Blog de Valim

A segurança do trabalho

Chico lendo o EvangelhoAtendendo a instruções de Emmanuel, Chico iniciava os trabalhos no Centro Espírita Luiz Gonzaga às oito da noite, encerrando-os às dez horas, enquanto frequentou sozinho a instituição.
Fazia a prece de abertura, orava e, depois, lia páginas de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, comentando-as, em voz alta, para os desencarnados.
Pessoas da família indagavam sobre aquela resolução de falar sozinho, entretanto, o Médium explicava:
— Há muitos espíritos frequentando a casa. Chegam desconsolados e tristes e Emmanuel afirma que a obra de evangelização é necessária a todos nós. Não podemos parar…
Certa noite, uma senhora desencarnada em Pedro Leopoldo conversava com o Chico no salão do Centro, em que ele se achava aparentemente sozinho e o diálogo seguia, curioso:
— Tenhamos fé em Jesus, minha irmã.
— Não desespere. Com a paciência alcançaremos a paz.
— Sem calma, tudo piora.
— Com o tempo, a senhora, verá que tudo está certo como está.
A conversação prosseguia assim, quando uma das irmãs do Médium, escutando-lhe a palavra, debruçada em janela próxima, perguntou-lhe em voz alta:
— Chico, quem está conversando com você?
— Dona Chiquinha de Paula.
— Que história é esta? Dona Chiquinha já morreu…
— Ah! Você é que pensa… Ela está bem viva.
A irmã do rapaz, alvoroçada, comunicou aos familiares o que ocorria.
Chico devia estar maluco.
Era preciso medicá-lo, socorrê-lo.
Outras irmãs do Médium, porém, apressaram-se a observar que ele trabalhava, corretamente, todos os dias.
Seria justo dar por louco um irmão que era amigo e útil?
Ficou então estabelecido em família que, enquanto o Chico estivesse firme no serviço, ninguém cogitaria de considerá-lo um alienado mental.
Desse modo, o Chico Xavier costuma dizer que o trabalho de cada dia, com a bênção de Deus, tem sido para ele a melhor segurança.

Ramiro Gama

Solidão aparente

Centro Espírita Luiz GonzagaEm meados de 1932, o Centro Espírita Luiz Gonzaga estava reduzido a um quadro de cinco pessoas, José Hermínio Perácio, D. Cármen Pena Perácio, José Xavier, D. Geni Pena Xavier e o Chico.
Os doentes e obsedados surgiram sempre, mas logo depois das primeiras melhoras, desapareciam como por encanto.
Perácio e senhora, contudo, precisavam transferir-se para Belo Horizonte por impositivos da vida familiar.
O grupo ficou limitado a três companheiros.
Dona Geni, porém, a esposa de José Xavier, adoeceu e a casa passou a contar apenas com os dois irmãos.
José, no entanto, era seleiro e, naquela ocasião, foi procurado por um credor que lhe vendia couros, credor esse que insistia em receber-lhe os serviços noturnos, numa oficina de arreios, em forma de pagamento.
Por isso, apesar de sua boa vontade, necessitava interromper a frequência ao grupo, pelo menos, por alguns meses.
Vendo-se sozinho, o Médium também quis ausentar-se.
Mas, na primeira noite em que se achou a sós no Centro, sem saber como agir, Emmanuel apareceu-lhe e disse:
— Você não pode afastar-se. Prossigamos em serviço.
— Continuar como? Não temos frequentadores…
— E nós? – disse o espírito amigo. – Nós também precisamos ouvir o Evangelho para reduzir nossos erros. E, além de nós, temos aqui numerosos desencarnados que precisam de esclarecimento e consolo. Abra a reunião na hora regulamentar, estudemos juntos a lição do Senhor, e não encerre a sessão antes de duas horas de trabalho.
Foi assim que, por muitos meses, de 1932 a 1934, o Chico abria o pequeno salão do Centro e fazia a prece de abertura, às oito da noite em ponto.
Em seguida, abria o Evangelho Segundo o Espiritismo, ao acaso, e lia essa ou aquela instrução, comentando-a em voz alta.
Por essa ocasião, a vidência nele alcançou maior lucidez.
Via e ouvia dezenas de almas desencarnadas e sofredoras que iam até o grupo, à procura de paz e refazimento.
Escutava-lhes as perguntas e dava-lhes respostas sob a inspiração direta de Emmanuel.
Para os outros, no entanto, orava, conversava e gesticulava sozinho…
E essas reuniões de um Médium a sós com os desencarnados, no Centro, de portas iluminadas e abertas, se repetiam todas as noites de segundas e sextas-feiras.

Ramiro Gama

A inesquecível pergunta

Chico Xavier autografandoO Livro Parnaso de Além Túmulo, com carinhoso entusiasmo de Manoel Quintão, foi lançado em julho de 1932. E no mesmo mês, o padre Júlio Maria, de Manhumirim, em Minas, no seu jornal “O Lutador”, escreveu áspera crítica, condenando o livro e o Médium.
Dentre outras coisas dizia que o Chico devia possuir uma pele de rinoceronte para caber tantos espíritos.
Os comentários irônicos e as acusações gratuitas eram tantos que o Médium, inexperiente e muito jovem ainda, se sentiu demasiadamente chocado e foi constrangido a buscar o leito.
“Então, a luta era aquela? – pensava, com dor de cabeça. –Valia a pena ser médium e ficar exposto, assim, ao juízo temerário dos outros? Seria justo aguentar aqueles xingatórios quando estava possuído das melhores intenções”?
Por mais de duas horas se via em semelhante contenda íntima, quando viu Emmanuel ao seu lado.
Contou ao Mentor o que se passava e supôs que o espírito amigo o acariciaria sem restrições.
Emmanuel, porém, de pé, com severa fisionomia, falou-lhe firme:
—Mas eu não vejo razão para solenizar este assunto…
—Entretanto, o senhor está vendo… O padre disse que eu tenho uma pele de rinoceronte – clamou o Médium.
—Se não tem, precisa ter, – disse-lhe o protetor – porque se você quiser cultivar uma pele muito frágil, cairá sempre com qualquer alfinetada e não nos seria possível a viagem da mediunidade nos caminhos do mundo…
—Contudo, temos o nosso brio, a nossa dignidade – acrescentou o Chico – e é difícil viver com o desrespeito público.
Foi então que Emmanuel o fitou com mais firmeza e exclamou:
—Escute. Se Jesus que era Jesus, saiu da Terra pelos braços da cruz, você é quem está esperando uma carruagem para viver entre os homens?
Quando ouviu a pergunta, o Chico levantou-se de um pulo e começou a reajustar-se.

Ramiro Gama

Disciplina

Emmanuel e Chico XavierNos fins de 1931, à tardinha, Chico orava sob uma árvore junto ao Açude, pitoresco local na saída de Pedro Leopoldo para o norte, quando viu, à pequena distância uma grande cruz luminosa.
Pouco a pouco, dentre os raios que formava, surgiu alguém.
Era um espírito simpático, envergando túnica semelhante à dos sacerdotes, que lhe dirigiu a palavra com carinho.
Não se sabe o que teriam conversado naquele crepúsculo, mas conta o Médium que foi esse o seu primeiro encontro com Emmanuel, na vida presente. E acentua que em certo ponto do entendimento, o orientador espiritual perguntou-lhe:
— Está você realmente disposto a trabalhar na mediunidade com o Evangelho de Jesus?
— Sim, se os bons Espíritos não me abandonarem – respondeu o Médium.
— Não será você desamparado, – disse-lhe Emmanuel, – mas para isso é preciso que você trabalhe, estude e se esforce no bem.
— E o senhor acha que eu estou em condições de aceitar o compromisso? – tornou o Chico.
— Perfeitamente, desde que você procure respeitar os três pontos básicos para o serviço.
Porque o protetor se calasse, o rapaz perguntou:
— Qual é o primeiro?
A resposta veio firme:
— Disciplina.
— E o segundo?
— Disciplina.
— E o terceiro?
— Disciplina.
O Espírito amigo despediu-se e o Médium teve consciência de que para ele ia começar uma nova tarefa.

Ramiro Gama

História de um soneto

Em 1931 desencarnara um amigo do Chico, em Pedro Leopoldo.
Cavalheiro digno, católico muito distinto e pai de família exemplar.
O Médium acompanha o enterro.
Na cidade, da igreja ao cemitério, é longo o percurso.
Um padre presente abeira-se do rapaz e pergunta:
— Então, Chico, dizem que você anda recebendo mensagens do outro mundo…
— É verdade, reverendo. Sinto que alguém me ocupa o braço e se serve de mim para escrever…
— Tome cuidado. Lembre-se de que o Espírito das Trevas tem grande poder para o mal.
— Entretanto, padre, os espíritos que se comunicam somente nos ensinam o bem.
O sacerdote retirou um papel em branco da intimidade de um livro que sobraçava e convidou:
— Bem, Chico, estamos no cemitério, acompanhando um amigo morto… Tente alguma coisa.
Vejamos se há aqui algum espírito desejando escrever.
Chico recebe o papel e concentra-se.
Em poucos instantes, sente o braço tomado pela força espiritual e psicografa a poesia aqui transcrita:

ADEUS

Auta de SouzaO sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja,
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.

Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade…

Adeus, Terra das minhas desventuras…
Adeus, amados meus… – diz nas alturas…
A alma liberta, o azul do céu singrando…

Adeus… – choram as rosas desfolhadas,
Adeus… – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando…

Auta de Souza, poetisa

Este soneto foi incorporado ao “Parnaso de Além-Túmulo”.

Ramiro Gama

O inesperado benfeitor

Venda do José FelizardoA venda de José Felizardo, onde o Chico era empregado, vivia repleta de fregueses.
Entre os que a frequentavam estava um homem rude, de nome Honorato, que era perito em provocar a antipatia dos outros.
Dizia palavrões.
Embriagava-se.
Por qualquer “dá cá uma palha” exibia um punhal.
Chico também não simpatizava com ele.
E quando estava à beira de uma discussão desagradável com o pobre beberrão, lembrou-se da prece e calou-se.
Em plena oração, viu Dona Maria João de Deus, que o advertiu:
—Meu filho, evite contendas. Hoje esse homem pode ser antipático aos seus olhos. Amanhã, talvez poderá ser um benfeitor em nossas necessidades.
Meses passaram.
Num domingo, José e Chico Xavier foram, de manhãzinha, ao campo em busca de ervas medicinais para socorro a irmãos doentes.
Andaram muito à procura do velame, da carqueja e dos grelos de samambaia.
Quando se dispunham ao regresso, larga nuvem de neblina desceu sobre a região.
Por muito que se esforçassem não reencontraram o trilho de volta.
Por mais de duas horas erraram no mato agreste. Muito aflitos, oraram juntos, pedindo socorro.
Os amigos espirituais pareciam ausentes e o nevoeiro aumentava cada vez mais.
Continuaram andando, fatigados, quando viram uma casinha à pequena distância.
Bateram à porta e a porta abriu-se.
Uma voz alegre e acolhedora gritou lá de dentro:
—Oh! Chico, você aqui?
Era o Honorato, que os abraçou com satisfação, oferecendo-lhes alimento e guiando-os ao caminho de retorno.
Quando o benfeitor se despediu, deixando-os tranquilos, a progenitora desencarnada apareceu ao médium e disse-lhe:
—Compreendeu, Chico?
E o Chico, impressionado, respondeu:
—Compreendi, sim. A senhora tem razão.

Ramiro Gama

Uma boa lição

Chico e seu cão LordeAdoecera um dos irmãos do grupo.
Reumatismo complicado e renitente.
Um amigo ensinou a aplicação de uma erva que somente se desenvolve em cavernas do subsolo.
Chico e José Xavier, tendo por acompanhante um belo cão que lhes pertencia, de nome Lorde, vão a uma grande lapa, das muitas que existem nas cercanias de Pedro Leopoldo; em caminho começam a conversar.
Falavam a respeito de certos amigos e comentavam:
—Beltrano não serve.
—Fulano é muito esquisito.
—Sicrano é imprestável.
Quando as críticas iam inflamadas, o Espírito de Dona Maria João de Deus aparece ao Chico e aconselha:
Vocês não devem falar mal de ninguém. Todos necessitamos uns dos outros. Julgar pelas aparências é péssimo hábito. Sempre chega um momento na vida em que precisamos de amparo de criaturas que supomos desprezíveis.
O Médium transmitiu ao irmão quanto ouvira e calaram-se ambos.
Chegaram à caverna e José, segurando Lorde por uma corda, desceu à frente.
Depois de longa busca, encontraram a erva medicinal.
Contudo, quando se voltavam para o retorno, perderam a noção do caminho sob as grandes abóbadas de pedra.
De vela acesa, procuraram debalde a saída.
Gritaram, mas receberam o eco da própria voz.
Quando a luz se mostrava quase extinta, recordaram-se da prece.
Oraram.
Dona Maria João de Deus apareceu ao Médium e considerou:
—Temos agora a prática do ensinamento a que nos reportamos na estrada. Vocês podem saber muita coisa, mas agora precisam do cão. Soltem o Lorde e sigam-lhe os passos. Ele sabe o caminho da volta.
Assim fizeram. E acompanhando o animal, venceram o labirinto em alguns minutos.
Lá fora, à luz do dia, entreolharam-se surpresos, meditaram na lição recebida e renderam graças a Deus.

Ramiro Gama

O caso da besta

João Cândido XavierEm 1931, quando o Chico passou a receber as primeiras poesias do Livro Parnaso de Além-Túmulo, um cavalheiro de Pedro Leopoldo, muito impressionado com os versos, resolveu apresentar o Médium e os poemas a certo escritor mineiro, de passagem pela cidade.
O filho de João Cândido vestiu a melhor roupa que possuía e, com a pasta de mensagens debaixo do braço, foi ao encontro marcado.
O conterrâneo do Médium, embora católico romano, apresentou o Chico, entusiasmado:
—Este é o médium de quem lhe falei.
O escritor cumprimentou o rapaz e entregou-se à leitura dos versos.
Sonetos de Augusto dos Anjos, poemetos de Casimiro Cunha, quadras de João de Deus…
Depois de rápida leitura, o literato sentenciou:
—Isso tudo é bobagem.
E mirando o Chico, rematou:
—Este rapaz é uma besta.
—Mas, doutor, – disse, agastado, o conterrâneo do Chico – o rapaz tem convicções e abraça o Espiritismo como Doutrina.
—Pois, então, deve ser uma besta espírita, – declarou o escritor.
Bastante desapontado, o Médium despediu-se.
Em casa, durante a oração, a progenitora apareceu.
—A senhora viu como fui insultado? Perguntou o Chico.
E porque Dona Maria se revelasse alheia ao assunto, o filho contou-lhe o caso.
A entidade sorriu e disse:
—Não vejo insulto algum. Creio até que você foi muito honrado. Uma besta é um animal de trabalho…
—Mas o homem me apelidou por besta espírita.
—Isso não tem importância, – exclamou a mãezinha desencarnada – imagine-se como sendo uma besta em serviço do Espiritismo. Se a besta não dá coices, converte-se num elemento valioso e útil.
Porque o filho silenciasse, Dona Maria acrescentou:
—Você não acha que é bem assim?
Chico refletiu e respondeu:
—É… pensando bem, é isso mesmo.
E o assunto ficou sem alteração.

Ramiro Gama

Humorismo materno

Igreja de Pedro LeopoldoEm 1931, “mandar alguém para o inferno” constituía grave ofensa.
E um dos missionários católicos que visitaram Pedro Leopoldo naquela época, no zelo com que defendia a Igreja Romana, falou do púlpito que o Chico, o Médium espírita que se desenvolvia na cidade, devia ir para o inferno.
Chico, que frequentara a Igreja desde a infância, ficou muito chocado.
À noite, na reunião costumeira, aparece a progenitora desencarnada e, reparando-lhe a inquietude, pergunta-lhe, bondosa o motivo da aflição que trazia.
—Ah! Estou muito triste, – disse o rapaz.
—Por que?
—Ora, o padre me xingou muito…
—Que tem isso? Cada pessoa fala daquilo que tem ou daquilo que sabe.
—Mas a senhora imagine – clamou o Chico – que ele me mandou para o inferno…
O Espírito de Dona Maria sorriu e falou:
Ele mandou você para o inferno, mas você não vai. Fique na Terra mesmo.
O Médium, ante o bom humor daquelas palavras, compreendeu que não convinha dar ouvidos às condenações descabidas.
E o serviço da noite desdobrou-se em paz.

Ramiro Gama

A medicação pela fé

A moça abatida, num acesso de tosse, chegara ao Centro Espírita Luiz Gonzaga, com uma receita médica.
Estava tuberculosa.
Duas hemoptises já haviam surgido como horrível prenúncio.
O doutor indicara remédios, entretanto…
— Chico, – disse a doente – o médico me atendeu e aconselhou-me a usar esta receita por trinta dias…
Mas, não tenho dinheiro. Você poderia arranjar-me uns cobres?
O Médium respondeu com boa vontade:
— Minha filha hoje eu não tenho… E meu pagamento no serviço ainda está longe…
— Que devo fazer? Estou desarvorada…
Chico pensou, pensou, e disse-lhe:

Nossa Mãe Santíssima— Você peça à Nossa Mãe Santíssima socorro e o socorro não lhe faltará. A que horas você deve fazer a medicação?
— De manhã e à noite.
— Então você corte a receita em sessenta pedacinhos.
Deixe um copo de água pura na mesa, em sua casa e, no momento de usar o remédio, rogue a proteção de Maria Santíssima.
Tome um pedacinho da receita com a água abençoada em memória dela e repetindo isso duas vezes por dia, no horário determinado, sem dúvida, pela fé, você terá usado a receita.
A enferma agradeceu e saiu.
Passado um mês, a moça surgiu no Centro, corada e refeita.
—Oh! é você? – disse o Médium.
—Sim, Chico, sou eu. Pedi o socorro de Nossa Mãe Santíssima. Engoli os pedacinhos do papel da receita e estou perfeitamente boa.
—Então, minha filha, vamos render graças a Deus. E passaram os dois à oração.

Ramiro Gama

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