Na defesa do verme

Um confrade entusiasta elogiava o Chico à queima-roupa, ao fim de movimentada sessão pública, e o Médium desapontado, exclamou:
— Não me elogie desta maneira. Isso é desconcertante. Não passo de um verme neste mundo.

Chico e EmmanuelEmmanuel, junto dele, ouvindo a afirmação, falou-lhe paternal:
— O verme é um excelente funcionário da Lei, preparando o êxito da sementeira pelo trabalho constante no solo e funciona, ativo, na transmutação dos detritos da terra, com extrema fidelidade ao papel de humilde e valioso servidor da natureza… Não insulte o verme, comparando-se a ele, por que muito nos cabe ainda aprender para sermos fiéis a Deus, na posição evolutiva que já conseguimos alcançar…
O Médium transmitiu aos circunstantes o ensinamento que recebeu, ensinamento esse que tem sido igualmente assunto de interesse em nossas meditações.

Ramiro Gama

Dom Negrito

Dom NegritoEste é o nome de um cãozinho preto, luzidio, simpático, para não dizermos espiritualizado que, recente e espontaneamente, aparece as sessões públicas do Centro Espírita Luiz Gonzaga: chega, vagarosa e respeitosamente, dirige-se para o canto em que está o Chico e ali fica, como em estado de concentração e prece, até ao fim dos trabalhos.
A dona do Dom Negrito encontrou-se com Chico e lhe disse:
— Imagine Chico, que o Negrito, às segundas e sextas-feiras, desaparece das 20 às 2 horas da madrugada. E, agora há pouco, é que soube para onde vai: às sessões do “Luiz Gonzaga”.
Isto tem graça? Ele, que é um cão, consegue vencer os obstáculos e procurar os bons ambientes e eu, que sou sua dona, por mais que me esforce, nada consigo…
E o Chico, como sempre útil e bom, a consola:
— Isto tem graça e é uma bela lição. Mas, não fique desanimada por isto; Dom Negrito vem buscar e leva um pouquinho para sua dona e um dia há de trazê-la aqui. Jesus há de ajudar…
Que os tempos estão chegados é uma verdade. Até os cães estão dando lições e empurrões nos seus donos, encaminhando-os com seus testemunhos, à Vereda da Verdade, por meio do Espiritismo, que esclarece, medica, consola e salva.

Ramiro Gama

Uma pergunta da Terra e uma resposta do Céu

Bezerra de MenezesO nosso caro irmão Flávio de Souza Pereira andava apreensivo com relação às visitas que fazia aos irmãos enfermos, portadores de moléstias contagiosas, como a lepra e a tuberculose, visto que vivia sempre recebendo de parentes e amigos menos crentes constantes advertências:
— Olhe lá, cuidado senão você acabará também com a moléstia…
Indo a Pedro Leopoldo, não se conteve e, na sessão a que assistira, com sincera atitude de crente, fez a pergunta:
— Diante da necessidade de assistência direta a um irmão nosso em humanidade, portador de uma moléstia contagiosa como a tuberculose, a lepra, etc., como devemos proceder?
E Chico recebeu do caroável Bezerra de Menezes a seguinte e expressiva resposta:
— Cremos que a higiene não deve funcionar em vão, por isso mesmo, não vemos nenhum motivo de ausência do nosso esforço fraterno, quanto aos nossos irmãos enfermos, a pretexto de preservarmos a nossa saúde, de vez que, também de nós mesmos, temos ainda pesados débitos para resgatar. Evitar o abuso é dever, mas acima de quaisquer impulsos de autodefesa em nossa vida, prevalece a caridade, com seu mandamento de amor, sacrifício e luz.

Ramiro Gama

Olhando as pessoas leio os seus nomes

Chico e casal amigoVisitamos o simpático casal Lauro e Dayse Pastor Almeida.
Ambos admiram o Chico com bastante sinceridade. Sabem alguns casos lindos do Médium e, por isto, fomos visitá-los.
Dona Dayse conta-nos o que lhes sucedeu ao verem o Chico pela primeira vez, quando visitavam Belo Horizonte:
— Tínhamos uma vontade imensa de conhecê-lo. Mas achamos isto tão impossível que nada tentamos para ir a Pedro Leopoldo. Mas, uma noite, às vésperas de regressarmos ao Rio, quando Lauro Pastor acabara sua conferência, finalizando a Semana do Livro Espírita, é que vimos o grande Médium sentado junto aos que compunham a mesa da magnânima sessão.
Quando tudo terminou, espontaneamente, vem ao nosso encontro o Chico, numa atitude tão simples e tão fraterna, como se nos conhecesse há anos. Olha para mim e pronuncia meu nome: Dona Dayse.
Delicadamente corrijo-lhe a pronúncia, verificando que nada sabe de inglês. E ele, natural e humildemente, justifica-se:
— É que estou lendo seu nome como ele é escrito.
Mais tarde, verificamos que, de fato, olhando às pessoas, lê seus nomes…
Na sessão do Centro Espírita Luiz Gonzaga chegam irmãos que passaram anos sem vê-lo e ele, Chico, lhes pronuncia os nomes, particulariza casos, como aconteceu com o Cadete Ulisseia, a quem viu só uma vez. Decorridos três anos, quando o viu entre muitos, citou-lhe o nome, o que surpreendeu e encantou o jovem militar espírita. Agradecidos ao querido casal pela dádiva que nos deu, escrevemos-lhe no álbum, na saída:

Com Jesus e por Jesus
Entramos na sua casa,
Sentindo que nos abrasa
Sua Paz interior.
Ave Cristo, bendizemos.
Dizendo de coração:
Que vivam nesta Oração
A Tarefa do Senhor.

Ramiro Gama

O lavrador e a enxada

FAZENDA MODELO, EM PEDRO LEOPOLDO, ONDE CHICO TRABALHOU 20 ANOS

Fazenda Modelo, Pedro LeopoldoChico Xavier trabalhou durante vinte anos, na Fazenda de Criação do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo.
Certa manhã, caminhava para o trabalho, atravessando largo trecho de campo no rumo do escritório, meditando sobre os trabalhos mediúnicos a que se confiava.
As exigências eram sempre muitas. Como agir para equilibrar-se na tarefa? Surgiam doentes, pedindo socorro…
Aflitos rogavam consolação. Curiosos reclamavam esclarecimentos… Ateus insistiam pela obtenção de fé.
Os problemas eram tantos! Quando curvava a cabeça, desanimado, aparece-lhe Emmanuel e aponta-lhe um quadro a pequena distância. Era um lavrador ativo, manejando uma enxada ao sol nascente.
— Reparou? – disse ele ao Médium – guiada pelo cultivador, a enxada apenas procura servir. Não pergunta se o terreno é seco ou pantanoso, se vai tocar o lodo ou ferir-se entre as pedras…
Não indaga, se vai cooperar em sementeira de flores, batatas, milho ou feijão… Obedece ao lavrador e ajuda sempre. Logo após, fez uma pausa, e considerou:
— Nós somos a enxada nas mãos de Jesus, o Divino Semeador. Aprendamos a servir sem indagar. Chico, tocado pelo ensinamento, experimentou iluminada renovação interior, e disse: — É verdade! O desânimo é um veneno…
— Sim, – concluiu o orientador – a enxada que foge à glória do trabalho, cai na tragédia da ferrugem. Essa é a Lei. O benfeitor despediu-se e o Médium abraçou o trabalho, naquele dia, de coração feliz e a alma nova.

Ramiro Gama

As aparências enganam

Foto: TARDE DE AUTÓGRAFOS IV, 28.01.64

As aparências enganamAlguns companheiros conversavam furiosamente, em Pedro Leopoldo, sobre certo político.
A coisa devia ser assim.
Devia ser de certo modo.
O homem era a perversidade em pessoa.
Prometera isso e fizera aquilo.
Um dos irmãos dirigiu-se ao Médium e perguntou:
—Que diz você, Chico? Temos alguma referência dos Amigos Espirituais sobre o caso?
O interpelado pretendia responder, mas no justo momento, em que ia emitir a sua opinião, ouviu a voz de Emmanuel sussurrar-lhe, segura, aos ouvidos:
—Cale a sua boca. Você nada tem a ver com isso.
O Médium ruborizou-se e o grupo em torno verificou que o Chico não conseguia responder, apesar do desejo de externar-se.
Alguém ponderou que ele deveria estar mal e rodearam-no, em oração, dando-lhe passes.
A reunião dispersou-se.
Não foram poucos os que, estranhando o caso, afirmaram em surdina que o Chico parecia francamente um pobre obsedado.
Mas o fato é que a sombra da maledicência não lhe penetrou o espírito e nem lhe prejudicou, por isto, o clima de elevação, fruto de jejum e oração, em que deve viver, em que vive.
Caso digno de ser seguido por todos que zelam pela vitória de seu dia, policiando o que lhes sai dos lábios…

Ramiro Gama

Aviso oportuno

CHICO E O PROF. H.N.BANERJEE

Aviso oportunoUm grupo de irmãos, reunidos em estudos doutrinários, solicitou de Emmanuel um conselho sobre o melhor modo de evitar a conversação viciosa e inútil.
E o Amigo espiritual respondeu por intermédio do Chico:
—Vocês observem qual é o rendimento espiritual da palestração. Quando tiverem gasto quarenta a sessenta minutos de palavras em assuntos que não digam respeito à nossa própria edificação espiritual, através de nossa melhoria pelo estudo ou de nossa regeneração pessoal com Jesus, façam silêncio, procurando algum serviço porque, pela conversação impensada, a sombra interfere em nosso prejuízo, arrojando-nos facilmente à calúnia e à maledicência.
Estendemos aos nossos leitores este aviso oportuno.

Ramiro Gama

Conversa ou trabalho?

CHICO XAVIER E EMMANUEL

Conversa ou trabalhoNuma singela sala residencial, em Pedro Leopoldo, a conversação ia animada.
Muitos assuntos… Muitas referências…
A palestra começara às cinco da tarde e o relógio anunciava onze da noite.
Chico ia começar uma variação de tema, quando viu Emmanuel a chamá-lo para o interior doméstico.
O Médium pediu licença e foi atender.
— Você sabe que hoje temos a tarefa do livro em recepção e já estamos atrasados, falou o amigo espiritual.
— É verdade, – concordou o Chico – entretanto, tenho visitas e estamos conversando.
— Sem dúvida – considerou o Guia – compreendemos a oportunidade de uma a duas horas de entendimento fraterno para atender aos irmãos sem objetivo, porque, às vezes, através da banalidade, podemos algo fazer na sementeira de luz… Mas não entendo, seis horas a fio de conversação sem proveito.
O Médium nada respondeu.
Indeciso, deixara correr os minutos, quando Emmanuel lhe disse:
— Bem, eu não disponho de mais tempo. Você decide. Converse ou trabalhe.
Chico não mais vacilou.
Deixou a conversação que prosseguia, cada vez mais acesa, na sala, e confiou-se à tarefa que o aguardava com a assistência generosa do benfeitor espiritual.

Ramiro Gama

Indispensável

Foto: FERROVIA ANTIGA

IndispensávelChico recebera um convite reiterado para assistir a uma solenidade que um Centro Espírita de determinado lugar realizaria, um pouco distante de Belo Horizonte.
A carta convite, assinada pelos diretores do Centro, contendo encômios à pessoa do médium, dizia que sua presença era indispensável…
O Chico pensou muito naquele adjetivo, sentiu a preocupação dos irmãos distantes, ansiosos pela sua presença.
Certamente ele realizaria uma grande missão. E não relutou mais.
Junto ao seu bondoso chefe, justificou sua ausência por dois dias, comprou passagem na Central do Brasil e partiu.
No meio da viagem, quando já sonhava com a chegada, pressentindo a alegria dos irmãos, Emmanuel aparece e lhe diz:
—Então, você se julga indispensável e, por isto, rompeu todos os obstáculos e viaja assim como quem, por isto mesmo, vai realizar uma importante tarefa… Já refletiu, Chico, que o serviço do ganha-pão é indispensável a você? Pense bem…
O Chico pensou, pensou e, na próxima estação, desceu do trem e tomou outro de volta…
A lição foi compreendida.
Seus irmãos de mais longe, com seu não comparecimento, com certeza, compreenderam-na também!…

Ramiro Gama

Sonhando com um lar

SOPA FRATERNA, C. E. C, EM 1959

Sonhando com um larO Chico é muito estimado por todos em Pedro Leopoldo. Todos lhe querem bem, homens, mulheres e crianças.
Um grupo de senhoras comentava a solteirice do Chico, quando ele passava. E uma delas disse-lhe:
—Falávamos coisas boas de você, Chico. Que você deveria casar-se, ter uma companheira, um lar seu, viver assim diretamente para alguém…
— Agradeço-lhes muito, minhas irmãs, mas cada um tem a missão que pediu.
Abraçou-as satisfeito e partiu.
E foi pensando no que lhe disseram as caras irmãs.
À noite, a sós, no seu quarto, veio-lhe à lembrança de novo, aquele assunto de casamento.
Entrando em colóquio com a sua consciência, entendeu que era de fato, muito infeliz.
Escreveu uma carta ao seu grande amigo Manoel Quintão e nela exteriorizou seu estado de alma combalido.
Era ele, terminava, como uma árvore seca, de galhos mirrados, sem ninhos, sem flores, sem frutos.
E dormiu.
Sonhara um lindo sonho. Alguém, com quem conversava, certamente inspirado pelo seu querido Guia, explicava-lhe:
—Chico, você sabe bem entender a lição do perfume no vaso. Enquanto aí está, apenas beneficia o vidro que o prende. Fora do vidro, perfuma a tudo e a todos. Você Chico, procure viver não apenas para uma pessoa, mas sim para muitos. E na Tarefa com Jesus, você não se pertencerá porque estará a serviço dele. Lembre-se de que o perfume do Evangelho pertence a todos.
E Chico acordou mais alegre.
Ficou satisfeito com a sua tarefa; apenas não pode acreditar que seja perfume…
Mas sua irmã Geralda, a quem conhecêramos em Belo Horizonte, justificando os elogios que lhe fazíamos do irmão, dizia-nos:
—Não, ele não é nosso irmão apenas: foi, tem sido e é a nossa Mãe também…

Ramiro Gama

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