Conversa ou trabalho?

CHICO XAVIER E EMMANUEL

Conversa ou trabalhoNuma singela sala residencial, em Pedro Leopoldo, a conversação ia animada.
Muitos assuntos… Muitas referências…
A palestra começara às cinco da tarde e o relógio anunciava onze da noite.
Chico ia começar uma variação de tema, quando viu Emmanuel a chamá-lo para o interior doméstico.
O Médium pediu licença e foi atender.
— Você sabe que hoje temos a tarefa do livro em recepção e já estamos atrasados, falou o amigo espiritual.
— É verdade, – concordou o Chico – entretanto, tenho visitas e estamos conversando.
— Sem dúvida – considerou o Guia – compreendemos a oportunidade de uma a duas horas de entendimento fraterno para atender aos irmãos sem objetivo, porque, às vezes, através da banalidade, podemos algo fazer na sementeira de luz… Mas não entendo, seis horas a fio de conversação sem proveito.
O Médium nada respondeu.
Indeciso, deixara correr os minutos, quando Emmanuel lhe disse:
— Bem, eu não disponho de mais tempo. Você decide. Converse ou trabalhe.
Chico não mais vacilou.
Deixou a conversação que prosseguia, cada vez mais acesa, na sala, e confiou-se à tarefa que o aguardava com a assistência generosa do benfeitor espiritual.

Ramiro Gama

Indispensável

Foto: FERROVIA ANTIGA

IndispensávelChico recebera um convite reiterado para assistir a uma solenidade que um Centro Espírita de determinado lugar realizaria, um pouco distante de Belo Horizonte.
A carta convite, assinada pelos diretores do Centro, contendo encômios à pessoa do médium, dizia que sua presença era indispensável…
O Chico pensou muito naquele adjetivo, sentiu a preocupação dos irmãos distantes, ansiosos pela sua presença.
Certamente ele realizaria uma grande missão. E não relutou mais.
Junto ao seu bondoso chefe, justificou sua ausência por dois dias, comprou passagem na Central do Brasil e partiu.
No meio da viagem, quando já sonhava com a chegada, pressentindo a alegria dos irmãos, Emmanuel aparece e lhe diz:
—Então, você se julga indispensável e, por isto, rompeu todos os obstáculos e viaja assim como quem, por isto mesmo, vai realizar uma importante tarefa… Já refletiu, Chico, que o serviço do ganha-pão é indispensável a você? Pense bem…
O Chico pensou, pensou e, na próxima estação, desceu do trem e tomou outro de volta…
A lição foi compreendida.
Seus irmãos de mais longe, com seu não comparecimento, com certeza, compreenderam-na também!…

Ramiro Gama

Sonhando com um lar

SOPA FRATERNA, C. E. C, EM 1959

Sonhando com um larO Chico é muito estimado por todos em Pedro Leopoldo. Todos lhe querem bem, homens, mulheres e crianças.
Um grupo de senhoras comentava a solteirice do Chico, quando ele passava. E uma delas disse-lhe:
—Falávamos coisas boas de você, Chico. Que você deveria casar-se, ter uma companheira, um lar seu, viver assim diretamente para alguém…
— Agradeço-lhes muito, minhas irmãs, mas cada um tem a missão que pediu.
Abraçou-as satisfeito e partiu.
E foi pensando no que lhe disseram as caras irmãs.
À noite, a sós, no seu quarto, veio-lhe à lembrança de novo, aquele assunto de casamento.
Entrando em colóquio com a sua consciência, entendeu que era de fato, muito infeliz.
Escreveu uma carta ao seu grande amigo Manoel Quintão e nela exteriorizou seu estado de alma combalido.
Era ele, terminava, como uma árvore seca, de galhos mirrados, sem ninhos, sem flores, sem frutos.
E dormiu.
Sonhara um lindo sonho. Alguém, com quem conversava, certamente inspirado pelo seu querido Guia, explicava-lhe:
—Chico, você sabe bem entender a lição do perfume no vaso. Enquanto aí está, apenas beneficia o vidro que o prende. Fora do vidro, perfuma a tudo e a todos. Você Chico, procure viver não apenas para uma pessoa, mas sim para muitos. E na Tarefa com Jesus, você não se pertencerá porque estará a serviço dele. Lembre-se de que o perfume do Evangelho pertence a todos.
E Chico acordou mais alegre.
Ficou satisfeito com a sua tarefa; apenas não pode acreditar que seja perfume…
Mas sua irmã Geralda, a quem conhecêramos em Belo Horizonte, justificando os elogios que lhe fazíamos do irmão, dizia-nos:
—Não, ele não é nosso irmão apenas: foi, tem sido e é a nossa Mãe também…

Ramiro Gama

Palavras aos enfermos

JESUS CURANDO OS ENFERMOS

Palavras aos enfermosOs doentes eram tantos em Pedro Leopoldo, noite após noite, que o Espírito de Néio Lúcio, compadecendo-se dos sofredores, endereçou-lhes a mensagem que transcrevemos abaixo:
Toda enfermidade do corpo é processo educativo para a alma. Receber, porém, a visitação benéfica entre manifestações de revolta é o mesmo que recusar as vantagens da lição, rasgando o livro que no-la transmite.
A dor física, pacientemente suportada, é golpe de buril divino, realizando o aperfeiçoamento espiritual.
Tenho encontrado companheiros a irradiarem sublime luz do peito, como se guardassem lâmpadas acesas dentro do tórax. Em maior parte, são irmãos que aceitaram, com serenidade, as dores longas que a Providência lhes endereçou, a benefício deles mesmos.
Em compensação, tenho sido defrontado por grande número de ex-tuberculosos e ex-leprosos, em lamentável posição de desequilíbrio, afundados, muitos deles, em charcos de trevas porque a moléstia lhes constituiu tão somente motivo à insubmissão.
O doente desesperado é sempre digno de piedade, porque não existe sofrimento sem finalidade de purificação e elevação.
A enfermidade ligeira é aviso.
A queda violenta das forças é advertência.
A doença prolongada é sempre renovação de caminho para o bem.
A moléstia incurável no corpo é reajustamento da alma eterna.
Todos os padecimentos da carne se convertem, com o tempo, em claridade interior, quando o enfermo sabe manter a paciência, aceitando o trabalho regenerativo por bênção da Infinita Bondade.
Quem sustenta a calma e a fé, nos dias de aflição, encontrará a paz com brevidade e segurança, porque a dor, em todas as ocasiões, é a serva bendita de Deus, que nos procura, em nome dele a fim de levar a efeito, dentro de nós, o serviço da perfeição que ainda não sabemos realizar.
Néio Lúcio

Cremos que a leitura desta página nos oferece confortadores pensamentos de paz, consolação, disciplina e esperança.

Ramiro Gama

Obrigado Chico

CHICO E SEU IRMÃO ANDRÉ LUIZ, março 1952

Obrigado ChicoEstava o Chico parado defronte do correio, conversando com seu irmão André, quando um guarda policial passa-lhe por perto e, colocando o braço direito sobre seu ombro, lhe diz:
— Muito obrigado, Chico!
E foi andando.
O Chico ficou intrigado com aquele agradecimento. Não podia atinar com sua causa.
À tarde, ao regressar do serviço, viu defronte a um bar um bloco de trabalhadores da fábrica e, no meio deles, o guarda que o abraçara pela manhã.
Passou mais por perto e observou que o guarda tentava apartar uma briga entre dois irmãos que se malquistaram por coisas de somenos.
O guarda, vendo inúteis seus esforços e porque a discussão já se generalizava envolvendo todo o bloco, tirou da cintura o revólver e ia usá-lo para impor sua autoridade.
O Chico mais que depressa chegou-lhe perto e pediu-lhe:
— Calma, meu irmão.
O guarda voltou-se contrariado, mas reconhecendo o Chico, como que envergonhado do seu ato, exclamou:
— Muito obrigado, Chico!
Controlou-se, usou da palavra, aconselhou e o bloco foi desfeito com o arrefecimento dos ânimos…
À noite, indo o Chico para o Luiz Gonzaga, encontrou-se com o guarda:
— Chico, ia procurá-lo e agradecer-lhe, muito de coração, o bem que você me fez, por duas vezes.
— Por duas vezes? Como?
— Anteontem sonhei com você, que me dizia: – “Cuidado, não saia de casa carregando arma à cintura como sempre o faz. Evite isto por uns dias”.
Por isto é que lhe disse, hoje, pela manhã: “Obrigado, Chico”! Referia-me ao sonho, ao seu aviso. Mas esqueci-me de atendê-lo, pois saí armado e, se não fosse o concurso de nossos amigos espirituais na hora justa teria feito hoje uma grande asneira, poderia até ter matado alguém… Mas a lição ficou, Chico.
— Muito obrigado, Deus nos ajude sempre!…

Ramiro Gama

Um relógio ao doente

Um relógio ao doenteUm confrade presenteou o Chico com um belo relógio de pulso. Aceitou-o porque o confrade insistiu muito. Andou vários dias com ele, admirando-lhe a pontualidade. Mas um dia, a caminho do serviço, lembrou-se de saber, rapidamente, como ia Dona Glória a quem, na véspera, dera um passe e para quem Bezerra receitara uns remédios homeopáticos. — Então, está melhor, Dona Glória. Tomou pontualmente os remédios? — Um pouco melhor, Chico. Só não tenho tomado os remédios com pontualidade porque, como você sabe, sou pobre e ainda não pude comprar um relógio… — Por isto não. E tirando do pulso o relógio que ganhara, disse-lhe sem mais delongas: — Fique com este como lembrança. E deixando a irmã surpresa e emocionada, o Médium partiu, dizendo-lhe na costumeira despedida: — Fique com Deus! Deus a proteja! Como a senhora está precisando de relógio, este deve ser seu.

Ramiro Gama

Mourões juntos

Mourões juntosAlguns confrades do Estado de São Paulo visitaram o Chico e, por alguns dias, gozaram de sua convivência amável e instrutiva.
Um deles mais entusiasmado com os fenômenos a que assistira, admirando a vida simples dos habitantes de Pedro Leopoldo, em nome dos companheiros, disse ao Chico:
— Vamos voltar para São Paulo, vender tudo que temos e, depois, com nossas famílias, viver definitivamente nesta bela cidade, em sua companhia. Assim, acabaremos felizes os nossos dias e poderemos ser mais úteis ao próximo e desenvolver nossos dons mediúnicos..
O Chico ouviu-o com atenção e, amorosamente, lembrou-lhe:
— Talvez não dê certo, caro irmão. O melhor é ficarem onde estão. Depois Emmanuel está dizendo-me ao ouvido que muitos moirões juntos não fazem boa cerca…
E os moirões voltaram para São Paulo e foram segurar suas cercas que sentiam suas ausências.

Ramiro Gama

Nossos caricaturistas

Foto: CHICO E UM AMIGO, EM 1988

Nossos caricaturistasChico chegou a casa de Dona Naná, proprietária do Hotel Diniz, para consolá-la, porque ela passava por provas dolorosas e para lhe dar o resultado auspicioso de uma Sessão que fizera na qual recebera um expressivo esclarecimento para aquela irmã.
Chico, orientado pelos seus Amigos de mais Alto, à frente seu abnegado Guia, ajuda e passa, ampara em silêncio, colabora com todos sem ferir, sem magoar.
Deixando com a cara irmã, mãe extremosa e leal servidora do Cristo, uma réstia de luz, uma palavra de bom ânimo, partiu conosco para a Fazenda.
No caminho, revelou-nos suas observações, suas inquietações pela hora que vivemos.
Na sessão feita, a benefício de irmãos desencarnados, aparecem-lhe espíritos turbulentos, insensíveis aos sofrimentos alheios e que, formando legiões, agem aqui e ali, neste e naquele lar, agravando-lhes as provas.
Precisamos orar por eles, – diz-nos o Chico – e, se possível, amá-los com sinceridade.
Quando em contacto conosco, precisamos auxiliá-los, oferecendo-lhes nossa ajuda. Não sabem o que fazem. Moços, na flor da idade, instrumentais mediúnicos incontroláveis, sem convicções sinceras em matéria de fé, vivem por aí, presos aos seus interesses, atarantados, atristando os corações maternos, tornando-se vítimas fáceis daqueles espíritos.
Lembramos ao Chico o caso dos “caricaturistas”, retratados nesses espíritos, que nos experimentam e são como que nossos caricaturistas, por que aumentam os nossos defeitos de forma tal que, quando com e por eles falimos, ficamos de tal forma derrotados, sentindo nossos defeitos, que propomos a corrigir-nos incontinentemente…
Chico sorriu e objetou-nos:
— Mas precisamos amar a esses caricaturistas, desejar-lhes todo o bem possível para neutralizar-lhes todo o mal e os encaminharmos ao bem. Um favor que fazemos a um seu parente encarnado constitui já um motivo para lhes fazer parar os golpes contra nós e despertar-lhes um pouco de carinho em nosso benefício.
Ajudemo-los com as nossas orações. Auxiliemo-los com nossos pensamentos de amor. Ensinemo-los com nossas boas ações e Jesus finalizará o nosso começo.

Ramiro Gama

Viajando com um Irmão Sacerdote

Chico Xavier e seu amigo Padre Sebastião ScarzelliSentado no ônibus que o levaria a Belo Horizonte, Chico notou que seu companheiro de banco era um Irmão Sacerdote.
Cumprimentou-o e entregou-se à leitura de um bom livro.
O Sacerdote também correspondeu-lhe o cumprimento, abrira um livro sagrado e ficara a lê-lo.
Em meio à viagem, passou o ônibus perto de um lugarejo embandeirado, que comemorava o dia de São Pedro e São Paulo.
O Sacerdote observou aquilo e, depois, virando-se para o Chico comentou:
— Vejo esta festividade em honra de dois grandes Santos, e neste livro, leio a história de São Paulo, cujo autor lhe dá proeminência sobre São Pedro. Não se pode concordar com isto. São Pedro é o Príncipe dos Apóstolos, aquele que recebeu de Jesus as chaves da Igreja.
O Chico, delicadamente, deu sua opinião, e o fez de forma tão simples, revelando grande cultura, que o Sacerdote, que não sabia com quem dialogava, surpreendeu-se e lhe perguntou.
— O Senhor é formado em Teologia, ou possui algum curso superior?
— Não. Apenas cursei até o quarto ano da instrução primária…
— Mas como sabe tanta coisa da vida dos santos, principalmente de São Paulo, de Santo Estevão, de São Pedro, e de outros, realçando-lhes fatos que ignoro?
— Sou médium…
— Então, o senhor é o Chico Xavier, de Pedro Leopoldo?
— Sim, para o servir.
— Então, permita-me que lhe escreva e prometa-me responder minhas cartas, pois tenho muita coisa para lhe perguntar. Faça-me este favor. Afinal, verifico que Deus nos pertence.
— Pode escrever que, de bom grado, lhe responderei. Assim trabalharemos não apenas para que Deus nos pertença, mas para que pertençamos também a Deus, como nos ensina o nosso benfeitor Emmanuel.
E, até hoje, Chico recebe cartas de Irmãos de todas as crenças, particularmente de Sacerdotes bem-intencionados, como o irmão com quem viajou e de quem se tornou amigo.
E, tanto quanto lhe permite o tempo, lhes responde e nas respostas vai distribuindo o Pão Espiritual a todos os famintos, ovelhas do grande redil, em busca do amoroso e Divino Pastor, que é Jesus.

Ramiro Gama

A cruz de ouro e a cruz de palha

Chico e companheiros contam o Hino Alegria Cristã, em 1961Alguns membros da Juventude Espírita do Distrito Federal e de Belo Horizonte visitavam o Chico.
Antes de começar a Sessão do Centro Espírita Luiz Gonzaga, palestravam animadamente sobre assunto de Doutrina e a tarefa destinada aos moços espíritas.
Uma jovem inteligente, desejando orientação e estímulo, colocou o Chico a par das dificuldades encontradas para vencerem o pessimismo de uns, a quietude e a incompreensão de muitos.
Poucos queriam trabalho sacrificial, testemunhador do Roteiro Evangélico, que estava a exigir dos jovens uma vida limpa, correta, vestida de abnegação e renúncia.
Desejavam colher sem semear.
O Chico ouviu e considerou:
—O trabalho das Juventudes, com Jesus, tem que ser mesmo diferente. Sua missão será muito difícil e por isso gloriosa. E recebe de Emmanuel esta elucidação envolvida na roupagem pobre de nosso pensamento:
—Há a cruz de ouro e a cruz de palha, simbolizando nossas Tarefas.
A de ouro, a mais procurada, pertence aos que querem brilhar, ver seus nomes nos jornais, citados, apontados, elogiados, como beneméritos.
Querem simpatia e bom conceito. Se tomam parte em alguma Instituição, desejam, nela, os lugares de mando e de evidência. Querem cargos e não encargos.
A de palha, a menos procurada, no entanto, pertence aos que trabalham como as abelhas, escondidamente e em silêncio.
Lutam e caminham, com humildade, na certeza de que por muito que façam, mais poderiam fazer. Não se ensoberbecem dos triunfos, antes se estimulam e se defendem com oração e vigilância, sentindo a responsabilidade que assumiram como chamados, por Jesus, à Tarefa Diferente.
Entendem a serventia das mãos e dos pés, dos olhos e da mente, do coração, enfim, colocando amor e humildade em seus atos, nos serviços que realizam.
Por carregarem a cruz de palha, toleram o vômito de um, o insulto de mais outro, a incompreensão de muitos, testemunhando a caridade desconhecida, oferecendo, com o sofrimento e a renúncia, com o silêncio e o bom exemplo, remédios salvadores aos companheiros que os adversam, os ferem e desconhecem a vitória da “segunda milha”.
Os jovens presentes estavam satisfeitos. De seus olhos, órgãos musicais da alma, saíam notas gratulatórias exornando o ambiente feliz que viviam.
De mais não precisavam.
Entenderam o Trabalho que lhes cabia realizar nas Terras do Brasil, o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.
Linda lição com vista também aos velhos, a todos que conseguem ouvir Jesus na hora em que poucos O ouvem.

Ramiro Gama

Conteúdo sindicalizado