luz em pleno ar,
Todos disputam contentes,
A glória do verbo dar.

Onde a língua tresloucada
Dilacera e calunia,
Brotam flores luminosas
De sacrossanta alegria.

A bênção do culto aberto
Na Divina diretriz,
Conversa Jesus com todos
E a casa vive feliz.

No lugar em que a mentira
Faz guerra de incompreensão,
A verdade estabelece
O império do Amor cristão.

Quem traz consigo a alegria
Combatendo as trevas e o mal,
Encontra a porta sublime
Do Reino Celestial.

Onde a ira ruge e morde,
Qual rude e invisível fera,
Surge o silêncio amoroso
Que entende, respeita e espera,


Ramiro Gama

Pela oportunidade permanente destes conceitos, deliberamos assinalá-las como precioso aviso a nós todos.

Uma visita de Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa
Nascimento: 24.11.1861
Falecimento: 19.03.1898

Cruz e SousaO confrade Izaltino Silveira Filho, digno companheiro nosso em Juiz de Fora, achava-se em prece com o Chico, em Pedro Leopoldo, na noite de 11 de setembro de 1948, quando ele e o Médium registraram a presença de alguns amigos espirituais.

Concentraram-se e, dentre as mensagens recebidas, veio o seguinte soneto de Cruz e Souza pelas mãos do Médium, dedicado ao irmão acima referido:

Segue

Segue gemendo no caminho estreito,
De pé sangrando em chagas dolorosas,
Sustentando alegrias que não gozas,
À renúncia rendendo excelso preito.

Na cruz pesada que te oprime o peito,
Encontrarás estrelas milagrosas,
Sob chuvas de bênçãos e de rosas,
Que dimanam do Amor Santo e Perfeito.

Se o temporal de lágrimas te encharca,
Seja a esperança a luminosa marca
Que te assinale as súplicas sinceras!

Somente a dor na terra estranha e escura
Apaga, na corrente da amargura,
Os erros que trazemos de outras eras…
Cruz e Souza

Assinalamos aqui esse soneto, não só por sua beleza, mas também pela exatidão do estilo que caracteriza o grande e inesquecível poeta.
Ramiro Gama

Oferenda às crianças

Foto: CEC 1959, SOPA FRATERNA

C. E. C. 1959, sopa fraternaNa noite de 16 de julho de 1948, algumas irmãs do Distrito Federal se achavam em Pedro Leopoldo e, algumas delas, em oração, pediram aos Amigos Espirituais uma lembrança para as criancinhas do “Centro Espírita Discípulos de Jesus”, do Rio de Janeiro.
Foi João de Deus, o suave lírico de Portugal, quem veio e atendeu pela mediunidade do Chico, dedicando aos meninos da referida instituição a Poesia que transcrevemos:

O Caminho do Céu

Ouve agora, meu anjinho,
Se procuras o caminho
Do Paraíso no Além,
Cultiva o jardim do amor,
Trabalha e atende ao Senhor
Sem fazer mal a ninguém.

Sê bondoso e diligente,
Serve ao mundo alegremente,
Apega-te aos homens bons;
Foge à discórdia que exalta
A treva, à revolta, à falta,
E busca os divinos dons.

Depois, filhinho, mais tarde,
Entenderás, sem alarde,
Que a senda de perfeição
Para toda criatura
Começa, risonha e pura,
Por dentro do coração.

João de Deus

Lembramo-nos de registrar aqui a presente recordação como oferenda às criancinhas.

Ramiro Gama

Solilóquio de um suicida


Praça do Papa, Belo HorizonteNa noite de 7 de março de 1948, Chico Xavier encontrava-se com alguns amigos no Alto do Cruzeiro, em Belo Horizonte.
Desse ponto admirável, extenso panorama se descortinava.
Noite clara e suave.
Um amigo lembra a prece e o grupo ora.
— Alguém da vida espiritual conosco, Chico? – interrogou um companheiro do Sul de Minas, depois da oração.
— Sim, disse o Médium, vejo um homem chorando ao seu lado.
— O nome dele?
— João Guedes.
— Sim, conheci. Era um pobre moço, poeta, que morreu por suicídio, em minha terra.
— Desejará alguma coisa?
— Sim, ele diz que pretende deixar-nos uma lembrança. Alguém traz consigo papel e lápis?
Um dos companheiros presentes estende ao Médium o material solicitado.
E, apoiando-se num poste de iluminação pública, Chico escreve o que lhe dita o visitante do Além.
Quando terminou, estava grafada a seguinte poesia:

Os torvos corações, náufragos de mil vidas,
Distantes de Jesus, que nos salva e aprimora,
Sob o guante da dor, caminham de hora a hora,
Para o inferno abismal das almas consumidas…

Sementeiras de pranto, aflições e feridas,
No pecado revel que os requeima e devora…
Depois, a escuridão da noite sem aurora
E o sarcasmo cruel das ilusões perdidas…

Alma triste que eu trago, ensandecida e errante,
Por que fugiste, assim, no milagroso instante?
Por que rogar mais luz se, estranha, te sublevas?

Ah! Mísera que foste, hesitante e covarde.
Não lamentes em vão, nem soluces tão tarde…
Procuremos Jesus, além de nossas trevas!

João Guedes

O moço, amigo do Poeta desencarnado, recebeu a página e guardou-a, enxugando as lágrimas.

Ramiro Gama

Programa Cristão

JESUS E A SAMARITANA

Jesus e a SamaritanaEm 11 de outubro de 1947 estavam reunidos, em Pedro Leopoldo, diversos companheiros da Mocidade Espírita de Petrópolis.
Depois de vários apontamentos doutrinários, a senhorita Zilda Portugal pediu a Emmanuel um programa destinado aos jovens espíritas e, pela mão do Chico, o querido benfeitor escreveu o seguinte:
Aceitar a direção de Jesus.
Consagrar-se ao Evangelho Redentor.
Dominar a si mesmo.
Desenvolver os sentimentos superiores.
Acentuar as qualidades nobres.
Sublimar aspirações e desejos.
Combater as paixões desordenadas no campo íntimo.
Acrisolar a virtude.
Intensificar a cultura, melhorando conhecimentos e aprimorando aptidões.
Iluminar o raciocínio.
Fortalecer a fé.
Dilatar a esperança.
Cultivar o bem.
Semear a verdade.
Renovar o próprio caminho, pavimentando-o com o trabalho digno.
Renunciar ao menor esforço.
Apagar os pretextos que costumam adiar os serviços nobres.
Estender o espírito de serviço, secretariando as próprias edificações.
Realizar a bondade, antes de ensiná-la aos outros.
Concretizar os ideais elevados que norteiam a crença.
Esquecer o perigo no socorro aos semelhantes.
Colocar-se em esfera superior ao plano.
Ganhar tempo, aproveitando as horas.
Enfrentar corajosamente os problemas humanos.
Amparar os ignorantes e os maus.
Auxiliar os doentes e os fracos.
Acender a lâmpada da boa vontade onde haja sombras e incompreensão.
Encontrar nos obstáculos os necessários recursos à superação de si próprio.
Perseverar no bem até o fim da luta.
Situar a reforma de si mesmo, em Jesus Cristo, acima de todas as exigências da vida terrestre.

O programa está aí.
Deus nos ajude a cumpri-lo.

Ramiro Gama

Um morto ilustre descreve o próprio enterro

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, poeta brasileiro
Nascimento: 20 de abril de 1884, Cruz do Espírito Santo, Paraíba
Falecimento: 12 de novembro de 1914, Leopoldina, Minas Gerais

Augusto dos AnjosNoite de 17 de junho de 1945. Chico Xavier, a serviço da repartição da qual é empregado, achava-se na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais, numa exposição agropecuária.
Findo o labor do dia, foi visitar o “Centro Espírita Amor ao Próximo”, daquela cidade.
Como se sabe, naquela cidade mineira, desencarnou o Poeta Augusto dos Anjos, cujos despojos, até hoje, ainda lá se encontram.
Alguém, na reunião, que se compunha de mais de cem pessoas,
Comentou:
— Ora essa! Se os espíritos se comunicam conosco, seria interessante que o Augusto dos Anjos nos viesse contar, em versos, como foi o seu enterro.
E o Poeta veio mesmo.
Em concentração junto à mesa que dirigia os trabalhos da noite, Chico psicografou a interessante mensagem que transcrevemos:

Recordações em Leopoldina

A sombra amiga destes montes calmos,
Meu pobre coração de anacoreta,
Amortalhado em fina roupa preta
Desceu à escuridão dos sete palmos.

Viera o fim dos sonhos intranquilos
Entre grandes e estranhos pesadelos,
Satisfazendo aos trágicos apelos
Da guerra inexorável dos bacilos.

A morte terminara o horrendo cerco,
Sufocando as moléculas madrastas…
Eram milhões de células nefastas,
Voltando à paz do túmulo de esterco.

Indiferente aos últimos perigos,
Meu corpo recebeu o último beijo
E comecei o lúgubre cortejo,
Sustentado nos braços dos amigos.

Em triste solilóquio no trajeto,
Espantado, fitando as mãos de cera,
Rememorava o tempo que perdera,
Desde as primárias convulsões do feto.

Por que morrer amando e haver descrido
Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?
Como é sombrio o pranto que se enxuga
Pelo infinito horror de haver nascido!…

Depois, vi-me no campo onde a dor medra,
Ao contacto do chão frio e profundo,
Chegara para mim o fim do mundo,
Entre as cruzes e os dísticos de pedra.

Terrível comoção pintou-me a cara,
Na escabrosa cidade dos pés juntos,
Tornara-se defunta, entre os defuntos,
Toda a ciência de que me orgulhara.

Trêmulo e só, no leito subterrâneo,
Sentia, frente à lógica dos fatos,
O pavor dos morcegos e dos ratos,
Dominar os abismos de meu crânio.

Meus ideais mais puros, meus lamentos,
E a minha vocação para a desgraça
Reduziam-se à mísera carcaça
Para o açougue dos vermes famulentos.

Em seguida o abandono, enfim, do plasma,
Os micróbios gritando independência…
E tomei nova forma de existência
Sob a fisiologia do fantasma.

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína
Do caos sinistro em que vivi submerso
Revelou-se-me a glória do universo,
Santificado pela Luz Divina.

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,
Nem arranque meu corpo à última furna,
É Leopoldina, a generosa urna,
Que, acolhedora, me resguarda os ossos.

Beije minh'alma, alegre, o pó da rua
Deste painel bucólico e risonho,
Onde aprendi, no derradeiro sonho,
Que o mistério da vida continua…

Bendita seja a Terra, augusta e forte,
Onde, através das vascas da agonia,
Encontrei a mim mesmo, em novo dia,
Pelas revelações de luz da morte.

Augusto dos Anjos

O experimentador, que duvidava da comunicação dos Espíritos, ao escutar a mensagem, franziu a testa e, com toda a assembleia, ficou meditando…

Ramiro Gama

Casos de M. Quintão

Manuel Justiniano de Freitas Quintão
Nascimento: 28 de maio de 1874
Falecimento: 15 de dezembro de 1955
Presidente da FEB em 1915, 1918, 1919 e 1929

M. QuintãoNuma sexta-feira do mês de maio de 1945, M. Quintão, na varanda de sua aprazível vivenda, no Méier, conversava animadamente com o confrade Meireles, quando sua cara companheira o chama para nivelar o piano, isto é, acertá-lo no piso.
Com o auxílio do irmão Meireles, pegou na alça do piano e, fazendo força para levantá-lo, sentiu uma torção nos rins, sobrevindo-lhe intensa dor que o obrigou a acamar-se.
O caso, que antes parecia sem importância, agravou-se, impossibilitando-o de ir à Casa de Ismael presidir à Sessão pública das 19 horas e 30 min. Dona Alzira, sua esposa, alvitrou que telegrafasse ao Chico, respondendo-lhe M. Quintão:
— Não convém, isto vai alarmar e nada produzirá, de vez que, se for permitido, mesmo de longe ou daqui de perto, receberei o remédio de que careço. Esperemos até domingo, se não melhorar, escreveremos ao Chico.
E, por intuição, foi medicando-se.
Domingo, pela manhã, o correio traz uma carta.
Abrem-na.
É do Chico Xavier, com uma mensagem de Emmanuel, que logo de início, diz:
— Antes de tudo, desejo identificar-me, dizendo-lhe que, em verdade, o telegrama antes alarma e nada beneficia. Desde que sofreu o acidente, estamos medicando-o. E continue tomando os remédios que, por via intuitiva, já lhe receitamos.
Dias depois, o nosso caro irmão ficou restabelecido.
Procurou a Mensagem para nos dar, mas não a encontrou.
Que pena!
Seria mais um clichê documentativo para o nosso Livro!

Também, em começo de abril de 1947, o mesmo confrade sonha com a data de 18.
Constou esse sonho de seu magnífico livro Cinzas de meu cinzeiro.
Depois de várias considerações sobre sonhos, disse-nos:
— Despertei alta noite, a tracejar uma folha de calendário do ano de 1947.
Era uma dessas folhinhas de parede, modelo comercial, que eu esboçava com requintes de meticulosidade, à tinta encarnada, assim: 1947, 18 de abril, sexta-feira
E a impressão era tão viva que não resisti ao desejo de grafá-la imediatamente no meu calepino; nem sopitava a freima de transmiti-la aos confrades mais íntimos. E não faltou quem sorrisse de minha puerilidade.
“Ora para que havia de dar o Quintão no crepúsculo da vida!”
Um houve, que identificou a efeméride com a primeira edição do “Livro dos Espíritos”: em outros eu pressentia o palpite piedoso da minha desencarnação. Em matéria de sonhos o campo é livre e infinito, e como lá diz: “O melhor da festa é esperar por ela”, e a festa veio no dia 18 de abril passado; o nosso nunca assaz e lembrado Chico Xavier viajou a serviço, de Pedro Leopoldo para Juiz de Fora e, porque não nos víamos havia três anos, aproveitou o ensejo para uma surpresa de arromba. De arromba, porque me chegou a penates às 22 horas, debaixo de chuva.
Era só para matar saudades, num fugaz e furtivo abraço. Não podia demorar, regressaria no primeiro trem da manhã, precisava parar ainda em Juiz de Fora e estar a tempo em Pedro Leopoldo, a fim de, na próxima terça-feira, seguir para a Feira Pecuária de Uberaba. Serviço é Lei, manda quem pode. Repousar? Dormir? Não. Poderia perder o trem… Candura do Chico!
— Vamos, então, “bater papo” toda a noite, enquanto chove grosso lá fora. Mesa posta, café, biscoitos e um mundo de ideias, comentários, recordações. O velho Cronos se eclipsa, envergonhado talvez, e Morfeu vai-lhe na pegada com as suas papoulas… As quatro da madrugada canta o galo. Minha mulher pede ao Chico uma indicação, um conselho mediúnico…
— Deixa-te disso, o Chico está fatigado, exausto mesmo; de resto, eu sempre fui infenso a comunicações preconcebidas.
O Médium, porém, não recalcitrou, toma lesto da lapiseira e sem pestanejar escreve de jato:

AVE, MARIA!

No primeiro aniversário
De minha libertação,
Em teu lar, Quintão amigo,
Procuro o altar da oração.

Ave, Maria! Mãe que por nós velas
Do teu trono de ternos resplendores,
Auxilia os teus filhos sofredores,
Que padecem a fúria das procelas.

Cheia de graça, estrela entre as mais belas,
Anjo excelso dos pobres pecadores,
Balsamiza, Senhora, as nossas dores,
Tu, que por nossas almas te desvelas.

O Senhor é contigo, Soberana,
Astro sublime sobre a noite humana,
Sol que infinitos dons de Deus encerra!

Bendita és para sempre, Mãe querida,
Por teus braços de amor, ternura e vida,
Por teu manto de luz que ampara a terra!

Braga Neto

Isto, continua M. Quintão, com a lapiseira que guardo como lembrança do saudoso e inesperado visitante.
Juro que não me lembrava, absolutamente, do seu transpasse nesta data. Nem o Médium, tê-lo-ia de memória, tão pouco.
E aqui fica mais um lindo caso de um sonho premonitório, para cuja realização o caro Chico foi o instrumento feliz.

Ramiro Gama

Conteúdo sindicalizado