Poema da Coragem

Vale de La Luna

Não procures, amigo,
Muito conforto no caminho humano
E persiste em lutar…
Sem a nossa vitória no perigo,
Sem a rude lição do desengano,
É difícil marchar.

Há muita gente pelo mundo afora
Formosos corações,
Na fé indiferente
Que louva a Paz, cantando de hora em hora,
Parecendo gozar consolações,
Mas dorme simplesmente.

Enquanto houver na Terra alma ferida,
Em sombra espessa que nos desagrade,
Ao fel da mágoa ultriz,
Não há céu verdadeiro para a vida,
Ninguém conhecerá tranquilidade,
Nem pode ser feliz.

Se te sentes na areia do deserto,
Não te abrigues no oásis mentiroso
Onde a ilusão tem fim…
Segue enxugando o pranto que vai perto
E ainda que os pés te sangrem sem repouso,
Prossegue mesmo assim.

O herói vive de anseios incessantes
Agindo atormentado;
Sob o peso da cruz,
Alça, em serviço a bem dos semelhantes,
O próprio coração ensanguentado
E parte para a Luz!

Carmem Cinira

Coração

Tuvalu
O coração é luz indefinida
Que brilha renovada, eternamente.
E encontrarás a luz da própria vida
Onde guardarás seu calor ardente.

Se o pântano procuras, cada dia,
Centralizando nele o sentimento,
Descobrirás teu mundo de alegria,
Sob a lama do charco lodacento.

Se te empenhas à caça da ventura
Na glória excelsa de servir sem louros,
Conquistarás, cantando a paz segura
O mais belo de todos os tesouros.

Vigia o teu roteiro e a tua norma
E foge ao desvario dos extremos…
Toda a nossa existência se transforma
Naquilo que buscamos e queremos.

Elege em Cristo o Condutor Divino
De teus sonhos, desejos e esperanças,
O coração modela o teu destino…
Sentindo pensarás, pensando alcanças.

João Coutinho

No Santuário da Oração

Aurora

No santuário da prece,
Toda treva de aflição
Transforma-se em luz sublime
Da aurora de redenção.

A dor que fere e castiga
O coração sofredor,
Converte-se, dentro d’alma,
Em fulcro renovador.

O mal que esparge, às mãos cheias,
Calúnias, golpes, labéus,
É benefício do mundo
Que ajuda escalar os Céus.

A pedrada portadora
De dorida cicatriz,
É degrau vitorioso
Para a vida mais feliz.

A incompreensão que fulmina
Aspirações, ideais,
É porta maravilhosa
De júbilos imortais.

A tempestade que ruge
Qual dragão no céu de anil,
É mensageira operosa,
De graças e bênçãos mil.

Todo o espinho que magoa
Por mais rude, mais cruel,
Transforma-se em flor divina,
Tocada de luz e mel.

Orai sem desfalecer
Nas sombras de vossa cruz
Que a prece nos faz sentir
O Sol do Amor de JESUS!…

Casimiro Cunha

Entre Nós

Flor parasitária

Coração que não se abre
À sementeira do amor
Não guarda com segurança
A luz do Consolador.

Muita leitura sem obras
De ensino e consolação
Traz a flor parasitária
Da inútil conversação.

Desalento choramingas
Em pranto sempre a correr
Expressa, frequentemente,
Muito serviço a fazer.

Comentários contra ingratos,
Verbo amargoso e violento,
São tristes revelações
Do anseio de isolamento.

Discursos sem caridade
Fraternidade sem portas
Tribunas que não amparam
São sinais de fontes mortas.

Fadiga de todo instante,
Chorosa, escura e cediça,
Traduz, sem contestação,
Fragilidade e preguiça.

Cabeça muito ilustrada
Sobre a vida em calmaria
É uma lavrada em ouro,
Muito nobre, mas vazia.

Entusiasmo eloquente
Sem atos de amor cristão
É fogo de palha seca
Em bolhas de água e sabão.

Sublime conhecimento
Distanciado do bem,
É tesouro enferrujado
Que não ajuda a ninguém.

Banquetes da inteligência,
Sem Jesus suprindo a mesa,
São brilhos da força bruta
Em pedras da natureza.

Casimiro Cunha

Fórmula da Paz

Recanto de Paz
Amigo, desperta e vive,
Na Terra, a vida é batalha,
Em que o maior vencedor,
É aquele que mais trabalha.

Há dúvidas amargosas
Cortando-te o coração?
Procura diminuir
As dores de teu irmão.

Repara, angustiado,
Teus sonhos ao desabrigo?
Há milhões na retaguarda.
Rogando-te o braço amigo.

A calúnia visitou-te
As fibras de lutador?
Intensifica, sem mágoas,
A sementeira do amor.

Há campo para a tristeza
Em tua vida mental?
Age sempre, combatendo
A sombra, a miséria, o mal…

Desânimos infecundos,
Moléstias daquilo ou disso
São todos remediáveis
Pela expansão do serviço.

Se pretendes a vitória
Da vida ditosa e crente,
Ajuda sem distinção
E serve constantemente.

Casimiro Cunha

Bom Ânimo

Amanhecer no Campo

Não te entregues à lágrima somente
Quando a Dor te procure o coração.
Em todo clima, vive muita gente,
Perdendo o dom da vida inutilmente
Na noite espessa da lamentação.

Não te prendas ao sangue da pedrada,
Nem te aguilhoes a escombros…
Continua, com o Cristo, a caminhada,
Sustentando a esperança iluminada
Na cruz de espinhos que te verga os ombros.

Todo aquele que chora em demasia,
Na sementeira de miséria e luto,
Colhe a amargura desvairada e fria
E anda cego o infeliz, à luz do dia,
Menosprezando a benção do minuto.

Renuncia e perdoa, ajuda e canta,
Esquecendo o desânimo infecundo,
Segue a bondade milagrosa e santa,
Cada aurora que fulge e se levanta
É Novo Dia, a resplandecer no mundo.

Tem bom ânimo e avança, sobranceiro,
Para o amanhã que a fé te descortina…
Lembra o Sublime e Excelso Mensageiro
Que fez dos braços tristes do madeiro
Asas de luz para a ascensão divina.

Carmem Cinira

No Fim

Ao fim do corpo, a luz de nossos olhos
Transfere-se aos mais íntimos refolhos
Do templo misterioso da consciência…
Nos cumes luminosos da existência,

Brilha a VERDADE em fúlgido estandarte,
Revelando o SENHOR em toda a parte…
É então que observamos o passado
Levantar-se completo, restaurado,

Assinalando em traços manifestos,
Nossas palavras, nossos atos, nossos gestos.
Ergue-se na luz plena

Em voz serena e alta,
Para falar do bem que nos exalta,
Para dizer do mal que nos condena…

Carmem Cinira

Perdoa Sempre

Perdoa, meu irmão,
A noite triste e densa,
Porque a noite nos traz da escuridão
A alvorada por doce recompensa.

Desculpa, meu amigo,
Os acúleos das dores,
Quase sempre o espinho traz consigo
A oferenda das flores.

Suporta, conformado,
Os golpes da amargura,
Pois muitas vezes, o fel inesperado
Traz a bênção da cura.

Tolera a tempestade que alardeia
Violência e furor…
Finda a tormenta, a Terra brilha cheia
De promessas de amor.

Em todo o tempo, a vida é sempre assim
Se o perdão te conduz
Recolherás os júbilos do fim,
Na vitória da luz.

Carmem Cinira

Sonetos de Arnold Souza

REALIDADE

Infeliz de quem segue mundo afora
De coração cerrado à luz da vida.
Infortunado o espírito que chora
Sem um raio de fé n’alma oprimida!…

Desventurado aquele que demora
Na noite de aflição indefinida.
Consumindo a esperança de hora em hora
Na descrença sem luz e sem guarida!…

Foi assim que busquei a morte escura,
Penetrando o portal da sepultura,
Louco de dor, em passos cambaleantes…

Mas, ao em vez de olvido, paz e nada
Encontrei a mim mesmo noutra estrada,
Triste só entre escombros fumegantes…

LUTA E CONFIA

Não te entregues ao mal. Luta e confia,
De mãos sangrentas pela estrada afora,
Glorificando o bem, sofrendo embora
A tormenta de pranto e de agonia.

Enfrenta a tempestade e a noite fria,
E ante a esfinge insolúvel que devora,
Medita e silencia, sonha e chora,
Mas espera o clarão do novo dia.

Não procures a morte escura e extrema,
A fuga não resolve o teu problema
E a dor prossegue, amargurosa e crua…

Recorda, sem cessar, seguindo avante
Que, em tudo, há uma justiça vigilante
E que a Vida Infinita continua…

Sonetos de Antero de Quental

Antero de Quental
A CARNE E O HOMEM
Clamou a Carne ao Homem: – Foge à lida!
Embriaga-te e sonha! Tudo é nada…
A Terra é a nossa vinha iluminada
E eu sou a tua noiva apetecida…

E o pobre cavaleiro, em desabrida,
Sobre o corcel da mente incontentada,
Gozou, riu-se e fugiu à luz da estrada,
Procurando o prazer, de alma insofrida.

Mas veio um dia o Tempo e disse: – Pára!
E alterando-lhe a face nobre e rara,
Deu-lhe a velhice, amargurosa e dura.

E, ofegando na Carne, quase morta,
O Homem triste caiu vencido, à porta
Do jazigo abismal da sepultura.

Antero de Quental
FRÁGIL REI
Disse a Vaidade ao Homem: - Não te dobres!
Reges a Terra e a vastidão divina…
E o Orgulho ajuntou: - Vence e domina,
Humilhando os mais fracos e mais pobres.

Disse o Egoísmo: - A paz em te encobres
Provém da bolsa que não desatina.
Cerra teu cofre e esquece a vã doutrina
Que elege os bons e os tolos por mais nobres.

O Homem riu-se e reinou… Mas, veio um dia
Em que a dor invisível, muda e fria,
Mirou-lhe as torres do castelo forte…

E o frágil rei, fugindo ao falso gozo,
Desceu triste, cansado e desditoso
Para o vale de lágrimas da Morte...

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