Oferenda às crianças

Foto: CEC 1959, SOPA FRATERNA

C. E. C. 1959, sopa fraternaNa noite de 16 de julho de 1948, algumas irmãs do Distrito Federal se achavam em Pedro Leopoldo e, algumas delas, em oração, pediram aos Amigos Espirituais uma lembrança para as criancinhas do “Centro Espírita Discípulos de Jesus”, do Rio de Janeiro.
Foi João de Deus, o suave lírico de Portugal, quem veio e atendeu pela mediunidade do Chico, dedicando aos meninos da referida instituição a Poesia que transcrevemos:

O Caminho do Céu

Ouve agora, meu anjinho,
Se procuras o caminho
Do Paraíso no Além,
Cultiva o jardim do amor,
Trabalha e atende ao Senhor
Sem fazer mal a ninguém.

Sê bondoso e diligente,
Serve ao mundo alegremente,
Apega-te aos homens bons;
Foge à discórdia que exalta
A treva, à revolta, à falta,
E busca os divinos dons.

Depois, filhinho, mais tarde,
Entenderás, sem alarde,
Que a senda de perfeição
Para toda criatura
Começa, risonha e pura,
Por dentro do coração.

João de Deus

Lembramo-nos de registrar aqui a presente recordação como oferenda às criancinhas.

Ramiro Gama

Solilóquio de um suicida


Praça do Papa, Belo HorizonteNa noite de 7 de março de 1948, Chico Xavier encontrava-se com alguns amigos no Alto do Cruzeiro, em Belo Horizonte.
Desse ponto admirável, extenso panorama se descortinava.
Noite clara e suave.
Um amigo lembra a prece e o grupo ora.
— Alguém da vida espiritual conosco, Chico? – interrogou um companheiro do Sul de Minas, depois da oração.
— Sim, disse o Médium, vejo um homem chorando ao seu lado.
— O nome dele?
— João Guedes.
— Sim, conheci. Era um pobre moço, poeta, que morreu por suicídio, em minha terra.
— Desejará alguma coisa?
— Sim, ele diz que pretende deixar-nos uma lembrança. Alguém traz consigo papel e lápis?
Um dos companheiros presentes estende ao Médium o material solicitado.
E, apoiando-se num poste de iluminação pública, Chico escreve o que lhe dita o visitante do Além.
Quando terminou, estava grafada a seguinte poesia:

Os torvos corações, náufragos de mil vidas,
Distantes de Jesus, que nos salva e aprimora,
Sob o guante da dor, caminham de hora a hora,
Para o inferno abismal das almas consumidas…

Sementeiras de pranto, aflições e feridas,
No pecado revel que os requeima e devora…
Depois, a escuridão da noite sem aurora
E o sarcasmo cruel das ilusões perdidas…

Alma triste que eu trago, ensandecida e errante,
Por que fugiste, assim, no milagroso instante?
Por que rogar mais luz se, estranha, te sublevas?

Ah! Mísera que foste, hesitante e covarde.
Não lamentes em vão, nem soluces tão tarde…
Procuremos Jesus, além de nossas trevas!

João Guedes

O moço, amigo do Poeta desencarnado, recebeu a página e guardou-a, enxugando as lágrimas.

Ramiro Gama

Programa Cristão

JESUS E A SAMARITANA

Jesus e a SamaritanaEm 11 de outubro de 1947 estavam reunidos, em Pedro Leopoldo, diversos companheiros da Mocidade Espírita de Petrópolis.
Depois de vários apontamentos doutrinários, a senhorita Zilda Portugal pediu a Emmanuel um programa destinado aos jovens espíritas e, pela mão do Chico, o querido benfeitor escreveu o seguinte:
Aceitar a direção de Jesus.
Consagrar-se ao Evangelho Redentor.
Dominar a si mesmo.
Desenvolver os sentimentos superiores.
Acentuar as qualidades nobres.
Sublimar aspirações e desejos.
Combater as paixões desordenadas no campo íntimo.
Acrisolar a virtude.
Intensificar a cultura, melhorando conhecimentos e aprimorando aptidões.
Iluminar o raciocínio.
Fortalecer a fé.
Dilatar a esperança.
Cultivar o bem.
Semear a verdade.
Renovar o próprio caminho, pavimentando-o com o trabalho digno.
Renunciar ao menor esforço.
Apagar os pretextos que costumam adiar os serviços nobres.
Estender o espírito de serviço, secretariando as próprias edificações.
Realizar a bondade, antes de ensiná-la aos outros.
Concretizar os ideais elevados que norteiam a crença.
Esquecer o perigo no socorro aos semelhantes.
Colocar-se em esfera superior ao plano.
Ganhar tempo, aproveitando as horas.
Enfrentar corajosamente os problemas humanos.
Amparar os ignorantes e os maus.
Auxiliar os doentes e os fracos.
Acender a lâmpada da boa vontade onde haja sombras e incompreensão.
Encontrar nos obstáculos os necessários recursos à superação de si próprio.
Perseverar no bem até o fim da luta.
Situar a reforma de si mesmo, em Jesus Cristo, acima de todas as exigências da vida terrestre.

O programa está aí.
Deus nos ajude a cumpri-lo.

Ramiro Gama

Um morto ilustre descreve o próprio enterro

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, poeta brasileiro
Nascimento: 20 de abril de 1884, Cruz do Espírito Santo, Paraíba
Falecimento: 12 de novembro de 1914, Leopoldina, Minas Gerais

Augusto dos AnjosNoite de 17 de junho de 1945. Chico Xavier, a serviço da repartição da qual é empregado, achava-se na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais, numa exposição agropecuária.
Findo o labor do dia, foi visitar o “Centro Espírita Amor ao Próximo”, daquela cidade.
Como se sabe, naquela cidade mineira, desencarnou o Poeta Augusto dos Anjos, cujos despojos, até hoje, ainda lá se encontram.
Alguém, na reunião, que se compunha de mais de cem pessoas,
Comentou:
— Ora essa! Se os espíritos se comunicam conosco, seria interessante que o Augusto dos Anjos nos viesse contar, em versos, como foi o seu enterro.
E o Poeta veio mesmo.
Em concentração junto à mesa que dirigia os trabalhos da noite, Chico psicografou a interessante mensagem que transcrevemos:

Recordações em Leopoldina

A sombra amiga destes montes calmos,
Meu pobre coração de anacoreta,
Amortalhado em fina roupa preta
Desceu à escuridão dos sete palmos.

Viera o fim dos sonhos intranquilos
Entre grandes e estranhos pesadelos,
Satisfazendo aos trágicos apelos
Da guerra inexorável dos bacilos.

A morte terminara o horrendo cerco,
Sufocando as moléculas madrastas…
Eram milhões de células nefastas,
Voltando à paz do túmulo de esterco.

Indiferente aos últimos perigos,
Meu corpo recebeu o último beijo
E comecei o lúgubre cortejo,
Sustentado nos braços dos amigos.

Em triste solilóquio no trajeto,
Espantado, fitando as mãos de cera,
Rememorava o tempo que perdera,
Desde as primárias convulsões do feto.

Por que morrer amando e haver descrido
Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga?
Como é sombrio o pranto que se enxuga
Pelo infinito horror de haver nascido!…

Depois, vi-me no campo onde a dor medra,
Ao contacto do chão frio e profundo,
Chegara para mim o fim do mundo,
Entre as cruzes e os dísticos de pedra.

Terrível comoção pintou-me a cara,
Na escabrosa cidade dos pés juntos,
Tornara-se defunta, entre os defuntos,
Toda a ciência de que me orgulhara.

Trêmulo e só, no leito subterrâneo,
Sentia, frente à lógica dos fatos,
O pavor dos morcegos e dos ratos,
Dominar os abismos de meu crânio.

Meus ideais mais puros, meus lamentos,
E a minha vocação para a desgraça
Reduziam-se à mísera carcaça
Para o açougue dos vermes famulentos.

Em seguida o abandono, enfim, do plasma,
Os micróbios gritando independência…
E tomei nova forma de existência
Sob a fisiologia do fantasma.

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína
Do caos sinistro em que vivi submerso
Revelou-se-me a glória do universo,
Santificado pela Luz Divina.

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços,
Nem arranque meu corpo à última furna,
É Leopoldina, a generosa urna,
Que, acolhedora, me resguarda os ossos.

Beije minh'alma, alegre, o pó da rua
Deste painel bucólico e risonho,
Onde aprendi, no derradeiro sonho,
Que o mistério da vida continua…

Bendita seja a Terra, augusta e forte,
Onde, através das vascas da agonia,
Encontrei a mim mesmo, em novo dia,
Pelas revelações de luz da morte.

Augusto dos Anjos

O experimentador, que duvidava da comunicação dos Espíritos, ao escutar a mensagem, franziu a testa e, com toda a assembleia, ficou meditando…

Ramiro Gama

Casos de M. Quintão

Manuel Justiniano de Freitas Quintão
Nascimento: 28 de maio de 1874
Falecimento: 15 de dezembro de 1955
Presidente da FEB em 1915, 1918, 1919 e 1929

M. QuintãoNuma sexta-feira do mês de maio de 1945, M. Quintão, na varanda de sua aprazível vivenda, no Méier, conversava animadamente com o confrade Meireles, quando sua cara companheira o chama para nivelar o piano, isto é, acertá-lo no piso.
Com o auxílio do irmão Meireles, pegou na alça do piano e, fazendo força para levantá-lo, sentiu uma torção nos rins, sobrevindo-lhe intensa dor que o obrigou a acamar-se.
O caso, que antes parecia sem importância, agravou-se, impossibilitando-o de ir à Casa de Ismael presidir à Sessão pública das 19 horas e 30 min. Dona Alzira, sua esposa, alvitrou que telegrafasse ao Chico, respondendo-lhe M. Quintão:
— Não convém, isto vai alarmar e nada produzirá, de vez que, se for permitido, mesmo de longe ou daqui de perto, receberei o remédio de que careço. Esperemos até domingo, se não melhorar, escreveremos ao Chico.
E, por intuição, foi medicando-se.
Domingo, pela manhã, o correio traz uma carta.
Abrem-na.
É do Chico Xavier, com uma mensagem de Emmanuel, que logo de início, diz:
— Antes de tudo, desejo identificar-me, dizendo-lhe que, em verdade, o telegrama antes alarma e nada beneficia. Desde que sofreu o acidente, estamos medicando-o. E continue tomando os remédios que, por via intuitiva, já lhe receitamos.
Dias depois, o nosso caro irmão ficou restabelecido.
Procurou a Mensagem para nos dar, mas não a encontrou.
Que pena!
Seria mais um clichê documentativo para o nosso Livro!

Também, em começo de abril de 1947, o mesmo confrade sonha com a data de 18.
Constou esse sonho de seu magnífico livro Cinzas de meu cinzeiro.
Depois de várias considerações sobre sonhos, disse-nos:
— Despertei alta noite, a tracejar uma folha de calendário do ano de 1947.
Era uma dessas folhinhas de parede, modelo comercial, que eu esboçava com requintes de meticulosidade, à tinta encarnada, assim: 1947, 18 de abril, sexta-feira
E a impressão era tão viva que não resisti ao desejo de grafá-la imediatamente no meu calepino; nem sopitava a freima de transmiti-la aos confrades mais íntimos. E não faltou quem sorrisse de minha puerilidade.
“Ora para que havia de dar o Quintão no crepúsculo da vida!”
Um houve, que identificou a efeméride com a primeira edição do “Livro dos Espíritos”: em outros eu pressentia o palpite piedoso da minha desencarnação. Em matéria de sonhos o campo é livre e infinito, e como lá diz: “O melhor da festa é esperar por ela”, e a festa veio no dia 18 de abril passado; o nosso nunca assaz e lembrado Chico Xavier viajou a serviço, de Pedro Leopoldo para Juiz de Fora e, porque não nos víamos havia três anos, aproveitou o ensejo para uma surpresa de arromba. De arromba, porque me chegou a penates às 22 horas, debaixo de chuva.
Era só para matar saudades, num fugaz e furtivo abraço. Não podia demorar, regressaria no primeiro trem da manhã, precisava parar ainda em Juiz de Fora e estar a tempo em Pedro Leopoldo, a fim de, na próxima terça-feira, seguir para a Feira Pecuária de Uberaba. Serviço é Lei, manda quem pode. Repousar? Dormir? Não. Poderia perder o trem… Candura do Chico!
— Vamos, então, “bater papo” toda a noite, enquanto chove grosso lá fora. Mesa posta, café, biscoitos e um mundo de ideias, comentários, recordações. O velho Cronos se eclipsa, envergonhado talvez, e Morfeu vai-lhe na pegada com as suas papoulas… As quatro da madrugada canta o galo. Minha mulher pede ao Chico uma indicação, um conselho mediúnico…
— Deixa-te disso, o Chico está fatigado, exausto mesmo; de resto, eu sempre fui infenso a comunicações preconcebidas.
O Médium, porém, não recalcitrou, toma lesto da lapiseira e sem pestanejar escreve de jato:

AVE, MARIA!

No primeiro aniversário
De minha libertação,
Em teu lar, Quintão amigo,
Procuro o altar da oração.

Ave, Maria! Mãe que por nós velas
Do teu trono de ternos resplendores,
Auxilia os teus filhos sofredores,
Que padecem a fúria das procelas.

Cheia de graça, estrela entre as mais belas,
Anjo excelso dos pobres pecadores,
Balsamiza, Senhora, as nossas dores,
Tu, que por nossas almas te desvelas.

O Senhor é contigo, Soberana,
Astro sublime sobre a noite humana,
Sol que infinitos dons de Deus encerra!

Bendita és para sempre, Mãe querida,
Por teus braços de amor, ternura e vida,
Por teu manto de luz que ampara a terra!

Braga Neto

Isto, continua M. Quintão, com a lapiseira que guardo como lembrança do saudoso e inesperado visitante.
Juro que não me lembrava, absolutamente, do seu transpasse nesta data. Nem o Médium, tê-lo-ia de memória, tão pouco.
E aqui fica mais um lindo caso de um sonho premonitório, para cuja realização o caro Chico foi o instrumento feliz.

Ramiro Gama

Oração da Filha de Deus

Nelma era uma sobrinha do Chico, a qual desencarnou em Belo Horizonte, em junho de 1944. Dias antes de partir, a doente, jovem recém-casada, de vinte anos, pediu a Emmanuel lhe desse uma oração para ir repetindo-a, de memória. Sabia-se no fim do corpo e desejava uma oração que lhe desse forças para a grande viagem. E a prece veio pelas mãos do Chico, o orientador espiritual escreveu a seguinte rogativa:
Oração da Filha de DeusMeu Deus, deponho aos teus pés
Meu vestido de noivado,
Meus prazeres do passado
E as rosas do meu Jardim…
Pois, agora, Pai Querido,
Somente vibra, em meu peito,
Teu Amor Santo e Perfeito,
Teu Amor puro e sem fim.

Ah! Meu Pai, guarda contigo
Meu cofre de arminho e ouro,
Onde eu guardava o tesouro
Que me deste ao coração.
Entrego-te as minhas horas,
Meus sonhos e meus castelos,
Meus anseios mais singelos,
Minhas capas de ilusão!…

Oração da Filha de DeusPai dos Céus, guarda a coroa
Das flores de laranjeira
Que eu tecia a vida inteira
Como pássaro a cantar!
Oh! Meu Senhor, como é doce
Partir os grilhões do mundo
E esperar-te o amor profundo
Nas bênçãos do Eterno Lar!…

Em troca, meu Pai, concede,
Agora que me levanto,
Que a lã do Cordeiro Santo
Me agasalhe o coração!
Que eu calce a sandália pobre
Para a grande caminhada,
Que me conduz à Morada
Da Paz e da Redenção!…

Emmanuel

Ramiro Gama

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Os mortos estão de pé

Foto: HUMBERTO DE CAMPOS, ESCRITOR

Humberto de Campos, escritorGastão Penalva, escritor de raça, pseudônimo de conhecido e estimado oficial de nossa Marinha de Guerra, há pouco desencarnado, pelo Jornal do Brasil, de 4 de outubro de 1939, escreveu, com o título: a Humberto de Campos, onde estiver, uma bela página literária, em que, exteriorizando seu estado de alma de homem bom e incompreendido, reviveu para o grande colega de Arte, agora na espiritualidade, o programa doentio da Terra.
Terminou a carta literária pedindo-lhe desculpas por haver-lhe perturbado o sono. E deu-lhe um saudoso até logo.
Pois bem, no dia 6 do mesmo mês e ano, Chico, que nada leu e de nada sabia, recebeu a resposta de Humberto de Campos para seu querido amigo Gastão Penalva.
Trata-se de uma página linda, toda ela em que, identificando-se pelo estilo e pela sua cultura variada e segura, o mágico escritor maranhense justifica a doença da Terra e lhe oferece o remédio curador e salvador, que nos veio há dois mil anos pelas mãos santas de Jesus.
É uma página magistral, como somente ele, Humberto, sabia e sabe escrever.
Chico a enviou à FEB, por intermédio de M. Quintão, que lhe tirou uma cópia e fez chegar o original às mãos do destinatário.
Gastão Penalva, segundo se soube, surpreendeu-se ao recebê-la e, quando a leu toda, chorou de alegria e consolação, tanto mais por identificar seu querido colega morto, e ganhar, aí, a certeza de que a imortalidade é um fato.
As duas cartas literárias constam do magnífico livro Novas Mensagens, editado pela FEB.
Gastão Penalva, mais tarde, espalhou a notícia e, particularmente, contou o caso, com minudências, ao seu colega João Luso, descrente das verdades espíritas, que, logo depois de ouvi-lo, disse-lhe:
—Isto é um sonho, não acredito que os mortos vivam…
— Bem, retrucou-lhe Gastão Penalva, um dia você terá uma prova. Espere e verá…
Passou-se o tempo.
Ambos ficaram doentes.
E Gastão, sem que João Luso soubesse, desencarnou.
Logo que melhorou e pôde sair, João Luso foi ao Jornal do Brasil, de que era colaborador, para pôr em dia os seus escritos.
A entrada, vem-lhe ao encontro alguém que o abraça e lhe aperta as mãos.
E João Luso despede-se do amigo, apreensivo, por verificar que ele estava pálido e com as mãos geladas…
Entra na redação e exclama:
— Imaginem, acabo de abraçar o querido Gastão Penalva, que não via há muito, mas verifico que está muito doente, pálido, de mãos frias.
O pessoal da redação se entreolha admirado e, um dentre todos diz:
— Não é possível, João Luso, pois ele morreu há quinze dias…
— Há quinze dias? Então é verdade! Os mortos estão mesmo de pé!
Prometeu-me o Gastão uma prova e veio cumprir sua palavra. Graças a Deus!
Abaixou a cabeça. De seus olhos rolavam lágrimas…
Hoje, João Luso já está na Espiritualidade e poderá, muito melhor, verificar, em espírito e verdade, que, de fato, os mortos, tendo à frente o Espírito Humberto de Campos, vivem e estão mesmo de pé.

Ramiro Gama

A lição dos chuchus

A lição dos chuchusDona Maria Pena, que era viúva do Raimundo, irmão do Chico, julgava que este era um mão aberta.
Não era muito crente do dar sem receber. E, certa manhã em que, sobremodo, sentia a missão do Médium, que muito estimava, disse-lhe:
— Chico, não acredito muito nas suas teorias de servir, de ajudar, de dar e dar sempre, sem uma recompensa. Não vejo nada que você recebe em troca do que faz, do que dá, do que realiza.
— Mas, tudo quanto fazemos com sinceridade e amor no coração Deus abençoa. E sempre que distribuímos, que damos com a direita sem a esquerda ver, fazemos uma boa ação e, mais cedo ou mais tarde, receberemos a resposta do Pai. Pode crer que quem faz o bem, além de viver no bem, colhe o bem.
— Então, vamos experimentar. Tenho aqui dois chuchus. Se alguém aqui aparecer, vou lhos dar e quero ver se depois recebo outros dois.
Ainda bem não acabara de falar, quando a vizinha do lado esquerdo, pelo muro, chama:
— Dona Maria, pode me dar ou emprestar uns dois chuchus?
— Pois não, minha amiga, aqui os tem, faça deles um bom guisado.
Daí a instante, sem que pudesse refazer-se da surpresa que tivera, a vizinha do lado direito, também pelo muro, ofereceu quatro chuchus a Dona Maria.
Meia hora depois, a vizinha dos fundos pede a Dona Maria uns chuchus e esta a presenteia com os quatro que ganhara.
A vizinha da frente, quase em seguida, sem que soubesse o que acontecia, oferece à cunhada do nosso querido Médium, oito chuchus.
Por fim, já sentindo a lição e agindo seriamente, Dona Maria é visitada por uma amiga de poucos recursos econômicos.
Demora-se um pouco, o tempo bastante para desabafar sua pobreza.
À saída recebe, com outros mantimentos, os oito chuchus…
E dona Maria diz para o Chico:
— Agora quero ver se ganho dezesseis chuchus, era só o que faltava para completar essa brincadeira…
Já era tarde.
Estava na hora de regressar ao serviço e Chico partiu, tendo antes enviado à prezada irmã um sorriso amigo e confiante, como a dizer-lhe: – Espere e verá.
Aí pelas dezoito horas, regressou o Chico à casa.
Nada havia sucedido com relação aos chuchus…
Dona Maria olhava para o Chico com ar de quem queria dizer:
Ganhei ou não?
Às vinte horas, todos na sala com o Chico, conversam e nem se lembram mais do caso dos chuchus, quando alguém bate à porta.
Dona Maria atende.
Era um senhor idoso, residente na roça.
Trazia no seu burrinho uns pequenos presentes para Dona Maria, em retribuição às refeições que sempre lhe dá, quando vem à cidade.
Colocou à porta um pequeno saco.
Dona Maria abre-o nervosa e curiosamente.
Estava repleto de chuchus.
Contou-os: sessenta e quatro: Oito vezes mais do que havia ultimamente dado…
Era demais.
A graça, em forma de lição, excedia à expectativa, era mais do que esperava.
E, daí por diante, Dona Maria compreendeu que aquele que dá recebe sempre mais!…

Ramiro Gama

Então eu desejo ser o burrinho

O Chico acabava de ver sair à publicidade mais um dos belos e úteis livros psicografados pelas suas mãos abençoadas. E, além de cartas elogiosas ao seu trabalho, recebia pessoalmente em Pedro Leopoldo e em Belo Horizonte, quando lá comparecia, louvores e mais louvores de confrades e irmãos outros simpáticos ao Espiritismo. E cada qual lhe citava um fato que mais lhe agradou, realçando o valor do livro neste e naquele aspecto.
O Chico andava atrapalhado com tantos confetes sobre sua pessoa. E, em casa, sossegado dos aplausos, dizia de si para consigo mesmo:
— Vou deixar de psicografar, pois sou um verdadeiro ladrão roubando referências honrosas que não me pertencem. Os abraços, os parabéns, os elogios que recebo cabem aos Espíritos de Emmanuel, André Luiz, Néio Lúcio e de outros, que são legitimamente os autores dos livros magníficos. Preciso dar um jeito nisto.
Néio Lúcio, que lhe traduzia o pensamento, que lhe verificara os propósitos, lhe aparece sorrindo e diz:
— Não há razão, Chico, para sentir-se você magoado com os elogios. Você também os merece.
— Não, Néio Lúcio, sinto-me como um ingrato, ladrão, indigno.
— Bem, Chico, vou contar-lhe uma pequena história: Em certo município, dois distritos se defrontavam, separados apenas por pequena distância. Um, com a população quase toda enfermada, sem recurso de espécie alguma. O outro, cheio de vida, víveres, remédios. Apenas faltava um agente intermediário entre os dois. Ninguém queria servir de ligação, realizar o trabalho socorrista.

Um colocava alimento, outro remédio, mais outro, roupas.
Colocavam-no à trilha, e ele, automaticamente, lá ia para o distrito lazarento e faminto.
Em pouco, era esvaziada toda a carga e voltava, como fora, alegre, satisfeito por haver cumprido um serviço salvacionista, abençoado, para repetir, noutras vezes, quando necessário, a mesma tarefa cristã.
E, antes que Néio Lúcio concluísse, o Chico exclamou:
— Está bem, Néio Lúcio, então, como burrinho, aceito o serviço. E nunca mais se importou com louvores, certo de que agora sabe qual a missão que realiza, entre a terra e o céu, junto à Grande Causa.
Lição de humildade, de conhecimento de si mesmo. Lição para nós todos…

Ramiro Gama

Lembrando os fenômenos de licantropia

Lembrando os fenômenos de licantropiaFalando das obras magistrais de André Luiz, particularizamos seu belo livro Libertação, lembrando os fenômenos de Licantropia, que é um problema de sintonia. Onde colocamos o pensamento, aí desenvolver-nos-á a própria vida. O nosso tesouro está onde está o nosso coração. Recordamos Nabucodonosor, o rei poderoso, a que se refere a Bíblia que, nos últimos sete anos de existência, viveu sentindo-se animal. Andava de quatro e comia ervas rasteiras ou roía ossos como um cão.
E Chico, citando André Luiz, estendendo-se em considerações interessantes, citou-nos casos outros de Licantropia, inextrincáveis ainda, para a investigação dos médicos encarnados, conforme ponderou o esclarecido autor de Nosso Lar, dizendo-nos:
— Andando, às vezes, por aqui e por ali, encontro-me com vários irmãos e neles, observando bem, descubro em cada qual duas fisionomias, uma que tem e outra que molda com seus pensamentos e sentimentos. Por isto, vez por outra, vejo moças com fisionomias angelicais e, nos elementos plásticos de seus perispíritos, cobrinhas, aranhas, gatos, etc., simbolizando-lhes as tendências. E também observo em fisionomias fechadas, carrancudas, feias, pássaros, libélulas, carneiros, pombas mansas. Isso acontece comigo mesmo, pois descubro muitos animais em mim próprio.
Como colaboração ao belo assunto, lembramos-lhe um filme a que assistíramos, há tempos:
— O Pintor de Almas que revelou um caso verídico da História e o pintor existiu.
De uma feita, pintou o retrato de uma Imperatriz e a fez menos bela do que era e até com sinais grosseiros no semblante.
Com a sua dama de companhia, fisicamente feia, pintou-a diferente, bela. Chamado a explicar-se, justificou-se dizendo:
— Vejo-as assim espiritualmente. Uma a meu ver, é feia e má, a outra, bela e caridosa. E dizia uma verdade. O Chico deu uma de suas gostosas gargalhadas e mudamos de assunto, receosos de que o vidente de Pedro Leopoldo observasse, escondido em nós, algum animal ferocíssimo…

Ramiro Gama

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