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Senhorita Clary

A senhorita Clary, interessante menina, falecida em 1850, aos 13 anos de idade, desde então ficou como o gênio da família, onde é evocada com frequência e onde dá um grande número de comunicações do mais alto interesse. A palestra que damos a seguir ocorreu entre nós a 12 de janeiro de 1857, por intermédio de seu irmão, que é médium:
1. Tem uma lembrança precisa de sua existência corporal?
—O Espírito vê o presente, o passado e um pouco do futuro, conforme sua perfeição e a proximidade de Deus.
2. Esta condição de perfeição é relativa apenas ao futuro, ou se refere igualmente ao presente e ao passado?
—O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se aproxima de Deus. Depois da morte a alma vê e abarca, de um relance, todas as passadas migrações, mas não pode ver aquilo que Deus lhe prepara. Para isto é preciso que esteja inteiramente em Deus, desde muitas existências.
3. Sabe em que época será sua reencarnação?
—Em dez ou em cem anos.
4. Na Terra ou em outro mundo?
—Num outro.
5. O mundo para onde irá, comparado com a Terra, terá condições melhores, iguais ou inferiores?
—Muito melhores que as da Terra; lá se é feliz.
6. Desde que aqui se encontra, está num lugar qualquer; qual é ele?
—Estou em aparência etérea; posso dizer que meu Espírito, propriamente dito, estende-se muito mais longe; vejo muitas coisas e me transporto para muito longe daqui com a velocidade do pensamento; minha aparência está à direita de meu irmão e guia-lhe o braço.
7. Este corpo etéreo, de que se reveste, permite-lhe experimentar sensações físicas, como por exemplo, de calor e de frio?
—Quando me lembro muito de meu corpo sinto uma espécie de impressão, como quando se tira um manto e se fica com a sensação de que, por algum tempo, ainda se está com ele.
8. Disse que pode transportar-se com a velocidade do pensamento; o pensamento não é a própria alma que se desprende de seu envoltório?
—Sim.
9. Quando seu pensamento se dirige a alguma parte, como se dá a separação de sua alma?
—A aparência se esvai; o pensamento vai só.
10. É, pois, uma faculdade que se destaca; o ser fica onde está?
—A forma não é o ser.
11. Mas, como age o pensamento? Não age sempre por meio da matéria?
—Não.
12. Quando sua faculdade de pensar se destaca, você não age, então, por meio da matéria?
—A sombra se esvai; e reproduz-se onde o pensamento a guia.
13. Desde que você tinha apenas treze anos quando seu corpo morreu, como é que, sobre perguntas tão abstratas, pode nos dar respostas que estão fora do alcance de uma criança de sua idade?
—Minha alma é muito antiga!
14. Entre suas existências anteriores pode citar-nos uma na qual tivesse elevado ao máximo os seus conhecimentos?
—Estive no corpo de um homem que tornei virtuoso; depois de sua morte estive no corpo de uma menina cujo rosto estampava a própria alma; Deus me recompensa.
15. Poderia ser-nos concedido vê-la aqui tal qual é atualmente?
—Poderia.
16. Como seria possível? Depende de nós, de você ou das pessoas mais íntimas?
—De vocês.
17. Que condições deveríamos satisfazer para consegui-lo?
—Recolherem-se algum tempo, com fé e fervor; ser menos numerosos, isolarem-se um pouco e arranjar um médium do gênero "Home".

Provas Terrestres dos Homens em Missão

Cura de ArsJoão Maria Batista Vianney foi um sacerdote francês, canonizado pela Igreja Católica. É considerado o padroeiro dos sacerdotes. Também é conhecido como Santo Cura de Ars. (Wikipédia)
Nascimento: 8 de maio de 1786, Dardilly, França
Falecimento: 4 de agosto de 1859, Ars-sur-Formans, França
Filiação: Matthieu Vianney e Marie Beluze

Douay, 8 de março de 1867 – Médium: Sra. M…
É preciso, meus filhos, que o sangue depure a Terra; terrível luta ainda mais horrível pelo esplendor da civilização em cujo meio ela rebenta. Que, Senhor! Quando tudo se prepara para apertar os laços dos povos de um extremo a outro do mundo! Quando na aurora da fraternidade material se veem as linhas de demarcação de raças, costumes e linguagem tenderem para a unidade, chega a guerra com seu cortejo de ruínas, de incêndios, de profundas divisões, de ódios religiosos. Sim, tudo isto porque nada em nosso progresso foi segundo o Espírito de Deus; porque vossos laços não foram apertados nem pela bondade, nem pela lealdade, mas apenas pelo interesse; porque não é a verdadeira caridade que impõe silêncio aos ódios religiosos, mas a indiferença; porque as barreiras não foram diminuídas em vossas fronteiras pelo amor de todos, mas pelos cálculos mercantis; enfim, porque as vistas são humanas e instintivas, e não espirituais e caridosas; porque os governantes só buscam os seus proveitos, e cada um, entre os povos, faz outro tanto.
Sublime desinteresse de Jesus e de seus apóstolos, onde estás? - Ficais tristes, meus filhos, quando algumas vezes pensais na rude missão desses Espíritos sublimes, que vêm levantar a coragem da Humanidade e morrer na tarefa, depois de ter esvaziado o cálice amargo das ingratidões humanas. Gemeis por ver que o Senhor, que os enviou, parece abandoná-los no momento em que sua proteção parece mais necessária. Não vos falaram das provas que sofrem os Espíritos elevados no momento de transpor um degrau mais alto na iniciativa espiritual? Não vos disseram que cada grau da hierarquia celeste se compra pelo mérito, pelo devotamento, como entre vós, no exército, pelo sangue derramado e pelos serviços prestados? Pois bem! é o caso em que se encontram os Messias nesta terra de dores; são sustentados enquanto dura sua obra humanitária, enquanto trabalham pelo homem e para Deus, mas, quando só eles estão em jogo, quando sua prova se torna individual, o socorro visível se afasta, a luta se mostra áspera e rude quando o homem deve sofrê-la.
Eis a explicação desse aparente abandono, que vos aflige na vida dos missionários de todos os graus de vossa Humanidade. Não penseis que Deus abandone jamais a sua criatura por capricho ou impotência; não, mas no interesse de seu adiantamento ele a deixa às suas próprias forças, ao completo emprego de seu livre-arbítrio.

Cura d’Ars

A Poltrona dos Antepassados

Mesa e cadeiras antigasFoi-nos dito que, na casa de um escritor e poeta de grande renome, existe um uso que parecerá estranho a quem não seja Espírita. Na mesa da família há sempre uma poltrona vazia; essa cadeira é fechada por um cadeado, e nela ninguém se senta: é o lugar dos antepassados, dos avós e dos amigos que deixaram este mundo; está aí como um respeitoso testemunho de afeto, uma piedosa lembrança, um chamado à sua presença, e para dizer que vivem sempre no espírito dos sobreviventes.
A pessoa que nos citou este fato, como o tendo de boa fonte, acrescenta:
“Os Espíritas repelem com razão as coisas de pura forma; mas se há uma que possam adotar sem derrogar seus princípios, sem contradita, é esta.”
Seguramente, está aí um pensamento que jamais nascerá no cérebro de um materialista; ele não só atesta a ideia espiritualista, mas é eminentemente Espírita, e não nos surpreende de nenhum modo da parte de um homem que, sem arvorar abertamente a bandeira do Espiritismo, muitas vezes afirmou a sua crença nas verdades fundamentais que dele decorrem.
Há, nesse uso, alguma coisa de tocante, de patriarcal, e que impõe o respeito.
Quem, com efeito, ousaria pô-la em ridículo? Esta não é uma dessas fórmulas estéreis que nada dizem à alma: é a expressão de um sentimento que parte do coração, o sinal sensível do laço que une os presentes aos ausentes. Nessa cadeira, vazia em aparência, mas que o pensamento ocupa, está toda uma profissão de fé, e além disto, todo um ensinamento para os grandes, tanto quanto para os pequenos. Para as crianças, é uma eloquente lição, embora muda; e que não falta de deixar salutares impressões. Aqueles que forem educados nessas ideias jamais serão incrédulos, porque, mais tarde, a razão virá confirmar as crenças nas quais terão sido embalados.
A ideia da presença, ao seu redor, de seus avós ou de pessoas veneradas, será para eles um freio mais poderoso do que o medo do diabo.

Revista Espírita, setembro de 1868

Oração do Natal

Maria Santíssima e JesusRei Divino, na palha singela, porque te fizeste criança diante dos homens, quando podias ofuscá-los com a grandeza do teu Reino?
Soberano da Eternidade, por que estendeste braços pequerruchos e tenros aos pastores humildes, mendigando-lhes proteção, quando o próprio firmamento te saudava com uma estrela sublime, emoldurada de melodias celestes?
Certamente, vinhas ao encontro de nosso coração para libertá-lo. Procuravas o asilo de nossa alma para convertê-la em harpa nas tuas mãos.
Preferias esmolar segurança e carinho para que, em te amando, de algum modo, na manjedoura esquecida, aprendêssemos a amar-nos uns aos outros.
Tornava-lhes pequenino para que a sombra do orgulho se desfizesse em torno de nossos passos e pedias compaixão, porque não nos buscava por adornos do teu carro de triunfo como vassalos de tua glória, mas, sim, por amigos espontâneos de tua causa e por tutelados de tua benção.
E modificaste assim o destino das nações. Colocaste o trabalho digno onde a escravidão gerava a miséria; acendeste a claridade do perdão onde a noite do ódio assegurava o império do crime e ensinaste-nos a servir e a morrer para que a vida se tornasse mais bela... É por isso que, ajoelhados em espírito, recordo-te o berço pobre, ofertamos-te o coração.
Arranca-o Senhor, da grade do nosso peito enferrujado de egoísmo e faze-o chorar de alegria no deslumbramento de tua luz! Conduze-nos ainda aos tesouros da humildade, para que o poder sem amor não nos enlouqueça a inteligência e deixa-nos entoar o cântico dos pastores quando repetiam, em pranto jubiloso, a mensagem dos anjos:
-Glória a Deus nas alturas, paz na terra e boa vontade para com os homens!

-Chico Xavier/Meimei

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As Memórias de um Marido

Pelo Senhor Fernando Duplessis

Os traços que se encontram por toda a parte do Espiritismo são como as inscrições e as medalhas antigas que atestam, através dos séculos, o movimento do espírito humano. As crenças populares contêm, sem contradita, os traços, ou melhor, os germes das ideias espíritas em todas as épocas e em todos os povos, mas misturadas às lendas supersticiosas, como o ouro das minas está misturado à ganga. Não é ali somente que é preciso procurá-las, é na expressão dos sentimentos íntimos, porque é aí que se as encontra, frequentemente, no estado de pureza. Se se pudesse sondar todos os arquivos do pensamento, ficar-se-ia surpreso de ver a que ponto elas estão enraizadas no coração humano, desde a vaga intuição até aos princípios limpamente formulados. Ora, quem, pois, fê-las nascer antes do aparecimento do Espiritismo? Dir-se-á que é uma influência de associação? Elas ali nascem espontaneamente, porque estão na Natureza; mas, frequentemente, elas foram abafadas ou desnaturadas pela ignorância e pelo fanatismo.
Hoje o Espiritismo, passado ao estado de filosofia, vem arrancar essas plantas parasitas, e constituir um corpo de doutrina do que não era senão uma vaga intuição.
Um de nossos correspondentes de Joinville-sur-Marne, o Sr. Petit-Jean, ao qual já devemos numerosos documentos sobre este assunto, deles nos manda um dos mais interessantes, que estamos felizes em acrescentar aos que já publicamos:

Joinville, 16 de julho de 1868.

"Eis ainda os pensamentos Espíritas! Aqueles têm tanto mais de importância quanto eles não são, como muitos outros, o produto da imaginação, ou uma ideia explorada pelos romancistas; é a exposição de uma crença partilhada pela família de um convencional e expressada na circunstância mais grave da vida, onde não se pensa em jogar com as palavras.
"Eu as hauri numa obra literária, tendo por título:
As Memórias de um Marido, que não são outras senão o relato detalhado da vida do Sr. Fernand Duplessis. Essas Memórias foram editadas em 1849, por Eugène Sue, ao qual o Sr. Fernand Duplessis as remeteu, com a missão de entregá-las à publicidade, a título, segundo suas próprias expressões, de expiação para ele e de ensinamentos para os outros. Eu vos dou a análise das passagens que têm mais relação com a nossa crença."
"A senhora Raymond, assim como seu filho, prisioneiros políticos, recebem a visita do Sr. Fernand Duplessis, seu amigo. Esta visita deu lugar a uma conversação, em consequência da qual a senhora Raymond teve a seguinte conversa com seu filho (página 121):
"Vejamos, meu filho, - replicou a senhora Raymond com um tom de afetuosa censura, - foi ontem que demos nossos primeiros passos nesta carreira onde se deve agradecer a Deus por um dia sem angústias? É que se persegue, é que se atinge o objetivo onde estaremos sem dor, sem perigos e, frequentemente, sem martírio? É que não nos dissemos cem vezes que a nossa vida não nos pertence, mas a essa santa causa da liberdade pela qual teu pai morreu sobre o cadafalso? É que desde que tens a idade da razão não fomos habituados a este pensamento de que um dia eu poderia ter que fechar tuas pálpebras como tu poderás fechar as minhas? É de que há de que se entristecer antecipadamente? Jamais me vês sombria, banhada em lágrimas, porque vivo sempre com a lembrança querida e sagrada de teu pai, do qual beijei a fronte ensanguentada, e que enterrei com as minhas mãos? Não temos fé, como nossos pais, os Gauleses, no renascimento indefinido de nossos corpos e de nossas almas, que vão alternativamente povoar a imensidade dos mundos? Para nós, o que é a morte? O começo de uma outra vida, nada de mais. Estamos neste lado da cortina, passamos do outro, onde imensas perspectivas esperam nossos olhares. Quanto a mim, não sei se é porque sou filha de Eva, acrescenta a senhora Raymond com um meio sorriso, mas o fenômeno da morte jamais me inspirou senão uma excessiva curiosidade."
Página 208. - "O pensamento da morte excita, sobretudo em Jean, uma curiosidade muito viva. Espiritualista por essência, ele partilha com a sua mãe, seu tio e Charpentier, a viril crença que foi a de nossos pais, os Gauleses. Segundo o admirável dogma druídico, o homem sendo imortal, alma e corpo, espírito e matéria, ele iria assim, alma e corpo, incessantemente renascer e viver de mundo em mundo, se elevando a cada nova migração para uma perfeição infinita como a do Criador.
"Somente esta valente crença explica, aos meus olhos, o desprendimento soberbo com o qual Jean e sua mãe encaravam os terríveis problemas e lançam tanta perturbação e pavor nas almas fracas, habituadas a ver na morte o nada ou o fim da vida física, ao passo que a morte não é senão a hora de um renascimento completo que uma outra vida espera com suas novidades misteriosas.
"Mas, ah! não me era dado partilhar esta crença; eu via, com um doloroso pavor, se aproximar o dia fatal em que Jean seria julgado pelo tribunal de Paris. Chegado esse dia, a senhora Raymond pediu-me para acompanhá-la a essa temível sessão; em vão quis desviá-la desse desígnio, em meu medo de uma condenação à morte dada contra Jean; no entanto, eu não ousava expressar-lhe as minhas apreensões; ela adivinhou o meu pensamento. Meu caro senhor Duplessis, disse-me ela, o pai de meu filho foi morto no cadafalso pela liberdade; eu o enterrei piedosamente com as minhas mãos...se meu filho deve também morrer pela mesma causa, eu saberei cumprir o meu dever com mão firme... Credes que se possa condenar Jean à morte?... Eu creio, eu, que não se pode condená-lo senão à imortalidade. (Textual.) Dai-me o vosso braço, senhor Duplessis...
Acalmai a vossa emoção, e vamos à Câmara de Paris.
"Jean foi condenado a morte e deveria ser executado no segundo dia depois. Eu fui vê-lo em sua prisão, e esperava apenas ter a força de resistir a essa última e fúnebre entrevista. Quando eu entrei, ele fazia, sob a vigilância de um soldado, a sua toalete matinal com um cuidado tão minucioso quanto se estivesse em sua casa. Ele veio a mim estendendo-me as mãos; depois, olhando-me no rosto, disse-me com ansiedade: - Meu Deus! meu bom Fernand, como estás pálido!... Que tens, pois? - É que eu! exclamei afundando em lágrimas e me lançando ao seu pescoço, tu mo perguntas! - Pobre Fernand! respondeu-me, tocado pela minha emoção, acalma-te... coragem! - E és tu que me encorajas neste momento supremo! disse-lhe eu; mas és, pois, como tua mãe, dotado de uma força sobre-humana?
"-Sobre-humana!... não; nos dás muita honra, replicou ele sorrindo; mas minha mãe e eu sabemos o que é a morte... e ela não nos amedronta... Vossa alma muda de corpo, como os nossos corpos mudam de roupas; vamos reviver em outro lugar e esperar ou nos juntar àqueles que amamos... Graças a esta crença, meu amigo, e à curiosidade de ver os mundos novos, misteriosos; enfim, graças à consciência do acontecimento próximo de nossas ideias e à certeza de deixar depois de si a memória de um homem honesto, tu o reconhecerás, a partida deste mundo não oferece nada do todo assustador, ao contrário."
“Jean Raymond não foi executado; sua pena foi comutada em uma detenção perpétua, e foi transferido à citadela de Doullens”.

Revista Espírita, setembro de 1868

Começar de novo

Erros passados, tristezas contraídas, lágrimas choradas, desajustes crônicos!...
Às vezes, acreditas que todas as bênçãos jazem extintas, que todas as portas se mostram cerradas à necessária renovação!...
Esqueces-te, porém, de que a própria sabedoria da vida determina que o dia se refaça cada amanhã.
Começar de novo é o processo da Natureza, desde a semente singela ao gigante solar.
Se experimentaste o peso do desengano, nada te obriga a permanecer sob a corrente do desencanto. Reinicia a construção de teus ideais, em bases mais sólidas, e torna ao calor da experiência, a fim de acalentá-los em plenitude de forças novas.
O fracasso visitou-nos em algum tentame de elevação, mas isso não é motivo para desgosto e auto piedade, porquanto, frequentemente, o malogro de nossos anseios significa ordem do Alto para mudança de rumo, e começar de novo é o caminho para o êxito desejado.
Temos sido desatentos, diante dos outros, cultivando indiferença ou ingratidão; no entanto, é perfeitamente possível refazer atitudes e começar de novo a plantação da simpatia, oferecendo bondade e compreensão àqueles que nos cercam.
Teremos perdido afeições que supúnhamos inalteráveis; todavia, não será justo, por isso, que venhamos a cair em desânimo.
O tempo nos permite começar de novo, na procura das nossas afinidades autênticas, aquelas afinidades suscetíveis de insuflar-nos coragem para suportar as provações do caminho e assegurar-nos o contentamento de viver.
Desfaçamo-nos de pensamentos amargos, das cargas de angústia, dos ressentimentos que nos alcancem e das mágoas requentadas no peito! Descerremos as janelas da alma para que o sol do entendimento nos higienize e reaqueça a casa íntima.
Tudo na vida pode ser começado de novo para que a lei do progresso e de aperfeiçoamento se cumpra em todas as direções.
Efetivamente, em muitas ocasiões, quando desprezamos as oportunidades e tarefas que nos são concedidas na Obra do Senhor, voltamos tarde a fim de revisá-las e reassumi-las, mas nunca tarde demais.

Chico Xavier/Emmanuel
Do livro Alma e Coração

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Como perdoar

Na maioria dos casos, o impositivo do perdão surge entre nós e os companheiros de nossa intimidade, quando o suco adocicado da confiança se nos azeda no coração.
Isso acontece porque, geralmente, as mágoas mais profundas repontam entre os Espíritos vinculados uns aos outros na esteira da convivência.
Quando nossas relações adoeçam, no intercâmbio com determinados amigos que, segundo a nossa opinião, se transfiguram em nossos opositores, perguntemo-nos com sinceridade: “como perdoar, se perdoar não se resume à questão de lábios e sim a problema que afeta os mais íntimos mecanismos do sentimento?”
Feito isso, demo-nos pressa em reconhecer que as criaturas em desacerto pertencem a Deus e não a nós; que também temos erros a corrigir e reajustes em andamento; que não é justo retê-las em nossos pontos de vista, quando estão, qual nos acontece, sob os desígnios da Divina Sabedoria que mais convém a cada um, nas trilhas do burilamento e do progresso. Em seguida, recordemos as bênçãos de que semelhantes criaturas nos terão enriquecido no passado e conservemo-las em nosso culto de gratidão, conforme a vida nos preceitua.
Lembremo-nos, também, de que Deus já lhes terá concedido novas oportunidades de ação e elevação em outros setores de serviço e que será desarrazoado de nossa parte manter processos de queixa contra elas, no tribunal da vida, quando o próprio Deus não lhes sonega Amor e Confiança.
Quando te entregares realmente a Deus, a Deus entregando os teus adversários como autênticos irmãos teus, – tão necessitados do Amparo Divino quanto nós mesmos, penetrarás a verdadeira significação das palavras de Cristo: “Pai, perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”, reconciliando-te com a vida e com a tua própria alma.
Então, saberás oscular de novo a face de quem te ofendeu, e quem te ofendeu encontrará Deus contigo e te dirá com a mais pura alegria no coração: “bendito sejas”…

Chico Xavier/Emmanuel
Do livro Alma e Coração

Efeito do perdão

Dentre os ângulos do perdão, um existe dos mais importantes, que nos cabe salientar: os resultados dele sobre nós mesmos, quando temos a felicidade de desculpar.
Muito frequentemente interpretamos o perdão como sendo simples ato de virtude e generosidade, em auxílio do ofensor, que passaria a contar com a absoluta magnanimidade da vítima; acontece, porém, que a vítima nem sempre conhece até que ponto se beneficiará o agressor da liberalidade que flui do comportamento, porquanto, não nos é dado penetrar no íntimo mais íntimo dos outros e, por outro lado, determina a bondade se relegue ao esquecimento os detritos de todo mal.
Urge perceber, no entanto, que, quando conseguimos desculpar o erro ou a provocação de alguém contra nós, exoneramos o mal de qualquer compromisso para conosco, ao mesmo tempo em que nos desvencilhamos de todos os laços suscetíveis de prender-nos a ele.
Pondera semelhante realidade e não te admitas carregando os explosivos do ódio ou os venenos da mágoa que destroem a existência ou corroem as forças orgânicas, arremessando a criatura para a vala da enfermidade ou da morte sem razão de ser.
Efetivamente, conhecerás muitas vezes a intromissão do mal em teu caminho, mormente se te consagras com a diligência e decisão à seara do bem, mas não te permitas a leviandade de acolhê-lo e transporta-lo contigo, à maneira de lâmina enterrada por ti mesmo no próprio coração.
Diante de ofensas quaisquer, defende-te, pacifica-te e restaura-te, perdoando sempre. Nas trilhas da vida, somos nós próprios quem acolhe em primeiro lugar e mais intensivamente os resultados da intolerância, quando nos entrincheiramos na dureza de alma.
Sem dúvida, é impossível saber, quando venhamos a articular o perdão em favor dos outros, se ele foi corretamente aceito ou se produziu as vantagens que desejávamos; entretanto, sempre que olvidemos o mal que se nos faça, podemos reconhecer, de pronto, os benéficos efeitos do perdão conosco, em forma de equilíbrio e de paz agindo em nós.

Chico Xavier/Emmanuel

Cura do mal

Quando Jesus nos ensinou a perdoar, concedeu-nos o máximo de poder imunológico para frustrar o contágio do ódio e do desequilíbrio, em nosso relacionamento recíproco.
Perdoa a quem te persegue ou calunia, no veículo do silêncio, e situarás o agressor, na cela íntima do arrependimento, na qual se lhe transformarão os sentimentos para a cura espiritual que se lhe faz precisa.
Perdoa, sem comentários, a quem te ofende e a breve tempo, te conscientizarás dos males que evitaste e das esperanças com que renovaste muitos dos corações que te partilham a vida.
Se alguém te feriu, perdoa e silencia. Se alguém te prejudicou, silencia e perdoa sempre. Quando todos nós praticarmos o perdão que o Cristo nos legou, teremos afastado do mundo as calamidades da própria guerra, que na essência, é a cristalização do mal que nos induz a apoiar, voluntária ou involuntariamente, o extermínio de milhões de pessoas.

Chico Xavier/Emmanuel
Do livro: Hora Certa

Férias da Sociedade Espírita de Paris

Revista Espírita de Setembro de 1862

Sociedade Espírita de Paris, 1º de agosto de 1862.
Médium senhor E. Vézy.
Ides, pois, separar-vos por algum tempo, nas os bons Espíritos estarão sempre com os que lhes pedirem auxílio e apoio.
Se cada um de vós deixa a mesa do mestre, não é apenas para exercício ou repouso, mas ainda para servir, onde quer que vos espalheis, à grande causa humanitária, sob a bandeira a cujo abrigo vos pusestes.
Bem compreendeis que para o Espírita fervoroso não há horas designadas para o estudo; toda a sua vida não é mais que uma hora, e ainda demasiado curta para o trabalho a que se dedica: o desenvolvimento intelectual das raças humanas!
Os galhos não se destacam do tronco porque destes se afastem: ao contrário, dão lugar a novos impulsos que os unem e os solidarizam.
Aproveitai estas férias que vão espalhar-vos, para vos tornardes ainda mais fervorosos, a exemplo dos Apóstolos do Cristo: saí deste cenáculo fortes e corajosos; que vossa fé e as boas obras liguem em torno de vós milhares de crentes, que abençoarão a luz que espalhareis em vosso redor.
Coragem! Coragem! No dia do encontro, quando a auriflama do Espiritismo vos chamar ao combate e se desdobrar sobre vossas cabeças, que cada um tenha em volta de si os adeptos que houver formado sob sua bandeira, e os bons Espíritos dirão o seu número e o levarão a Deus!
Não durmais, pois, Espíritas, à hora da sesta: velai e orai! Já vos disse e outras vezes vo-lo repetirão, soa o relógio dos séculos, uma vibração retine, chamando os que se acham na noite. Infelizes dos que não a quiserem escutar!
Espíritas! Ide despertar os adormecidos e dizei-lhes que vão ser surpreendidos pelas vagas do mar que sobe em rugidos surdos e terríveis; ide dizer-lhes que escolham um lugar mais iluminado e mais sólido, porque eis que os astros declinam e a natureza inteira se move, treme, agita-se!...
Mas após as trevas eis a luz; e aqueles que não tiverem querido ver e ouvir imigrarão naquela hora para mundos inferiores a fim de expiar e esperar longamente, mui longamente, os novos astros que devem elevar-se e os esclarecer. E o tempo lhes parecerá eternidade, pois não lobrigarão o término de suas penas, até o dia em que começarem a crer e compreender.
Espíritas, não mais vos chamarei crianças, mas homens, homens valentes e corajosos! Soldados de nova fé, combatei valentemente; armai o braço com a lança da caridade e cobri o corpo com o escudo do amor. Entrai na liça! Alerta! Alerta! Calcai aos pés o erro e a mentira e estendei a mão aos que vos perguntarem: “Onde está a luz?” Dizei-lhe que os que marcham guiados pela estrela do Espiritismo não são pusilânimes, que se não deslumbrem com miragens e não aceitem como leis senão aquilo que ordena a razão fria e são; que a caridade é a sua divisa e que não se despojem por seus irmãos senão em nome da solidariedade universal e nunca para ganharem um paraíso que sabem muito bem que não podem possuir senão quando tiverem expiado bastante!... Que conheçam a Deus e que, antes de tudo, saibam que ele é imutável em sua justiça, e, consequentemente, não pode perdoar uma vida de faltas acumuladas por um segundo de arrependimento, como não pode punir uma hora de sacrilégio por uma eternidade de suplício!...
Sim, Espíritas! Contai os anos de arrependimento pelo número das estrelas, mas a idade de ouro virá para aquele que tiver sabido contá-los.
Ide, pois, trabalhadores e soldados e que cada um volte com a pedra ou o seixo que deve auxiliar a construção do novo edifício. Em verdade vos digo, desta vez não mais tereis que temer a confusão, posto que, querendo elevar ao céu a torre que o coroará: ao contrário, Deus estenderá a sua mão ao vosso caminho, a fim de vos abrigar das tempestades.
Eis a segunda hora do dia, eis os servidores que vêm de novo da parte do Mestre procurar trabalhadores: vós, que estais desocupados, vinde e não espereis a última hora!...

Santo Agostinho

Conteúdo sindicalizado