Blog de Valim

Tenha paciência meu filho

Foto:MARIA JOÃO DE DEUS

Maria João de DeusQuando Dona Maria João de Deus desencarnou, em 29 de setembro de 1915, Chico Xavier, um de seus nove filhos, foi entregue aos cuidados de Dona Rita de Cássia, velha amiga e madrinha da criança.
Dona Rita, porém, era obsedada e, por qualquer bagatela, se destemperava, irritadiça.
Assim é que o Chico passou a suportar, por dia, várias surras de varas de marmeleiro, recebendo, ainda, a penetração de pontas de garfos no ventre, porque a neurastênica e perversa senhora inventara esse estranho processo de torturar.
O garoto chorava muito, permanecendo horas e horas, com os garfos dependurados na carne sanguinolenta e corria para o quintal, a fim de desabafar e, porque a madrinha repetia, nervosa:
— Este menino tem o diabo no corpo.
Um dia, lembrou-se a criança de que a Mãezinha orava sempre, todos os dias, ensinando-o a elevar o pensamento a Jesus e sentiu falta da prece que não encontrava em seu novo lar.
Ajoelhou-se sob velhas bananeiras e pronunciou as palavras do Pai Nosso que aprendera dos lábios maternais.
Quando terminou, oh! maravilha!
Sua progenitora, Dona Maria João de Deus, estava perfeitamente viva ao seu lado.
Chico, que ainda não lidara com as negações e dúvidas dos homens, nem por um instante pensou que a Mãezinha tivesse partido para as sombras da morte.
Abraçou-a, feliz, e gritou:
— Mamãe, não me deixe aqui... Carregue-me com a senhora...
— Não posso, – disse a entidade, triste.
— Estou apanhando muito, mamãe!
Dona Maria acariciou-o e explicou:
— Tenha paciência, meu filho. Você precisa crescer mais forte para o trabalho. E quem não sofre não aprende a lutar.
— Mas, – tornou a criança – minha madrinha diz que eu estou com o diabo no corpo.
— Que tem isso? Não se incomode. Tudo passa e se você não mais reclamar, se você tiver paciência, Jesus ajudará para que estejamos sempre juntos.
Em seguida, desapareceu.
O pequeno, aflito, chamou-a em vão.
Desde esse dia, no entanto, passou a receber o contato de varas e garfos sem revolta e sem lágrimas.
— Chico é tão cínico – dizia Dona Rita, exasperada, – que não chora, nem mesmo a pescoção.
Porque a criança explicava ter a alegria de ver sua mãe, sempre que recebia as surras, sem chorar, o pessoal doméstico passou a dizer que ele era um “menino aluado”.
E, diariamente, à tarde, com os vergões na pele e com o sangue a correr-lhe em pequeninos filetes do ventre o pequeno seguia, de olhos enxutos e brilhantes, para o quintal, a fim de reencontrar a mãezinha querida, sob as velhas árvores, vendo-a e ouvindo-a, depois da oração.
Assim começou a luta espiritual do médium extraordinário que conhecemos.

Ramiro Gama

Amorável Jesus, estamos de retorno

Jesus CristoOntem, nesse passado sempre presente, ouvimos-te nas paisagens formosas da gentil Galileia e fascinamo-nos com os Teus sublimes ensinamentos.
Tocados sinceramente no coração, resolvemos seguir-te à distância através dos tempos, vivendo e cantando a Tua mensagem libertadora.
No entanto, o mundo que enfrentamos não era semelhante às praias formosas e calmas de Cafarnaum e deixamo-nos vencer pelas ondas encapeladas, pelo tumulto das nossas paixões não apaziguadas, afogando-nos lamentavelmente.
Durante largo período em que procuramos retornar ao Teu rebanho de amor, somente complicamos a conduta, cada vez afundando mais nas águas revoltas do desespero íntimo.
Sentíamos saudades de Ti e não conseguíamos decodificar corretamente. Por isso, fugíamos de nós mesmos, buscando fora o que somente é possível encontrar no interior dos sentimentos profundos.
Enquanto nos ensinavas correr para o deserto, para acalmar a febre das paixões primitivas, atiravamo-nos nas labaredas dos incêndios morais em gozos alucinantes.
Largo tempo transcorreu desde aqueles dias inolvidáveis.
Mas Tu não desististe de nós e nos trouxeste às regiões calmantes do Teu coração.
Retornamos na condição do homem que foi assaltado na descida de Jerusalém para Jericó e socorrido pelo samaritano.
Com a alma em frangalhos, recebemos o bálsamo e o carinho da misericórdia do Céu em Teu nome e nos erguemos.
Agora estamos de volta à Tua barca e ouvimos-te outra vez cantando os hinos de eterna beleza de que se enriquecem os nossos corações.
As baladas das bem-aventuranças comovem-nos de maneira muito especial e os Teus convites de afeto e alegria de viver e de servir, dão-nos resistência para vencermos o mal interno e acompanhar-te na áspera subida e permanência na perversa e imensa Jerusalém da sociedade contemporânea.
O mundo estertora e desejamos acalmá-lo, iniciando a revolução da paz no próprio coração e alongando-a pelas terras desérticas das vidas estioladas mediante as chuvas de gentilezas e amizades, evocando-te as atitudes e repetindo-as.
Continuamos ouvindo o Teu poema de luz e de liberdade total, com a musicalidade sublime do amor que nos enriquece e plenifica.
Direciona o Teu olhar para nós e acolhe-nos novamente, sorrindo, como se estivesses a dizer:
- Sejam bem-vindos, filhos diletos de meu Pai!
...E acolhe-nos.

Pelo Espírito Amélia Rodrigues.
Página psicografada por Divaldo P Franco,
na manhã de 30 de janeiro de 2014,em Jerusalém, Israel.

A Verdadeira propriedade

O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza durante sua permanência na terra; mas, desde que é forçado a deixá-los, é claro que só tem o usufruto, e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste. Dele depende estar mais rico ao partir do que ao chegar neste mundo, porque a sua posição futura depende do que ele houver adquirido no bem.
Quando um homem parte para um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos de uso nesse país, e não se carrega de coisas que lhe seriam inúteis. Fazei, pois, o mesmo, em relação à vida futura, aprovisionando-vos de tudo o que nela vos poderá servir.
Ao viajante que chega a uma estalagem, se ele pode pagar, é dado um bom alojamento; ao que pode menos, é dado um pior; e o que nada tem, é deixado ao relento. Assim acontece com o homem, quando chega ao mundo dos Espíritos: sua posição depende de suas posses, com a diferença de que não pode pagar em ouro. Não se lhe perguntará: Quanto tinhas na Terra? Que posição ocupavas? Eras príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: O que trazes? Não será computado o valor dos seus bens, nem dos seus títulos, mas serão contadas as suas virtudes, e nesse cálculo o operário talvez seja considerado mais rico do que o príncipe. Em vão alegará o homem que, antes de partir, pagou em ouro a sua entrada no céu, pois terá como resposta: as posições daqui não são compradas, mas ganhas pela prática do bem; com o dinheiro podes comprar terras, casas, palácios; mas aqui só valem as qualidades do coração. És rico dessas qualidades? Então, sejas bem-vindo, e teu é o primeiro lugar, onde todas as venturas te esperam. És pobre? Vai para o último, onde serás tratado na razão de teus posses.

Pascal - Genebra, 1860
O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI

Uma conversão

Revista Espírita, janeiro de 1858

Embora sob um outro ponto de vista, não será menor o interesse oferecido pela evocação seguinte.
Um senhor, que designaremos pelo nome de Georges, farmacêutico numa cidade do Sul, há muito havia perdido o pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O velho Georges aliava a uma instrução muito vasta todas as qualidades que marcam o homem de bem, posto professasse ideias materialistas. A este respeito o filho partilhava das mesmas ideias, se não ultrapassava as do pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O espiritismo não se adaptava a tais pensamentos. A leitura do Livro dos Espíritos, entretanto, provocou-lhe uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Dizia: “Se meu pai pudesse me responder, eu não duvidaria mais”. Foi, então, que se fez a evocação seguinte, na qual encontramos diversos ensinamentos:

1. Em nome de Deus, Todo Poderoso, Espírito de meu pai, eu lhe peço que se manifeste. O senhor está junto de mim?
—Sim.
2. Porque o senhor não se manifesta diretamente a mim, quando tanto nos amamos?
—Mais tarde.
2. Poderemos nos encontrar um dia?
—Sim, breve.
3. Amar-nos-emos com nesta vida?
—Mais.
4. Em que meio o senhor se acha?
—Sou feliz.
5. O senhor reencarnou ou está errante?
—Errante por pouco tempo.
6. Que sensação experimentou ao deixar o envoltório corporal?
—De perturbação.
7. Quanto tempo durou a perturbação?
—Pouco para mim, muito para você.
8. Pode avaliar a sua duração, de acordo com o nosso modo de contar?
—Dez anos para você, dez minutos para mim.
9. Mas eu não o perdi há tanto tempo. Não há somente quatro meses?
—Se você, como vivo, estivesse em meu lugar, teria sentido aquele tempo.
10. Crê, agora, em um Deus justo e bom?
—Sim.
11. Quando vivo na Terra também acreditava?
—Eu tinha a presciência mas não acreditava.
12. Deus é Todo Poderoso?
—Não subi até Ele, para avaliar o seu poder: só Ele conhece os limites de seu poder, porque só Ele é seu igual.
13. Ele se ocupa com os homens?
—Sim.
14. Seremos punidos ou recompensados conforme nossos atos?
—Se você fizer o mal, sofrerá.
15. Serei recompensado se fizer o bem?
—Avançará em seu caminho.
16. Estou no bom caminho?
—Faça o bem e verá.
17. Creio ser bom; mas seria melhor se um dia o pudesse encontrar, como recompensa.
—Que este pensamento o sustente e o encoraje.
18. Meu filho será como seu avô?
—Desenvolva suas virtudes e extirpe seus vícios.
19. Isto é tão maravilhoso que chego a não crer que nos comunicamos neste momento.
—De onde lhe vem a dúvida?
20. É que, partilhando de suas opiniões filosóficas, fui levado a atribuir tudo à matéria.
—Você vê de noite aquilo que vê de dia?
21. Meu pai, então eu me acho na noite?
—Sim.
22.Que é que o senhor vê de mais maravilhoso?
—Explique-se melhor.
23. Encontrou minha mãe, minha irmã e Ana, a boa Ana?
—Eu as revi.
24. O senhor volta a vê-las quando quiser?
—Sim.
25. É penoso ou agradável que me comunique com o senhor?
—É uma felicidade para mim, se eu lhe puder fazer o bem.
26. Voltando para casa, que poderia fazer para me comunicar com o senhor, já que lhe dá prazer? Serviria para que me conduzisse melhor e me ajudaria a educar os meus filhos?
—Cada vez que um movimento o levar ao bem eu ali estarei; inspirá-lo-ei.
27. Calo-me com receio de o importunar.
—Fale ainda, se quiser.
28. Já que o permite, farei mais algumas perguntas. De que afecção o senhor morreu?
—Minha prova havia chegado a termo.
29. O senhor contraiu o abscesso pulmonar que se manifestou?
—Pouco importa; o corpo nada é; o Espírito é tudo.
30. Qual a natureza da doença que me desperta, tão frequentemente, durante a noite?
—Sabê-lo-á mais tarde.
31. Considero minha afecção grave e queria ainda viver para os meus filhos.
—Ela não o é. O coração do homem é uma máquina de vida; deixe a Natureza agir.
32. Sob que forma o senhor aqui se acha?
—Sob a aparência de minha forma corpórea.
33. Encontra-se num determinado lugar?
—Sim; por detrás de Ermance (a médium).
34. Poderia tornar-se visível?
—Não vale a pena. Vocês teriam medo.
35. O senhor nos vê a todos aqui presentes?
—Sim.
36. Quer dizer alguma coisa a cada um de nós?
—Em que sentido me faz esta pergunta?
37. Do ponto de vista moral.
—De outra vez; por hoje basta.


Atualmente o sr. Georges não só deixou de ser materialista, mas é um dos adeptos mais fervorosos e mais dedicados do Espiritismo, o que faz duplamente feliz, pela confiança que agora tem no futuro e pelo prazer que experimenta em praticar o bem.
Esta evocação, inicialmente muito simples, não é menos notável em muitos aspectos. O caráter do velho Georges reflete-se nas respostas breves e sentenciosas, que estavam em seus hábitos: falava pouco, jamais dizia uma palavra inútil; mas já não é o céptico que fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, e retrata a unidade e o poder de Deus por estas palavras admiráveis:
“Só Ele é seu igual”.
Ele, que em vida tudo atribuía à matéria,, diz agora: “O corpo nada é; o Espírito é tudo”; e esta outra frase sublime: “Você vê de noite aquilo que vê de dia”? Para o observador atento, tudo tem um alcance; e é assim que, a cada passo, encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.

Allan Kardec

Mamãe, aqui estou

Revista Espírita - Janeiro de 1858

Uma senhora havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade.
Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia, incessantemente, que em breve iria reunir-se à filha.
Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de além-túmulo, ela resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas, pouco afeitas, uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão:
A mãe: Em nome de Deus, Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.
Júlia: Mamãe, aqui estou!
A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?
Júlia: Lili.
Observação: (Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamavam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar a emoção, a mãe rompeu em soluços).
Júlia: Mãe, porque te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.
A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?
Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha não sobre a Sra. X (a médium), para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).
A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?
Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?
A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?
Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.
A mãe: Com efeito eu te vi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.
Júlia: Não; sou eu mesma, que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z: ele não é sincero.
Observação: Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim, espontaneamente, era uma nova prova da identidade do Espírito que se manifestava).
A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z?
Júlia: Não te posso dizer, isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.
A mãe: Estás entre os anjos?
Júlia: Oh! ainda não: não sou bastante perfeita.
A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito, eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?
Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas, agora, vejo o que me falta para ser perfeita.
A mãe: Como adquirirás essa qualidades que te faltam?
Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.
A mãe: É na Terra que terás novas existências?
Júlia: Nada sei a respeito.
A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, porque sofreste tanto?
Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!
Observação: Ante fatos como esta, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre ambas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos.
Apesar da discrição em que envolvemos esta relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento!
Acrescentamos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntamos como poderiam provar que o Espírito desta jovem fosse um demônio malfazejo!

Senhorita Clary

A senhorita Clary, interessante menina, falecida em 1850, aos 13 anos de idade, desde então ficou como o gênio da família, onde é evocada com frequência e onde dá um grande número de comunicações do mais alto interesse. A palestra que damos a seguir ocorreu entre nós a 12 de janeiro de 1857, por intermédio de seu irmão, que é médium:
1. Tem uma lembrança precisa de sua existência corporal?
—O Espírito vê o presente, o passado e um pouco do futuro, conforme sua perfeição e a proximidade de Deus.
2. Esta condição de perfeição é relativa apenas ao futuro, ou se refere igualmente ao presente e ao passado?
—O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se aproxima de Deus. Depois da morte a alma vê e abarca, de um relance, todas as passadas migrações, mas não pode ver aquilo que Deus lhe prepara. Para isto é preciso que esteja inteiramente em Deus, desde muitas existências.
3. Sabe em que época será sua reencarnação?
—Em dez ou em cem anos.
4. Na Terra ou em outro mundo?
—Num outro.
5. O mundo para onde irá, comparado com a Terra, terá condições melhores, iguais ou inferiores?
—Muito melhores que as da Terra; lá se é feliz.
6. Desde que aqui se encontra, está num lugar qualquer; qual é ele?
—Estou em aparência etérea; posso dizer que meu Espírito, propriamente dito, estende-se muito mais longe; vejo muitas coisas e me transporto para muito longe daqui com a velocidade do pensamento; minha aparência está à direita de meu irmão e guia-lhe o braço.
7. Este corpo etéreo, de que se reveste, permite-lhe experimentar sensações físicas, como por exemplo, de calor e de frio?
—Quando me lembro muito de meu corpo sinto uma espécie de impressão, como quando se tira um manto e se fica com a sensação de que, por algum tempo, ainda se está com ele.
8. Disse que pode transportar-se com a velocidade do pensamento; o pensamento não é a própria alma que se desprende de seu envoltório?
—Sim.
9. Quando seu pensamento se dirige a alguma parte, como se dá a separação de sua alma?
—A aparência se esvai; o pensamento vai só.
10. É, pois, uma faculdade que se destaca; o ser fica onde está?
—A forma não é o ser.
11. Mas, como age o pensamento? Não age sempre por meio da matéria?
—Não.
12. Quando sua faculdade de pensar se destaca, você não age, então, por meio da matéria?
—A sombra se esvai; e reproduz-se onde o pensamento a guia.
13. Desde que você tinha apenas treze anos quando seu corpo morreu, como é que, sobre perguntas tão abstratas, pode nos dar respostas que estão fora do alcance de uma criança de sua idade?
—Minha alma é muito antiga!
14. Entre suas existências anteriores pode citar-nos uma na qual tivesse elevado ao máximo os seus conhecimentos?
—Estive no corpo de um homem que tornei virtuoso; depois de sua morte estive no corpo de uma menina cujo rosto estampava a própria alma; Deus me recompensa.
15. Poderia ser-nos concedido vê-la aqui tal qual é atualmente?
—Poderia.
16. Como seria possível? Depende de nós, de você ou das pessoas mais íntimas?
—De vocês.
17. Que condições deveríamos satisfazer para consegui-lo?
—Recolherem-se algum tempo, com fé e fervor; ser menos numerosos, isolarem-se um pouco e arranjar um médium do gênero "Home".

Provas Terrestres dos Homens em Missão

Cura de ArsJoão Maria Batista Vianney foi um sacerdote francês, canonizado pela Igreja Católica. É considerado o padroeiro dos sacerdotes. Também é conhecido como Santo Cura de Ars. (Wikipédia)
Nascimento: 8 de maio de 1786, Dardilly, França
Falecimento: 4 de agosto de 1859, Ars-sur-Formans, França
Filiação: Matthieu Vianney e Marie Beluze

Douay, 8 de março de 1867 – Médium: Sra. M…
É preciso, meus filhos, que o sangue depure a Terra; terrível luta ainda mais horrível pelo esplendor da civilização em cujo meio ela rebenta. Que, Senhor! Quando tudo se prepara para apertar os laços dos povos de um extremo a outro do mundo! Quando na aurora da fraternidade material se veem as linhas de demarcação de raças, costumes e linguagem tenderem para a unidade, chega a guerra com seu cortejo de ruínas, de incêndios, de profundas divisões, de ódios religiosos. Sim, tudo isto porque nada em nosso progresso foi segundo o Espírito de Deus; porque vossos laços não foram apertados nem pela bondade, nem pela lealdade, mas apenas pelo interesse; porque não é a verdadeira caridade que impõe silêncio aos ódios religiosos, mas a indiferença; porque as barreiras não foram diminuídas em vossas fronteiras pelo amor de todos, mas pelos cálculos mercantis; enfim, porque as vistas são humanas e instintivas, e não espirituais e caridosas; porque os governantes só buscam os seus proveitos, e cada um, entre os povos, faz outro tanto.
Sublime desinteresse de Jesus e de seus apóstolos, onde estás? - Ficais tristes, meus filhos, quando algumas vezes pensais na rude missão desses Espíritos sublimes, que vêm levantar a coragem da Humanidade e morrer na tarefa, depois de ter esvaziado o cálice amargo das ingratidões humanas. Gemeis por ver que o Senhor, que os enviou, parece abandoná-los no momento em que sua proteção parece mais necessária. Não vos falaram das provas que sofrem os Espíritos elevados no momento de transpor um degrau mais alto na iniciativa espiritual? Não vos disseram que cada grau da hierarquia celeste se compra pelo mérito, pelo devotamento, como entre vós, no exército, pelo sangue derramado e pelos serviços prestados? Pois bem! é o caso em que se encontram os Messias nesta terra de dores; são sustentados enquanto dura sua obra humanitária, enquanto trabalham pelo homem e para Deus, mas, quando só eles estão em jogo, quando sua prova se torna individual, o socorro visível se afasta, a luta se mostra áspera e rude quando o homem deve sofrê-la.
Eis a explicação desse aparente abandono, que vos aflige na vida dos missionários de todos os graus de vossa Humanidade. Não penseis que Deus abandone jamais a sua criatura por capricho ou impotência; não, mas no interesse de seu adiantamento ele a deixa às suas próprias forças, ao completo emprego de seu livre-arbítrio.

Cura d’Ars

A Poltrona dos Antepassados

Foi-nos dito que, na casa de um escritor e poeta de grande renome, existe um uso que parecerá estranho a quem não seja Espírita. Na mesa da família há sempre uma poltrona vazia; essa cadeira é fechada por um cadeado, e nela ninguém se senta: é o lugar dos antepassados, dos avós e dos amigos que deixaram este mundo; está aí como um respeitoso testemunho de afeto, uma piedosa lembrança, um chamado à sua presença, e para dizer que vivem sempre no espírito dos sobreviventes.
A pessoa que nos citou este fato, como o tendo de boa fonte, acrescenta:
“Os Espíritas repelem com razão as coisas de pura forma; mas se há uma que possam adotar sem derrogar seus princípios, sem contradita, é esta.”
Seguramente, está aí um pensamento que jamais nascerá no cérebro de um materialista; ele não só atesta a ideia espiritualista, mas é eminentemente Espírita, e não nos surpreende de nenhum modo da parte de um homem que, sem arvorar abertamente a bandeira do Espiritismo, muitas vezes afirmou a sua crença nas verdades fundamentais que dele decorrem.
Há, nesse uso, alguma coisa de tocante, de patriarcal, e que impõe o respeito.
Quem, com efeito, ousaria pô-la em ridículo? Esta não é uma dessas fórmulas estéreis que nada dizem à alma: é a expressão de um sentimento que parte do coração, o sinal sensível do laço que une os presentes aos ausentes. Nessa cadeira, vazia em aparência, mas que o pensamento ocupa, está toda uma profissão de fé, e além disto, todo um ensinamento para os grandes, tanto quanto para os pequenos. Para as crianças, é uma eloquente lição, embora muda; e que não falta de deixar salutares impressões. Aqueles que forem educados nessas ideias jamais serão incrédulos, porque, mais tarde, a razão virá confirmar as crenças nas quais terão sido embalados.
A ideia da presença, ao seu redor, de seus avós ou de pessoas veneradas, será para eles um freio mais poderoso do que o medo do diabo.

Revista Espírita, setembro de 1868

Oração do Natal

Maria Santíssima e JesusRei Divino, na palha singela, porque te fizeste criança diante dos homens, quando podias ofuscá-los com a grandeza do teu Reino?
Soberano da Eternidade, por que estendeste braços pequerruchos e tenros aos pastores humildes, mendigando-lhes proteção, quando o próprio firmamento te saudava com uma estrela sublime, emoldurada de melodias celestes?
Certamente, vinhas ao encontro de nosso coração para libertá-lo. Procuravas o asilo de nossa alma para convertê-la em harpa nas tuas mãos.
Preferias esmolar segurança e carinho para que, em te amando, de algum modo, na manjedoura esquecida, aprendêssemos a amar-nos uns aos outros.
Tornava-lhes pequenino para que a sombra do orgulho se desfizesse em torno de nossos passos e pedias compaixão, porque não nos buscava por adornos do teu carro de triunfo como vassalos de tua glória, mas, sim, por amigos espontâneos de tua causa e por tutelados de tua benção.
E modificaste assim o destino das nações. Colocaste o trabalho digno onde a escravidão gerava a miséria; acendeste a claridade do perdão onde a noite do ódio assegurava o império do crime e ensinaste-nos a servir e a morrer para que a vida se tornasse mais bela... É por isso que, ajoelhados em espírito, recordo-te o berço pobre, ofertamos-te o coração.
Arranca-o Senhor, da grade do nosso peito enferrujado de egoísmo e faze-o chorar de alegria no deslumbramento de tua luz! Conduze-nos ainda aos tesouros da humildade, para que o poder sem amor não nos enlouqueça a inteligência e deixa-nos entoar o cântico dos pastores quando repetiam, em pranto jubiloso, a mensagem dos anjos:
-Glória a Deus nas alturas, paz na terra e boa vontade para com os homens!

-Chico Xavier/Meimei

As Memórias de um Marido

Pelo Senhor Fernando Duplessis

Os traços que se encontram por toda a parte do Espiritismo são como as inscrições e as medalhas antigas que atestam, através dos séculos, o movimento do espírito humano. As crenças populares contêm, sem contradita, os traços, ou melhor, os germes das ideias espíritas em todas as épocas e em todos os povos, mas misturadas às lendas supersticiosas, como o ouro das minas está misturado à ganga. Não é ali somente que é preciso procurá-las, é na expressão dos sentimentos íntimos, porque é aí que se as encontra, frequentemente, no estado de pureza. Se se pudesse sondar todos os arquivos do pensamento, ficar-se-ia surpreso de ver a que ponto elas estão enraizadas no coração humano, desde a vaga intuição até aos princípios limpamente formulados. Ora, quem, pois, fê-las nascer antes do aparecimento do Espiritismo? Dir-se-á que é uma influência de associação? Elas ali nascem espontaneamente, porque estão na Natureza; mas, frequentemente, elas foram abafadas ou desnaturadas pela ignorância e pelo fanatismo.
Hoje o Espiritismo, passado ao estado de filosofia, vem arrancar essas plantas parasitas, e constituir um corpo de doutrina do que não era senão uma vaga intuição.
Um de nossos correspondentes de Joinville-sur-Marne, o Sr. Petit-Jean, ao qual já devemos numerosos documentos sobre este assunto, deles nos manda um dos mais interessantes, que estamos felizes em acrescentar aos que já publicamos:

Joinville, 16 de julho de 1868.

"Eis ainda os pensamentos Espíritas! Aqueles têm tanto mais de importância quanto eles não são, como muitos outros, o produto da imaginação, ou uma ideia explorada pelos romancistas; é a exposição de uma crença partilhada pela família de um convencional e expressada na circunstância mais grave da vida, onde não se pensa em jogar com as palavras.
"Eu as hauri numa obra literária, tendo por título:
As Memórias de um Marido, que não são outras senão o relato detalhado da vida do Sr. Fernand Duplessis. Essas Memórias foram editadas em 1849, por Eugène Sue, ao qual o Sr. Fernand Duplessis as remeteu, com a missão de entregá-las à publicidade, a título, segundo suas próprias expressões, de expiação para ele e de ensinamentos para os outros. Eu vos dou a análise das passagens que têm mais relação com a nossa crença."
"A senhora Raymond, assim como seu filho, prisioneiros políticos, recebem a visita do Sr. Fernand Duplessis, seu amigo. Esta visita deu lugar a uma conversação, em consequência da qual a senhora Raymond teve a seguinte conversa com seu filho (página 121):
"Vejamos, meu filho, - replicou a senhora Raymond com um tom de afetuosa censura, - foi ontem que demos nossos primeiros passos nesta carreira onde se deve agradecer a Deus por um dia sem angústias? É que se persegue, é que se atinge o objetivo onde estaremos sem dor, sem perigos e, frequentemente, sem martírio? É que não nos dissemos cem vezes que a nossa vida não nos pertence, mas a essa santa causa da liberdade pela qual teu pai morreu sobre o cadafalso? É que desde que tens a idade da razão não fomos habituados a este pensamento de que um dia eu poderia ter que fechar tuas pálpebras como tu poderás fechar as minhas? É de que há de que se entristecer antecipadamente? Jamais me vês sombria, banhada em lágrimas, porque vivo sempre com a lembrança querida e sagrada de teu pai, do qual beijei a fronte ensanguentada, e que enterrei com as minhas mãos? Não temos fé, como nossos pais, os Gauleses, no renascimento indefinido de nossos corpos e de nossas almas, que vão alternativamente povoar a imensidade dos mundos? Para nós, o que é a morte? O começo de uma outra vida, nada de mais. Estamos neste lado da cortina, passamos do outro, onde imensas perspectivas esperam nossos olhares. Quanto a mim, não sei se é porque sou filha de Eva, acrescenta a senhora Raymond com um meio sorriso, mas o fenômeno da morte jamais me inspirou senão uma excessiva curiosidade."
Página 208. - "O pensamento da morte excita, sobretudo em Jean, uma curiosidade muito viva. Espiritualista por essência, ele partilha com a sua mãe, seu tio e Charpentier, a viril crença que foi a de nossos pais, os Gauleses. Segundo o admirável dogma druídico, o homem sendo imortal, alma e corpo, espírito e matéria, ele iria assim, alma e corpo, incessantemente renascer e viver de mundo em mundo, se elevando a cada nova migração para uma perfeição infinita como a do Criador.
"Somente esta valente crença explica, aos meus olhos, o desprendimento soberbo com o qual Jean e sua mãe encaravam os terríveis problemas e lançam tanta perturbação e pavor nas almas fracas, habituadas a ver na morte o nada ou o fim da vida física, ao passo que a morte não é senão a hora de um renascimento completo que uma outra vida espera com suas novidades misteriosas.
"Mas, ah! não me era dado partilhar esta crença; eu via, com um doloroso pavor, se aproximar o dia fatal em que Jean seria julgado pelo tribunal de Paris. Chegado esse dia, a senhora Raymond pediu-me para acompanhá-la a essa temível sessão; em vão quis desviá-la desse desígnio, em meu medo de uma condenação à morte dada contra Jean; no entanto, eu não ousava expressar-lhe as minhas apreensões; ela adivinhou o meu pensamento. Meu caro senhor Duplessis, disse-me ela, o pai de meu filho foi morto no cadafalso pela liberdade; eu o enterrei piedosamente com as minhas mãos...se meu filho deve também morrer pela mesma causa, eu saberei cumprir o meu dever com mão firme... Credes que se possa condenar Jean à morte?... Eu creio, eu, que não se pode condená-lo senão à imortalidade. (Textual.) Dai-me o vosso braço, senhor Duplessis...
Acalmai a vossa emoção, e vamos à Câmara de Paris.
"Jean foi condenado a morte e deveria ser executado no segundo dia depois. Eu fui vê-lo em sua prisão, e esperava apenas ter a força de resistir a essa última e fúnebre entrevista. Quando eu entrei, ele fazia, sob a vigilância de um soldado, a sua toalete matinal com um cuidado tão minucioso quanto se estivesse em sua casa. Ele veio a mim estendendo-me as mãos; depois, olhando-me no rosto, disse-me com ansiedade: - Meu Deus! meu bom Fernand, como estás pálido!... Que tens, pois? - É que eu! exclamei afundando em lágrimas e me lançando ao seu pescoço, tu mo perguntas! - Pobre Fernand! respondeu-me, tocado pela minha emoção, acalma-te... coragem! - E és tu que me encorajas neste momento supremo! disse-lhe eu; mas és, pois, como tua mãe, dotado de uma força sobre-humana?
"-Sobre-humana!... não; nos dás muita honra, replicou ele sorrindo; mas minha mãe e eu sabemos o que é a morte... e ela não nos amedronta... Vossa alma muda de corpo, como os nossos corpos mudam de roupas; vamos reviver em outro lugar e esperar ou nos juntar àqueles que amamos... Graças a esta crença, meu amigo, e à curiosidade de ver os mundos novos, misteriosos; enfim, graças à consciência do acontecimento próximo de nossas ideias e à certeza de deixar depois de si a memória de um homem honesto, tu o reconhecerás, a partida deste mundo não oferece nada do todo assustador, ao contrário."
“Jean Raymond não foi executado; sua pena foi comutada em uma detenção perpétua, e foi transferido à citadela de Doullens”.

Revista Espírita, setembro de 1868

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