Blog de Valim

Um relógio ao doente

Um relógio ao doenteUm confrade presenteou o Chico com um belo relógio de pulso. Aceitou-o porque o confrade insistiu muito. Andou vários dias com ele, admirando-lhe a pontualidade. Mas um dia, a caminho do serviço, lembrou-se de saber, rapidamente, como ia Dona Glória a quem, na véspera, dera um passe e para quem Bezerra receitara uns remédios homeopáticos. — Então, está melhor, Dona Glória. Tomou pontualmente os remédios? — Um pouco melhor, Chico. Só não tenho tomado os remédios com pontualidade porque, como você sabe, sou pobre e ainda não pude comprar um relógio… — Por isto não. E tirando do pulso o relógio que ganhara, disse-lhe sem mais delongas: — Fique com este como lembrança. E deixando a irmã surpresa e emocionada, o Médium partiu, dizendo-lhe na costumeira despedida: — Fique com Deus! Deus a proteja! Como a senhora está precisando de relógio, este deve ser seu.

Ramiro Gama

Mourões juntos

Mourões juntosAlguns confrades do Estado de São Paulo visitaram o Chico e, por alguns dias, gozaram de sua convivência amável e instrutiva.
Um deles mais entusiasmado com os fenômenos a que assistira, admirando a vida simples dos habitantes de Pedro Leopoldo, em nome dos companheiros, disse ao Chico:
— Vamos voltar para São Paulo, vender tudo que temos e, depois, com nossas famílias, viver definitivamente nesta bela cidade, em sua companhia. Assim, acabaremos felizes os nossos dias e poderemos ser mais úteis ao próximo e desenvolver nossos dons mediúnicos..
O Chico ouviu-o com atenção e, amorosamente, lembrou-lhe:
— Talvez não dê certo, caro irmão. O melhor é ficarem onde estão. Depois Emmanuel está dizendo-me ao ouvido que muitos moirões juntos não fazem boa cerca…
E os moirões voltaram para São Paulo e foram segurar suas cercas que sentiam suas ausências.

Ramiro Gama

Nossos caricaturistas

Foto: CHICO E UM AMIGO, EM 1988

Nossos caricaturistasChico chegou a casa de Dona Naná, proprietária do Hotel Diniz, para consolá-la, porque ela passava por provas dolorosas e para lhe dar o resultado auspicioso de uma Sessão que fizera na qual recebera um expressivo esclarecimento para aquela irmã.
Chico, orientado pelos seus Amigos de mais Alto, à frente seu abnegado Guia, ajuda e passa, ampara em silêncio, colabora com todos sem ferir, sem magoar.
Deixando com a cara irmã, mãe extremosa e leal servidora do Cristo, uma réstia de luz, uma palavra de bom ânimo, partiu conosco para a Fazenda.
No caminho, revelou-nos suas observações, suas inquietações pela hora que vivemos.
Na sessão feita, a benefício de irmãos desencarnados, aparecem-lhe espíritos turbulentos, insensíveis aos sofrimentos alheios e que, formando legiões, agem aqui e ali, neste e naquele lar, agravando-lhes as provas.
Precisamos orar por eles, – diz-nos o Chico – e, se possível, amá-los com sinceridade.
Quando em contacto conosco, precisamos auxiliá-los, oferecendo-lhes nossa ajuda. Não sabem o que fazem. Moços, na flor da idade, instrumentais mediúnicos incontroláveis, sem convicções sinceras em matéria de fé, vivem por aí, presos aos seus interesses, atarantados, atristando os corações maternos, tornando-se vítimas fáceis daqueles espíritos.
Lembramos ao Chico o caso dos “caricaturistas”, retratados nesses espíritos, que nos experimentam e são como que nossos caricaturistas, por que aumentam os nossos defeitos de forma tal que, quando com e por eles falimos, ficamos de tal forma derrotados, sentindo nossos defeitos, que propomos a corrigir-nos incontinentemente…
Chico sorriu e objetou-nos:
— Mas precisamos amar a esses caricaturistas, desejar-lhes todo o bem possível para neutralizar-lhes todo o mal e os encaminharmos ao bem. Um favor que fazemos a um seu parente encarnado constitui já um motivo para lhes fazer parar os golpes contra nós e despertar-lhes um pouco de carinho em nosso benefício.
Ajudemo-los com as nossas orações. Auxiliemo-los com nossos pensamentos de amor. Ensinemo-los com nossas boas ações e Jesus finalizará o nosso começo.

Ramiro Gama

Viajando com um Irmão Sacerdote

Chico Xavier e seu amigo Padre Sebastião ScarzelliSentado no ônibus que o levaria a Belo Horizonte, Chico notou que seu companheiro de banco era um Irmão Sacerdote.
Cumprimentou-o e entregou-se à leitura de um bom livro.
O Sacerdote também correspondeu-lhe o cumprimento, abrira um livro sagrado e ficara a lê-lo.
Em meio à viagem, passou o ônibus perto de um lugarejo embandeirado, que comemorava o dia de São Pedro e São Paulo.
O Sacerdote observou aquilo e, depois, virando-se para o Chico comentou:
— Vejo esta festividade em honra de dois grandes Santos, e neste livro, leio a história de São Paulo, cujo autor lhe dá proeminência sobre São Pedro. Não se pode concordar com isto. São Pedro é o Príncipe dos Apóstolos, aquele que recebeu de Jesus as chaves da Igreja.
O Chico, delicadamente, deu sua opinião, e o fez de forma tão simples, revelando grande cultura, que o Sacerdote, que não sabia com quem dialogava, surpreendeu-se e lhe perguntou.
— O Senhor é formado em Teologia, ou possui algum curso superior?
— Não. Apenas cursei até o quarto ano da instrução primária…
— Mas como sabe tanta coisa da vida dos santos, principalmente de São Paulo, de Santo Estevão, de São Pedro, e de outros, realçando-lhes fatos que ignoro?
— Sou médium…
— Então, o senhor é o Chico Xavier, de Pedro Leopoldo?
— Sim, para o servir.
— Então, permita-me que lhe escreva e prometa-me responder minhas cartas, pois tenho muita coisa para lhe perguntar. Faça-me este favor. Afinal, verifico que Deus nos pertence.
— Pode escrever que, de bom grado, lhe responderei. Assim trabalharemos não apenas para que Deus nos pertença, mas para que pertençamos também a Deus, como nos ensina o nosso benfeitor Emmanuel.
E, até hoje, Chico recebe cartas de Irmãos de todas as crenças, particularmente de Sacerdotes bem-intencionados, como o irmão com quem viajou e de quem se tornou amigo.
E, tanto quanto lhe permite o tempo, lhes responde e nas respostas vai distribuindo o Pão Espiritual a todos os famintos, ovelhas do grande redil, em busca do amoroso e Divino Pastor, que é Jesus.

Ramiro Gama

A cruz de ouro e a cruz de palha

Chico e companheiros contam o Hino Alegria Cristã, em 1961Alguns membros da Juventude Espírita do Distrito Federal e de Belo Horizonte visitavam o Chico.
Antes de começar a Sessão do Centro Espírita Luiz Gonzaga, palestravam animadamente sobre assunto de Doutrina e a tarefa destinada aos moços espíritas.
Uma jovem inteligente, desejando orientação e estímulo, colocou o Chico a par das dificuldades encontradas para vencerem o pessimismo de uns, a quietude e a incompreensão de muitos.
Poucos queriam trabalho sacrificial, testemunhador do Roteiro Evangélico, que estava a exigir dos jovens uma vida limpa, correta, vestida de abnegação e renúncia.
Desejavam colher sem semear.
O Chico ouviu e considerou:
—O trabalho das Juventudes, com Jesus, tem que ser mesmo diferente. Sua missão será muito difícil e por isso gloriosa. E recebe de Emmanuel esta elucidação envolvida na roupagem pobre de nosso pensamento:
—Há a cruz de ouro e a cruz de palha, simbolizando nossas Tarefas.
A de ouro, a mais procurada, pertence aos que querem brilhar, ver seus nomes nos jornais, citados, apontados, elogiados, como beneméritos.
Querem simpatia e bom conceito. Se tomam parte em alguma Instituição, desejam, nela, os lugares de mando e de evidência. Querem cargos e não encargos.
A de palha, a menos procurada, no entanto, pertence aos que trabalham como as abelhas, escondidamente e em silêncio.
Lutam e caminham, com humildade, na certeza de que por muito que façam, mais poderiam fazer. Não se ensoberbecem dos triunfos, antes se estimulam e se defendem com oração e vigilância, sentindo a responsabilidade que assumiram como chamados, por Jesus, à Tarefa Diferente.
Entendem a serventia das mãos e dos pés, dos olhos e da mente, do coração, enfim, colocando amor e humildade em seus atos, nos serviços que realizam.
Por carregarem a cruz de palha, toleram o vômito de um, o insulto de mais outro, a incompreensão de muitos, testemunhando a caridade desconhecida, oferecendo, com o sofrimento e a renúncia, com o silêncio e o bom exemplo, remédios salvadores aos companheiros que os adversam, os ferem e desconhecem a vitória da “segunda milha”.
Os jovens presentes estavam satisfeitos. De seus olhos, órgãos musicais da alma, saíam notas gratulatórias exornando o ambiente feliz que viviam.
De mais não precisavam.
Entenderam o Trabalho que lhes cabia realizar nas Terras do Brasil, o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.
Linda lição com vista também aos velhos, a todos que conseguem ouvir Jesus na hora em que poucos O ouvem.

Ramiro Gama

Quem dera que você fosse o Chico!…

Antiga Livraria e Editora da Comunhão Espírita Cristã, em UberabaNuma livraria de Belo Horizonte servia um irmão que, pelo hábito de ouvir constantes elogios ao Chico Xavier, tomou-se de admiração pelo Médium.
Leu, pois, com interesse, todos os livros de Emmanuel, André Luiz, Néio Lúcio, Irmão X e desejou, insistentemente, conhecer o psicógrafo de Pedro Leopoldo.
E aos fregueses pedia, de quando em quando:
—Façam-me o grande favor de me apresentar o Chico, logo aqui apareça.
Numa tarde, quando o Aloísio, pois assim se chamava o empregado, reiterava a alguém o pedido, o Chico entra na Livraria.
Todos os presentes, menos o Aloísio, se surpreendem e se alegram. Abraçam o Médium, indagam-lhe as novidades recebidas. E depois, um deles se dirige ao Aloísio:
—Você não desejava ansiosamente conhecer o nosso Chico?
—Sim, ando atrás desse momento de felicidade.
—Pois aqui o tem.
Aloísio o examina, o vê tão sobriamente vestido, tão simples, tão decepcionante. E correspondendo ao abraço do admirado psicógrafo, com ar de quem falava uma verdade e não era nenhum tolo, para acreditar em tamanho absurdo:
—Quem dera que você fosse o Chico, quem dera!
E Chico, compreendendo que Aloísio não pudera acreditar que fosse ele o Chico pela maneira como se apresentava, responde-lhe, candidamente:
—É mesmo, quem me dera… E, despedindo-se, partiu com simplicidade e bonomia, deixando no ambiente uma lição, uma grande lição, que ia depois ser melhormente traduzida por todos e, muito especialmente, pelo Aloísio!…

Caso contado pelo próprio Chico a Ramiro Gama

Orgulho ou distração

Chico em casa, maio de 1982Defronte ao Hotel Diniz, de propriedade de Dona Naná, achava-se um irmão alcoolizado.
Por ali, de manhã e na hora do almoço, passa o Médium a caminho do seu serviço.
O Chico notou, de longe, que o rapaz estava num de seus piores dias. Não se contentava em cantar e fazer esgares: provocava também, apelidando, com jocosos nomes, quantos lhe passavam à frente. De leve e bem ao longe, passou sem ser visto, pelo irmão embriagado, e já se achava distante, quando Emmanuel, delicadamente, lhe diz:
—Chico, nosso amigo viu-o passar e esconder-se dele. Está falando muito mal de você e admirado de seu gesto. Volte e retifique sua ação.
O Chico voltou:
—Como vai, meu irmão? Desculpe-me por não o ter visto, foi distração…
—É, eu já estava admirado de você fazer isto, Chico. Que os outros façam pouco-caso de mim, não me incomodo, mas você não. Estava dizendo bem alto: como o Chico está orgulhoso! Já nem se lembra dos pobres irmãos como eu. Pensa que estou embriagado e foge de mim como se eu tivesse moléstia contagiosa.
—Não, meu caro; foi apenas distração, desculpe-me.
—Pensava que era orgulho. Está desculpado. Vá com Deus. Que Deus ajude e lhe dê um dia feliz, pelo abraço consolador que você me deu.
E Chico partiu.
Ganhara uma lição e dava, aos que o observavam, outra bem mais expressiva.

Ramiro Gama

A morte do cão Lorde

Chico e seu cão LordeChico e seu irmão José Xavier possuíam um lindo cão. Chamava-se Lorde.
Era diferente de outros cães. Possuía até dons mediúnicos.
Conhecia, nas pessoas que visitavam seus donos, quais os bem-intencionados, quais os curiosos e aproveitadores.
Dava logo sinal, latindo insistentemente ou mudamente balançando a cauda, à chegada de alguém, dizendo nesse sinal se a visita vinha para o bem ou para o mal…
Chico conta-nos casos lindos sobre seu saudoso cão. Depois, tristemente, acrescenta:
—Senti-lhe, sobremodo, a morte. Fez-me grande falta. Era meu inseparável companheiro de oração. Toda manhã e à noite, em determinada hora, dirigia-me para o quarto para orar. Lorde chegava logo em seguida.
Punha as mãos sobre a cama, abaixava a cabeça e ficava assim em atitude de recolhimento, orando comigo.
Quando eu acabava, ele também acabava e ia deitar-se a um canto do quarto.
Em minhas preces mais sentidas, Lorde levantava a cabeça e enviava-me seus olhares meigos, compreensivos, às vezes cheios de lágrimas, como a dizer que me conhecia o íntimo, ligando-se a meu coração.
Desencarnou. Enterrei-o no quintal lá de casa...
Lembramos ao Chico o Sultão, inteligente cão do Padre Germano. Igual ao Lorde.
Falamos-lhe de um cão que possuímos e se chamava Sultão, em homenagem ao padre Germano.
Contou-nos casos do Lorde; contamos-lhe outros do Sultão.
E, em pouco, estávamos emocionados.
Ah! Sim, os animais também têm alma e valem pelos melhores amigos!

Ramiro Gama

A Gargalhada do rio

Açude em Pedro Leopoldo, local de orações do ChicoPassávamos os três sobre uma ponte. Nós (Ramiro Gama), nossa esposa e o Chico.
Lá em baixo, um rio encachoeirado sorria e gargalhava.
Paramos para melhor sentir-lhe a mensagem.
Nossa companheira recorda-nos um trecho do livro “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queiroz, em que Jacinto, o principal personagem, cansado da vida barulhenta das cidades, muda-se para a roça, a fim de gozar o silêncio das serras e medicar-se com o ar puro dos ambientes campestres.
Lá na sua propriedade providencia uma série de medidas higiênicas favoráveis a seus empregados.
A primeira providência foi colocar banheiras nas casas dos roceiros, por achar que a falta de banho concorria para multiplicar as enfermidades.
Seu companheiro de jornada ri-se desta preocupação e, ambos, ao passarem sobre uma ponte, debaixo da qual corre um rio marulhante, reparam que ali passavam muitos de seus assalariados com as vestes sujas e a pele encardida por falta de banhos.
—Veja, Jacinto, exclama o companheiro, vivem sujos porque querem. Não parece que o rio está dando gargalhadas?…
E Chico concluindo a cena que a companheira rememorara:
—Tem razão. O rio está, até hoje, dando gargalhadas, rindo-se ao se ver com tanta água e apelando para nós, a fim de que não venhamos a mergulhar na sujeira de nosso próprio pretérito!…

Ramiro Gama

Primeiras graças recebidas

Chico Xavier e Ramiro GamaEm 4 de novembro de 1944, data de nossa primeira visita ao Chico, ele, depois de repletar-nos com os Lindos Casos, levou-nos ao interior de sua singela casinha, para participar de uma Sessão em que recebemos Mensagens tocantes de Emmanuel e de nossa cunhada Wanda, uma delicada ave do céu, muito cedo chamada à Pátria Espiritual, e as duas Poesias abaixo, que nos arrancaram lágrimas de emoção, tanto nos falaram ao coração, visto que navegávamos num mar de prantos ou observávamos cardos brotando em nossos caminhos com pretensão de ferir-nos:

De irmão para irmão

No caminho que as trevas encheram de horrores,
Passa a turba infeliz, exausta e cega,
É a humanidade que se desagrega
No apodrecido ergástulo das dores!

Ouvem-se gritos escarnecedores.
É Caim que, de novo, se renega,
Transborda o mar de pranto onde navega
A esperança dos seres sofredores!

E neste abismo de miséria e ruínas,
Que estenderás, amigo, as mãos divinas,
Como estrelas brilhando sobre as cruzes.

ai, Cirineu da luz que santifica,
Que o Senhor abençoa e multiplica
O pão da caridade que produzes.

Augusto dos Anjos

Bilhete de um lutador

Meu caro Ramiro Gama,
Os benfeitores do Além
Colaboram nas tarefas
De tua missão no bem.
Açoites surgem na estrada?
Jamais sofras, meu irmão!
O Senhor da Luz Divina
Ampara-te o coração.
Brotam cardos nos caminhos,
Com pretensões de ferir?
Tolera-os resignado
E espera o Sol do Porvir.
Há difíceis testemunhos?
Não temas perturbações,
Pois toda cruz é caminho
De santas renovações.
Ramiro, Deus te ilumine,
No esforço que te conduz
Da sombra espessa da Terra
A redenção com Jesus.

Casimiro Cunha

Conteúdo sindicalizado