Blog de Valim

Temporária separação

Espírito da Mãe aparece ao ChicoContinuando os desequilíbrios do Chico, em janeiro de 1920, João Cândido Xavier, seu pai, pediu ao padre que fosse mais exigente com a criança, no confessionário.
O sacerdote concordou com a sugestão…
Quando o vigário lhe ouvia as referências sobre as rápidas entrevistas com Dona Maria João de Deus, desencarnada desde 1915, falou-lhe francamente:
— Não, meu filho. Isso não pode ser. Ninguém volta a conversar depois da morte. O demônio procura perturbar-lhe o caminho…
— Mas, padre, foi minha mãe quem veio…
— Foi o demônio.
Severamente repreendido pelo vigário, o menino calou-se, chorando muito.
O Sr. João Cândido, católico, de Santa Luzia do Rio das Velhas, deu razão ao padre.
Aquilo só podia ser o demônio.
Chico refugiou-se no carinho da madrasta, alma compreensiva e boa.
E Dona Cidália lhe disse:
— Você não deve chorar, meu filho. Ninguém pode dizer que você esteja perseguido pelo demônio. Se for realmente sua mãezinha quem veio conversar com você, naturalmente isso acontece porque Deus permite. E Deus estando no assunto ajudará para que isso tudo fique esclarecido.
À noite desse dia, Chico sonhou que reencontrava a progenitora.
Dona Maria abraçou-o e recomendou:
— Repito que você deve obedecer a seu pai e ao vigário. Não brigue por minha causa. Por algum tempo você não mais me verá, contudo, se Jesus permitir, mais tarde estaremos mais juntos.
Não perca a paciência e esperemos o tempo.
Chico acorda em pranto, enxugando os olhos, resignado.
E, por sete anos consecutivos, não mais teve qualquer contacto pessoal com a mãezinha, para somente receber-lhe as mensagens psicografadas em 1927 e revê-la, de novo, pela vidência mais clara e mais segura, em 1931, quando mais familiarizado com o serviço mediúnico, ao qual se entregara de coração.

Ramiro Gama

A lição da obediência

De novo reunido à família, Chico Xavier, fosse por que tivesse retornado à tranquilidade ou por que houvesse ingressado na escola, não mais viu o Espírito da mãezinha desencarnada.
Entretanto, passou a ter sonhos.
À noite, no repouso agitado, levantava-se do leito, conversava com interlocutores invisíveis e, muitas vezes, despertava pela manhã, trazendo notícias de parentes mortos, contando peripécias ou narrando sucesso que ninguém podia compreender.

Padre Sebastião ScarzelliJoão Cândido Xavier, a conselho da segunda esposa, que se interessava maternalmente pela criança, conduziu Chico ao padre Sebastião Scarzelli, antigo vigário da cidade de Matozinhos, nas vizinhanças de Pedro Leopoldo, que depois de ouvir o menino, por algumas vezes, em confissão, aconselhou João Cândido a impedir que o rapazinho lesse jornais, livros ou revistas.
Chico devia estar impressionado com más leituras – dizia o sacerdote – aqueles sonhos não eram outra coisa senão perturbações, porque as almas não voltam do outro mundo…
Intrigado por ver que ninguém dava crédito ao que via e escutava, em sonhos, certa noite, rogou, em lágrimas, alguma explicação da progenitora de quem não se esquecia.
Dona Maria João de Deus apareceu-lhe no sonho, calma e bondosa, e o Chico deu-lhe a conhecer as dificuldades em que vivia.
Ninguém acreditava nele – clamou. Mas o conselho maternal veio logo:
— Você não deve exasperar-se. Sem humildade, é impossível cumprir uma boa tarefa.
Mas, mamãe, ninguém acredita em mim…
— Que tem isso, meu filho?
— Mas eu digo a verdade.
— A verdade é de Deus, e Deus sabe o que faz, – disse a generosa entidade.
Chico, porém, choramingou:
— Não sei se a senhora sabe, papai e o padre estão contra mim… Dizem que estou perturbado…
Dona Maria abraçou-o e disse:
— Modifique seus pensamentos. Você é ainda uma criança e uma criança indisciplinada cresce com a desconfiança e com a antipatia dos outros.
Não falte ao respeito para com seu pai e para com o padre. Eles são mais velhos e nos desejam todo o bem. Aprenda a calar-se. Quando você lembrar alguma lição ou alguma experiência recebidas em sonho, fique em silêncio. Se for permitido por Jesus, então, mais tarde virá o tempo em que você poderá falar. Por enquanto, você precisa aprender a obediência para que Deus, um dia, conceda ao seu caminho a confiança dos outros.
Desde essa noite, Chico calou-se e Dona Maria João de Deus passou algum tempo sem fazer-se visível.

Ramiro Gama

Horta educativa

Horta educativaQuando Dona Cidália reuniu os filhos menores de Dona Maria João de Deus, observou que eles precisavam do grupo escolar.
O Sr. Cândido Xavier, pai da numerosa família, foi consultado.
Entretanto, a situação era difícil.
O ano de 1918, época a que nos referimos, marcara a passagem da gripe espanhola.
Tudo era crise, embaraço.
E o salário, no fim de mês, dava escassamente para o necessário.
Não havia dinheiro para cadernos, lápis e livros.
A madrasta, alma generosa e amiga, chamou o enteado e lembrou:
— Chico, vocês precisam ir à escola. E como não há recurso para isso, vamos plantar uma horta. Adubaremos a terra, plantarei os legumes e você fará a venda na rua... Com o resultado, espero que tudo se arranje.
— A senhora pode contar comigo, – prometeu o menino.
A horta foi plantada.
Em algumas semanas, Chico já podia sair à rua com o cesto de verduras.
— Olhe a couve, a alface! Almeirão e repolho!…
E o povo comprava.
Cada molho de couve ou cada repolho valia um tostão.
Dona Cidália guardava o produto financeiro num cofre.
Quando abriram o cofre, Dona Cidália, feliz falou para o enteado:
— Você está vendo o valor do serviço? Agora vocês já podem frequentar as aulas do grupo.
E foi assim que, em janeiro de 1919, Chico Xavier começou o A, B, C.

A história da chave

Com a saída do chefe da casa e dos filhos mais velhos para o trabalho e com a ausência das crianças na escola, Dona Cidália era obrigada, por vezes, a deixar a casa, a sós, porque devia buscar lenha, à distância.
Aí começou uma dificuldade.
Certa vizinha, vendo a casa fechada, ia ao quintal e colhia as verduras.
A madrasta bondosa preocupou-se.
Sem verduras não haveria dinheiro para o serviço escolar.
Dona Cidália observou... Observou...
E ficou sabendo que lhes subtraía os recursos da horta; entretanto, repugnava-lhe a ideia de ofender uma pessoa amiga por causa de repolhos e alfaces.
Chamou, então, o Chico e lembrou.
— Meu filho, você diz que, às vezes, encontra o Espírito de Dona Maria. Peça-lhe um conselho. Nossa horta está desaparecendo e, sem ela, como sustentar o serviço da escola?
Chico procurou o quintal à tardinha e rezou e, como das outras vezes, a mãezinha apareceu.
O menino contou-lhe o que se passava e pediu-lhe socorro.
D. Maria então lhe disse:
— Você diga à Cidália que realmente não devemos brigar com os vizinhos que são sempre pessoas de quem necessitamos. Será então aconselhável que ela dê a chave da casa à amiga que vem talando a horta, sempre que precise ausentar-se, porque, desse modo a vizinha, em vez de prejudicar os legumes, nos ajudará a tomar conta deles.
Dona Cidália achou o conselho excelente e cumpriu a determinação.
Foi assim que a vizinha não mais tocou nas hortaliças, porque passou a responsabilizar-se pela casa inteira.

Ramiro Gama

O valor da oração

Foto:CHICO E SUA MÃE

Chico e sua mãeA madrinha do Chico, por vezes, passava tempos entregue a obsessão.
Assim é que, nessas fases, a exasperação dela era mais forte.
Em algumas ocasiões, por isso, condenava o menino a vários dias de fome.
Certa feita, já fazia três dias que a criança permanecia em completo jejum.
À tarde, na hora da prece, encontrou a mãezinha desencarnada que lhe perguntou o motivo da tristeza com a qual se apresentava.
— Então, a senhora não sabe – explicou o Chico – tenho passado muita fome.
— Ora, você está reclamando muito, meu filho! – disse Dona Maria João de Deus – menino guloso tem sempre indigestão.
— Mas hoje bem que eu queria comer alguma coisa…
A mãezinha abraçou-o e recomendou:
— Continue na oração e espere um pouco.
O menino ficou repetindo as palavras do Pai Nosso e daí a instantes um grande cão da rua penetrou o quintal.
Aproximou-se dele e deixou cair da bocarra um objeto escuro.
Era um jatobá saboroso...
Chico recolheu alegre, o pesado fruto, ao mesmo tempo em que reviu a mãezinha ao seu lado, acrescentando.
— Misture o jatobá com água e você terá um bom alimento.
E, despedindo-se da criança, acentuou:
— Como você observa meu filho, quando oramos com fé viva até um cão pode nos ajudar, em nome de Jesus.

Tenha paciência meu filho

Foto:MARIA JOÃO DE DEUS

Maria João de DeusQuando Dona Maria João de Deus desencarnou, em 29 de setembro de 1915, Chico Xavier, um de seus nove filhos, foi entregue aos cuidados de Dona Rita de Cássia, velha amiga e madrinha da criança.
Dona Rita, porém, era obsedada e, por qualquer bagatela, se destemperava, irritadiça.
Assim é que o Chico passou a suportar, por dia, várias surras de varas de marmeleiro, recebendo, ainda, a penetração de pontas de garfos no ventre, porque a neurastênica e perversa senhora inventara esse estranho processo de torturar.
O garoto chorava muito, permanecendo horas e horas, com os garfos dependurados na carne sanguinolenta e corria para o quintal, a fim de desabafar e, porque a madrinha repetia, nervosa:
— Este menino tem o diabo no corpo.
Um dia, lembrou-se a criança de que a Mãezinha orava sempre, todos os dias, ensinando-o a elevar o pensamento a Jesus e sentiu falta da prece que não encontrava em seu novo lar.
Ajoelhou-se sob velhas bananeiras e pronunciou as palavras do Pai Nosso que aprendera dos lábios maternais.
Quando terminou, oh! maravilha!
Sua progenitora, Dona Maria João de Deus, estava perfeitamente viva ao seu lado.
Chico, que ainda não lidara com as negações e dúvidas dos homens, nem por um instante pensou que a Mãezinha tivesse partido para as sombras da morte.
Abraçou-a, feliz, e gritou:
— Mamãe, não me deixe aqui... Carregue-me com a senhora...
— Não posso, – disse a entidade, triste.
— Estou apanhando muito, mamãe!
Dona Maria acariciou-o e explicou:
— Tenha paciência, meu filho. Você precisa crescer mais forte para o trabalho. E quem não sofre não aprende a lutar.
— Mas, – tornou a criança – minha madrinha diz que eu estou com o diabo no corpo.
— Que tem isso? Não se incomode. Tudo passa e se você não mais reclamar, se você tiver paciência, Jesus ajudará para que estejamos sempre juntos.
Em seguida, desapareceu.
O pequeno, aflito, chamou-a em vão.
Desde esse dia, no entanto, passou a receber o contato de varas e garfos sem revolta e sem lágrimas.
— Chico é tão cínico – dizia Dona Rita, exasperada, – que não chora, nem mesmo a pescoção.
Porque a criança explicava ter a alegria de ver sua mãe, sempre que recebia as surras, sem chorar, o pessoal doméstico passou a dizer que ele era um “menino aluado”.
E, diariamente, à tarde, com os vergões na pele e com o sangue a correr-lhe em pequeninos filetes do ventre o pequeno seguia, de olhos enxutos e brilhantes, para o quintal, a fim de reencontrar a mãezinha querida, sob as velhas árvores, vendo-a e ouvindo-a, depois da oração.
Assim começou a luta espiritual do médium extraordinário que conhecemos.

Ramiro Gama

Amorável Jesus, estamos de retorno

Jesus CristoOntem, nesse passado sempre presente, ouvimos-te nas paisagens formosas da gentil Galileia e fascinamo-nos com os Teus sublimes ensinamentos.
Tocados sinceramente no coração, resolvemos seguir-te à distância através dos tempos, vivendo e cantando a Tua mensagem libertadora.
No entanto, o mundo que enfrentamos não era semelhante às praias formosas e calmas de Cafarnaum e deixamo-nos vencer pelas ondas encapeladas, pelo tumulto das nossas paixões não apaziguadas, afogando-nos lamentavelmente.
Durante largo período em que procuramos retornar ao Teu rebanho de amor, somente complicamos a conduta, cada vez afundando mais nas águas revoltas do desespero íntimo.
Sentíamos saudades de Ti e não conseguíamos decodificar corretamente. Por isso, fugíamos de nós mesmos, buscando fora o que somente é possível encontrar no interior dos sentimentos profundos.
Enquanto nos ensinavas correr para o deserto, para acalmar a febre das paixões primitivas, atiravamo-nos nas labaredas dos incêndios morais em gozos alucinantes.
Largo tempo transcorreu desde aqueles dias inolvidáveis.
Mas Tu não desististe de nós e nos trouxeste às regiões calmantes do Teu coração.
Retornamos na condição do homem que foi assaltado na descida de Jerusalém para Jericó e socorrido pelo samaritano.
Com a alma em frangalhos, recebemos o bálsamo e o carinho da misericórdia do Céu em Teu nome e nos erguemos.
Agora estamos de volta à Tua barca e ouvimos-te outra vez cantando os hinos de eterna beleza de que se enriquecem os nossos corações.
As baladas das bem-aventuranças comovem-nos de maneira muito especial e os Teus convites de afeto e alegria de viver e de servir, dão-nos resistência para vencermos o mal interno e acompanhar-te na áspera subida e permanência na perversa e imensa Jerusalém da sociedade contemporânea.
O mundo estertora e desejamos acalmá-lo, iniciando a revolução da paz no próprio coração e alongando-a pelas terras desérticas das vidas estioladas mediante as chuvas de gentilezas e amizades, evocando-te as atitudes e repetindo-as.
Continuamos ouvindo o Teu poema de luz e de liberdade total, com a musicalidade sublime do amor que nos enriquece e plenifica.
Direciona o Teu olhar para nós e acolhe-nos novamente, sorrindo, como se estivesses a dizer:
- Sejam bem-vindos, filhos diletos de meu Pai!
...E acolhe-nos.

Pelo Espírito Amélia Rodrigues.
Página psicografada por Divaldo P Franco,
na manhã de 30 de janeiro de 2014,em Jerusalém, Israel.

A Verdadeira propriedade

O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza durante sua permanência na terra; mas, desde que é forçado a deixá-los, é claro que só tem o usufruto, e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste. Dele depende estar mais rico ao partir do que ao chegar neste mundo, porque a sua posição futura depende do que ele houver adquirido no bem.
Quando um homem parte para um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos de uso nesse país, e não se carrega de coisas que lhe seriam inúteis. Fazei, pois, o mesmo, em relação à vida futura, aprovisionando-vos de tudo o que nela vos poderá servir.
Ao viajante que chega a uma estalagem, se ele pode pagar, é dado um bom alojamento; ao que pode menos, é dado um pior; e o que nada tem, é deixado ao relento. Assim acontece com o homem, quando chega ao mundo dos Espíritos: sua posição depende de suas posses, com a diferença de que não pode pagar em ouro. Não se lhe perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: O que trazes? Não será computado o valor dos seus bens, nem dos seus títulos, mas serão contadas as suas virtudes, e nesse cálculo o operário talvez seja considerado mais rico do que o príncipe. Em vão alegará o homem que, antes de partir, pagou em ouro a sua entrada no céu, pois terá como resposta: as posições daqui não são compradas, mas ganhas pela prática do bem; com o dinheiro podes comprar terras, casas, palácios; mas aqui só valem as qualidades do coração. És rico dessas qualidades? Então, sejas bem-vindo, e teu é o primeiro lugar, onde todas as venturas te esperam. És pobre? Vai para o último, onde serás tratado na razão de teus posses.

Pascal - Genebra, 1860
O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI

Uma conversão

Revista Espírita, janeiro de 1858

Embora sob um outro ponto de vista, não será menor o interesse oferecido pela evocação seguinte.
Um senhor, que designaremos pelo nome de Georges, farmacêutico numa cidade do Sul, há muito havia perdido o pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O velho Georges aliava a uma instrução muito vasta todas as qualidades que marcam o homem de bem, posto professasse ideias materialistas. A este respeito o filho partilhava das mesmas ideias, se não ultrapassava as do pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O espiritismo não se adaptava a tais pensamentos. A leitura do Livro dos Espíritos, entretanto, provocou-lhe uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Dizia: “Se meu pai pudesse me responder, eu não duvidaria mais”. Foi, então, que se fez a evocação seguinte, na qual encontramos diversos ensinamentos:

1. Em nome de Deus, Todo Poderoso, Espírito de meu pai, eu lhe peço que se manifeste. O senhor está junto de mim?
—Sim.
2. Porque o senhor não se manifesta diretamente a mim, quando tanto nos amamos?
—Mais tarde.
2. Poderemos nos encontrar um dia?
—Sim, breve.
3. Amar-nos-emos com nesta vida?
—Mais.
4. Em que meio o senhor se acha?
—Sou feliz.
5. O senhor reencarnou ou está errante?
—Errante por pouco tempo.
6. Que sensação experimentou ao deixar o envoltório corporal?
—De perturbação.
7. Quanto tempo durou a perturbação?
—Pouco para mim, muito para você.
8. Pode avaliar a sua duração, de acordo com o nosso modo de contar?
—Dez anos para você, dez minutos para mim.
9. Mas eu não o perdi há tanto tempo. Não há somente quatro meses?
—Se você, como vivo, estivesse em meu lugar, teria sentido aquele tempo.
10. Crê, agora, em um Deus justo e bom?
—Sim.
11. Quando vivo na Terra também acreditava?
—Eu tinha a presciência mas não acreditava.
12. Deus é Todo Poderoso?
—Não subi até Ele, para avaliar o seu poder: só Ele conhece os limites de seu poder, porque só Ele é seu igual.
13. Ele se ocupa com os homens?
—Sim.
14. Seremos punidos ou recompensados conforme nossos atos?
—Se você fizer o mal, sofrerá.
15. Serei recompensado se fizer o bem?
—Avançará em seu caminho.
16. Estou no bom caminho?
—Faça o bem e verá.
17. Creio ser bom; mas seria melhor se um dia o pudesse encontrar, como recompensa.
—Que este pensamento o sustente e o encoraje.
18. Meu filho será como seu avô?
—Desenvolva suas virtudes e extirpe seus vícios.
19. Isto é tão maravilhoso que chego a não crer que nos comunicamos neste momento.
—De onde lhe vem a dúvida?
20. É que, partilhando de suas opiniões filosóficas, fui levado a atribuir tudo à matéria.
—Você vê de noite aquilo que vê de dia?
21. Meu pai, então eu me acho na noite?
—Sim.
22.Que é que o senhor vê de mais maravilhoso?
—Explique-se melhor.
23. Encontrou minha mãe, minha irmã e Ana, a boa Ana?
—Eu as revi.
24. O senhor volta a vê-las quando quiser?
—Sim.
25. É penoso ou agradável que me comunique com o senhor?
—É uma felicidade para mim, se eu lhe puder fazer o bem.
26. Voltando para casa, que poderia fazer para me comunicar com o senhor, já que lhe dá prazer? Serviria para que me conduzisse melhor e me ajudaria a educar os meus filhos?
—Cada vez que um movimento o levar ao bem eu ali estarei; inspirá-lo-ei.
27. Calo-me com receio de o importunar.
—Fale ainda, se quiser.
28. Já que o permite, farei mais algumas perguntas. De que afecção o senhor morreu?
—Minha prova havia chegado a termo.
29. O senhor contraiu o abscesso pulmonar que se manifestou?
—Pouco importa; o corpo nada é; o Espírito é tudo.
30. Qual a natureza da doença que me desperta, tão frequentemente, durante a noite?
—Sabê-lo-á mais tarde.
31. Considero minha afecção grave e queria ainda viver para os meus filhos.
—Ela não o é. O coração do homem é uma máquina de vida; deixe a Natureza agir.
32. Sob que forma o senhor aqui se acha?
—Sob a aparência de minha forma corpórea.
33. Encontra-se num determinado lugar?
—Sim; por detrás de Ermance (a médium).
34. Poderia tornar-se visível?
—Não vale a pena. Vocês teriam medo.
35. O senhor nos vê a todos aqui presentes?
—Sim.
36. Quer dizer alguma coisa a cada um de nós?
—Em que sentido me faz esta pergunta?
37. Do ponto de vista moral.
—De outra vez; por hoje basta.


Atualmente o sr. Georges não só deixou de ser materialista, mas é um dos adeptos mais fervorosos e mais dedicados do Espiritismo, o que faz duplamente feliz, pela confiança que agora tem no futuro e pelo prazer que experimenta em praticar o bem.
Esta evocação, inicialmente muito simples, não é menos notável em muitos aspectos. O caráter do velho Georges reflete-se nas respostas breves e sentenciosas, que estavam em seus hábitos: falava pouco, jamais dizia uma palavra inútil; mas já não é o céptico que fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, e retrata a unidade e o poder de Deus por estas palavras admiráveis:
“Só Ele é seu igual”.
Ele, que em vida tudo atribuía à matéria,, diz agora: “O corpo nada é; o Espírito é tudo”; e esta outra frase sublime: “Você vê de noite aquilo que vê de dia”? Para o observador atento, tudo tem um alcance; e é assim que, a cada passo, encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.

Allan Kardec

Mamãe, aqui estou

Revista Espírita - Janeiro de 1858

Uma senhora havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade.
Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia, incessantemente, que em breve iria reunir-se à filha.
Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de além-túmulo, ela resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas, pouco afeitas, uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão:
A mãe: Em nome de Deus, Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.
Júlia: Mamãe, aqui estou!
A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?
Júlia: Lili.
Observação: (Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamavam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar a emoção, a mãe rompeu em soluços).
Júlia: Mãe, porque te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.
A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?
Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha não sobre a Sra. X (a médium), para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).
A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?
Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?
A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?
Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.
A mãe: Com efeito eu te vi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.
Júlia: Não; sou eu mesma, que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z: ele não é sincero.
Observação: Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim, espontaneamente, era uma nova prova da identidade do Espírito que se manifestava).
A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z?
Júlia: Não te posso dizer, isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.
A mãe: Estás entre os anjos?
Júlia: Oh! ainda não: não sou bastante perfeita.
A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito, eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?
Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas, agora, vejo o que me falta para ser perfeita.
A mãe: Como adquirirás essa qualidades que te faltam?
Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.
A mãe: É na Terra que terás novas existências?
Júlia: Nada sei a respeito.
A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, porque sofreste tanto?
Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!
Observação: Ante fatos como esta, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre ambas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos.
Apesar da discrição em que envolvemos esta relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento!
Acrescentamos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntamos como poderiam provar que o Espírito desta jovem fosse um demônio malfazejo!

Senhorita Clary

A senhorita Clary, interessante menina, falecida em 1850, aos 13 anos de idade, desde então ficou como o gênio da família, onde é evocada com frequência e onde dá um grande número de comunicações do mais alto interesse. A palestra que damos a seguir ocorreu entre nós a 12 de janeiro de 1857, por intermédio de seu irmão, que é médium:
1. Tem uma lembrança precisa de sua existência corporal?
—O Espírito vê o presente, o passado e um pouco do futuro, conforme sua perfeição e a proximidade de Deus.
2. Esta condição de perfeição é relativa apenas ao futuro, ou se refere igualmente ao presente e ao passado?
—O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se aproxima de Deus. Depois da morte a alma vê e abarca, de um relance, todas as passadas migrações, mas não pode ver aquilo que Deus lhe prepara. Para isto é preciso que esteja inteiramente em Deus, desde muitas existências.
3. Sabe em que época será sua reencarnação?
—Em dez ou em cem anos.
4. Na Terra ou em outro mundo?
—Num outro.
5. O mundo para onde irá, comparado com a Terra, terá condições melhores, iguais ou inferiores?
—Muito melhores que as da Terra; lá se é feliz.
6. Desde que aqui se encontra, está num lugar qualquer; qual é ele?
—Estou em aparência etérea; posso dizer que meu Espírito, propriamente dito, estende-se muito mais longe; vejo muitas coisas e me transporto para muito longe daqui com a velocidade do pensamento; minha aparência está à direita de meu irmão e guia-lhe o braço.
7. Este corpo etéreo, de que se reveste, permite-lhe experimentar sensações físicas, como por exemplo, de calor e de frio?
—Quando me lembro muito de meu corpo sinto uma espécie de impressão, como quando se tira um manto e se fica com a sensação de que, por algum tempo, ainda se está com ele.
8. Disse que pode transportar-se com a velocidade do pensamento; o pensamento não é a própria alma que se desprende de seu envoltório?
—Sim.
9. Quando seu pensamento se dirige a alguma parte, como se dá a separação de sua alma?
—A aparência se esvai; o pensamento vai só.
10. É, pois, uma faculdade que se destaca; o ser fica onde está?
—A forma não é o ser.
11. Mas, como age o pensamento? Não age sempre por meio da matéria?
—Não.
12. Quando sua faculdade de pensar se destaca, você não age, então, por meio da matéria?
—A sombra se esvai; e reproduz-se onde o pensamento a guia.
13. Desde que você tinha apenas treze anos quando seu corpo morreu, como é que, sobre perguntas tão abstratas, pode nos dar respostas que estão fora do alcance de uma criança de sua idade?
—Minha alma é muito antiga!
14. Entre suas existências anteriores pode citar-nos uma na qual tivesse elevado ao máximo os seus conhecimentos?
—Estive no corpo de um homem que tornei virtuoso; depois de sua morte estive no corpo de uma menina cujo rosto estampava a própria alma; Deus me recompensa.
15. Poderia ser-nos concedido vê-la aqui tal qual é atualmente?
—Poderia.
16. Como seria possível? Depende de nós, de você ou das pessoas mais íntimas?
—De vocês.
17. Que condições deveríamos satisfazer para consegui-lo?
—Recolherem-se algum tempo, com fé e fervor; ser menos numerosos, isolarem-se um pouco e arranjar um médium do gênero "Home".

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